segunda-feira, 17 de março de 2008

A Figueira de Tremoços




A cavalo dum burrico,
tloc!tloc!
tloc!tloc!...
pela ponte,
em pedra,
dum só arco,
sobre o ribeiro,
lá seguia,
sózinho,
o moleiro.

Na boca, seca,
uma beata,
sempre acesa
e na mão,
uma chibata.

Tloc!tloc!
tloc!tloc!...

Mais dois sacos,
escarranchados,
bem cheios
de centeio,
a caminho
do moinho.

Oh que destino!

tloc!tloc!
tloc!tloc!...

Para a frente,
sempre adiante,
a vida inteira,
lá seguia,
submisso e manso,
o burrico,
rio abaixo,
rio acima,
carregado,
milho em grão,
de farinha,
ou de centeio,
mais o dono,
gordo,
às cavalitas,
enfarinhado.

Tloc!tloc!
tloc!tloc!...


Pra perdição do burro,
tão manso,
tão pacato,
por ladeiras,
ao longo das veredas,
entre mantos de giestas,
cresciam longos
apetitosos,
extensos ramos
de tremoços...

Que tenrinhos,
saborosos!
-exclamava o burro,
solitário,
salivando.

Tloc!tloc!
tloc!tloc!...

Mesmo à porta
do moinho,
havia uma figueira,
ramalhuda...
Oh que figos,
tão docinhos,
ela dava!...

Eram o reino
e o regalo
bem guloso
do moleiro,
nas horas mortas
do moinho!...

O burrico
bem o sabia
e também as fadas,
suas amigas,
que, de noite,
ali moravam!...

Só a chibata,
dura,
tão maldita,
não parava,
sobre o dorso
do burrico.

Até sangrava!...

Por causa
da verdura dos tremoços,
desde a ponte,
vereda abaixo,
até bem perto
do moinho.

E as fadas,
sentindo pena
do jerico,
juraram vingança,
ao mafarrico
do moleiro...

- Há-de aprendê-las!

Eis que,
num golpe simples,
de magia,
carregaram a figueira
de tremoços
e a borda da ribeira,
de figos doces,
os mais docinhos!...

E o safado
do moleiro,
pasmado com tanto figo,
não resistiu
à tentação.

Saltou do burro
ali ficou
a tarde inteira!...

O burro,esse,
felizardo
e bem ladino,
correu sózinho,
sem parar,
até à figueira
do moinho,
a abarrotar
vergadinha,
de tremoços...
sem a chibata
do moleiro!

quinta-feira, 13 de março de 2008

Praia Deserta




Só eu e o mar,
ao cair da tarde.

Uma multidão de ondas,
brancas,
em cadeia,
em correria louca,
com fragor,
sempre a chegar.

Uma brisa agreste
de tão forte,
quase magoa,
ressoa fresca,
no meu rosto,
sem dizer
o que anda a preparar.

As gaivotas,
às centenas,
muito quietas,
muito caladas,

sobre a areia rendilhada,
voltam-se
alinhadas,
contra o vento
que não pára de bramir.

Seria a hora
do sol-pôr,
se não fosse
este fragor
de tempestade
a ameaçar.


Para quê...
tanta imponência,
e tamanha solidão?

Eu...estou só.
Não sou nada!

Um céu de cinza,
ao fundo,
pesado e negro.


Tamanha maravilha
Para quem?...
Até estonteia.
Parece não ter dono.

Dá que pensar!...

terça-feira, 11 de março de 2008

Ao cair da tarde......



Ao cair da tarde,
enquanto o sol se apaga,
lentamente,
em bandos,
voam as andorinhas;

descem os rebanhos,
lá dos cumes
das montanhas;

do alto mar,
recolhem os barcos
pescadores,
carregados de sardinhas;

Caem as Trindades
e soam as sirenes,
e, de portas escancaradas,
se escoam,
pelas estradas,
as fábricas
e as oficinas,
nervosamente,
se esvaziam as cidades.

É assim
a vida,
breve,
que vai caindo,
lentamente,
como o sol,
ao cair da tarde...