quarta-feira, 26 de março de 2008

Sem preço...De carne e osso



Sinto a fome,
sinto a sede,
sinto o frio
e o calor.

Ora canto,
ora choro,
também durmo.
É possível que
Até ressone!...

Também amo.

Ora oro,
ora adoro,
ora danço,
ora peço.

Também sonho.
Sou criança.

Tenho peito,
tenho lábios,
também beijo,
bebo vinho,
consumo espaço.

Não tenho asas,
nem sou anjo.


Se for preciso,
eu vou a pé,
mesmo descalço.

Não sou de pau,
não sou de cera,
nem sou de aço.

Sou mesmo assim:
de corpo e alma...
de carne e osso.

Não tenho preço!


Almada, 26 de Março de 2008
Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 17 de março de 2008

A Figueira de Tremoços




A cavalo dum burrico,
tloc!tloc!
tloc!tloc!...
pela ponte,
em pedra,
dum só arco,
sobre o ribeiro,
lá seguia,
sózinho,
o moleiro.

Na boca, seca,
uma beata,
sempre acesa
e na mão,
uma chibata.

Tloc!tloc!
tloc!tloc!...

Mais dois sacos,
escarranchados,
bem cheios
de centeio,
a caminho
do moinho.

Oh que destino!

tloc!tloc!
tloc!tloc!...

Para a frente,
sempre adiante,
a vida inteira,
lá seguia,
submisso e manso,
o burrico,
rio abaixo,
rio acima,
carregado,
milho em grão,
de farinha,
ou de centeio,
mais o dono,
gordo,
às cavalitas,
enfarinhado.

Tloc!tloc!
tloc!tloc!...


Pra perdição do burro,
tão manso,
tão pacato,
por ladeiras,
ao longo das veredas,
entre mantos de giestas,
cresciam longos
apetitosos,
extensos ramos
de tremoços...

Que tenrinhos,
saborosos!
-exclamava o burro,
solitário,
salivando.

Tloc!tloc!
tloc!tloc!...

Mesmo à porta
do moinho,
havia uma figueira,
ramalhuda...
Oh que figos,
tão docinhos,
ela dava!...

Eram o reino
e o regalo
bem guloso
do moleiro,
nas horas mortas
do moinho!...

O burrico
bem o sabia
e também as fadas,
suas amigas,
que, de noite,
ali moravam!...

Só a chibata,
dura,
tão maldita,
não parava,
sobre o dorso
do burrico.

Até sangrava!...

Por causa
da verdura dos tremoços,
desde a ponte,
vereda abaixo,
até bem perto
do moinho.

E as fadas,
sentindo pena
do jerico,
juraram vingança,
ao mafarrico
do moleiro...

- Há-de aprendê-las!

Eis que,
num golpe simples,
de magia,
carregaram a figueira
de tremoços
e a borda da ribeira,
de figos doces,
os mais docinhos!...

E o safado
do moleiro,
pasmado com tanto figo,
não resistiu
à tentação.

Saltou do burro
ali ficou
a tarde inteira!...

O burro,esse,
felizardo
e bem ladino,
correu sózinho,
sem parar,
até à figueira
do moinho,
a abarrotar
vergadinha,
de tremoços...
sem a chibata
do moleiro!

quinta-feira, 13 de março de 2008

Praia Deserta




Só eu e o mar,
ao cair da tarde.

Uma multidão de ondas,
brancas,
em cadeia,
em correria louca,
com fragor,
sempre a chegar.

Uma brisa agreste
de tão forte,
quase magoa,
ressoa fresca,
no meu rosto,
sem dizer
o que anda a preparar.

As gaivotas,
às centenas,
muito quietas,
muito caladas,

sobre a areia rendilhada,
voltam-se
alinhadas,
contra o vento
que não pára de bramir.

Seria a hora
do sol-pôr,
se não fosse
este fragor
de tempestade
a ameaçar.


Para quê...
tanta imponência,
e tamanha solidão?

Eu...estou só.
Não sou nada!

Um céu de cinza,
ao fundo,
pesado e negro.


Tamanha maravilha
Para quem?...
Até estonteia.
Parece não ter dono.

Dá que pensar!...

terça-feira, 11 de março de 2008

Ao cair da tarde......



Ao cair da tarde,
enquanto o sol se apaga,
lentamente,
em bandos,
voam as andorinhas;

descem os rebanhos,
lá dos cumes
das montanhas;

do alto mar,
recolhem os barcos
pescadores,
carregados de sardinhas;

Caem as Trindades
e soam as sirenes,
e, de portas escancaradas,
se escoam,
pelas estradas,
as fábricas
e as oficinas,
nervosamente,
se esvaziam as cidades.

É assim
a vida,
breve,
que vai caindo,
lentamente,
como o sol,
ao cair da tarde...