segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


Nasceu sombrio e frio

O terceiro dia de Dezembro.

Sem chuva ou neve.

 

A mesma marcha ininterrupta,

Ali segue em forma,

Pela estrada , como uma valsa,

Ora alegre, ora triste

E, sem sentido.

 

Muitas vezes se esquece.

É de graça, que tudo aparece,

Para seguir caminho,

Com tantas pedras 

E alguns espinhos,

Mas também com bermas

Para não nos perdermos.

 

Nunca se caminha só,

Embora pareça.

 

Vai sempre ao pé,

O amparo terno e atento

De quem nos deixou no berço

E pôs a andar.

Basta chamar.

 

Que filosofia de vida!...

 

Bateu à porta um mendigo

Daqueles que só batem à porta

A pedir esmola.

Errou na porta.

É dum patrão

Que só dá trabalho.

 

E ele vai adiante.

 

À porta ao lado.

E bate. 

 

A vizinha é rica

Porque trabalha.

Já foi pobre,

Quase mendiga.

 

Ela sabe

Como custa

Andar de porta em porta.

A pedir trabalho.

É dele que vem o pão.

 

E abriu a porta.

- Procura trabalho? -perguntou.

 

E o mendigo,

- Não.  Só quero uma esmola.

 

Essa agora?!...

 

E foi-se embora o mendigo.

Sem dizer nada.

 

Ela insistiu.

Porquê?

 

- Porque , sabe?

 

- É duma esmola, somada a outra,

Que me vem a liberdade.

A liberdade está no dinheiro …

 

Com o trabalho sou só escravo.

O trabalho consome a vida.

E a vida é a maior riqueza,

Quando é só nossa

Nunca d’alguém mais

Que só sabe ser ladrão…

 

Zehlendorf, 3 de dezembro de 2012

16h4m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Um estado de alma

 

Alvoreceu sombrio e frio

O terceiro dia de Dezembro.

Sem chuva ou neve.

 

Deste borralho morno,

Onde acordei, observo

 

A mesma marcha ininterrupta,

Que ali vai em forma,

Pela estrada , como uma valsa,

Ora alegre, ora triste.

 

Às vezes, me parece, até

De nenhum sentido.

 

Só porque esqueço

Que é de graça,

Que tudo aparece,

O dia e a noite,

Para seguir caminho,

Mesmo com pedras 

E alguns espinhos,

Mas também com bermas.

 

Nunca se vai só,

Embora pareça.

 

Vai sempre ao pé,

O amparo terno e atento

De quem nos deixou no berço

E pôs a andar.

Basta chamar…

 

Zehlendorf,  3 de Dezembro de 2012

8h42m

Ouvindo H. Grimaud ao piano com Rachmaninov

 

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Alvoreceu sombrio e frio

O terceiro dia de Dezembro.

Sem chuva ou neve.

 

Deste borralho morno,

Onde acordei, observo

 

A mesma marcha ininterrupta,

Que ali vai em forma,

Pela estrada , como uma valsa,

Ora alegre, ora triste.

 

Às vezes, me parece, até

De nenhum sentido.

 

Só porque esqueço

Que é de graça,

Que tudo aparece,

O dia e a noite,

Para seguir caminho,

Mesmo com pedras 

E alguns espinhos,

Mas também com bermas.

 

Nunca se vai só,

Embora pareça.

 

Vai sempre ao pé,

O amparo terno e atento

De quem nos deixou no berço

E pôs a andar.

Basta chamar…

 

Zehlendorf,  3 de Dezembro de 2012

8h42m

Ouvindo H. Grimaud ao piano com Rachmaninov

 

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

domingo, 2 de dezembro de 2012


Armei meus braços

Em forma dum barco

E  lancei-me às ondas

Para me levarem para o largo

E ver a terra de longe,

Serena e dormente,

 

Porque nela é que há tempestade.

 

Trememos de medo.

Quando saímos à rua.

Trememos de frio,

Pelo gelo das gentes.

Criadas para amar.

Gememos de fome de paz e de amor.

 

Está tudo avesso.

Reinam os fortes.

Estremecem os fracos.

Não apetece viver….

 

Mais vale fugir para o mar.

De noite ou de dia,

Há estrelas no céu

E o sol a brilhar.

Bailando nas ondas,

Só Deus nos pode salvar…

 

Ouvindo Lang  Lang, em sonho de Liszt

 

Zehlendorf, 6h53m, 2 de Dezembro de 2012

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Olho o meu País de longe

E vejo um castelo,

Murados de ameias

E muitas muralhas,

Com o povo encerrado,

Como se fosse cadeia.

 

Andam ao longo,

Armados de espadas,

Os guardas ferozes

E sós, nas guaritas,

Os sentinelas.

 

As grossas  portadas ferradas

Só abrem para levarem os escravos ao campo,

Com enxadas nas mãos e grilhetas nos pés.

 

Vão semear e colher, a troco de nada,

Para a cambada comer e reinar.

 

Na torre de menagem…

Habita um sinistro plebeu

Que é soba real,

Escolhido a dedo,

Com contos de fadas,

Pelos próprios escravos,

 

E em seu redor,

Vadiam  os restantes,

Com bicos de abutres,

Todos iguais,

Escorrendo de sangue,

Das entranhas esgaçadas,

Como se fossem punhais.

Assim vai Portugal…

 

Ouvindo Sonho de Amor de franz Liszt

 

Zehlendorf, 2 de Dezembro de 201210h2m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

sábado, 1 de dezembro de 2012


Como um barquinho perdido

No meio dum rio,

Subindo sózinho,

Rio acima,

Regressando à fonte,

Donde se pôs a caminho,

Por serras abaixo,

Até às planuras dos campos,

Clamando socorro,

Às gentes vizinhas,

Na calada da noite,

Remando sem remos,

De vara nas mãos…

 

Aí vai a subir, cansado mas vai…

Subindo no rio,

Sulcando a corrente,

Que o prende e empurra para trás.

 

Vai subindo, subindo,

Remando o que pode…

E ele há-de chegar…

 

Zehlendorf, 1 de Dezembro de 2012

16h26m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes