segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


 
 
 
Foi-se embora de vez

Aquele tornado branco,

Feito de neve,

Luzindo ao sol?...

 

Ficaram tão tristes

Aqueles ramos negros,

Sem sombra,

E um chão de lama.

 

Como um cemitério

De arvoredo nu.

Onde habita a morte.

Onde o silêncio chora.

É o desalento em forma.

 

Ninguém consegue imaginar

Como era lindo…

Aquele noivado louco,

Tecido de neve…

Sempre a cair.

 

E, lá mais atrás,

Aquele arvoredo frondoso,

Vestido de verde,

Coroado de oiro,

Bailando ao vento,

Um império de sol.

Um castelo encantado,

Tapada real.

Um reino de paz.

Onde sabia viver…

E que… há-de voltar.

 

Ouvindo Serenata de Schubert-

Zehlendorf, 18 de Dezembro de 2012

8h15m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Sei que para cima deste toucado

De nuvens brancas,

O sol brilha e queima.

 

O céu azul reina e inunda os olhos

De esperança e luz…

 

Aqui, tudo é sombra fria.

 O dia nasce já cansado e triste,

Com vontade de dormir.

 

Nem o aconchego de lareira

Que aqui reina, chega

Para descobrir a manta triste

Que nos envolve.

 

Por mais luzinhas e artifícios,

Com feirinhas garridas

E fumarada acesa de salsichas,

Canecadas de vinho quente,

Por essas ruas e jardins de inverno,

 

Nada chega ao meu natal de inverno,

Com formigos, rabanadas

E o bacalhau com todos de Portugal!…  

 

Oxalá fosse igual em todos os lares…

O que não é..e aí é que está tudo mal!...

 

Ouvindo Hélène Grimaud em Sonata de Beethoven

 

Zewhlendorf, 17 de Dezembro de 2012

9h23m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

domingo, 16 de dezembro de 2012


Hoje há mais neve branca lá fora.

E cá dentro, também.

Lá fora é natural.

O sol vem e ela se afasta,

Tão lenta e delicada,

Vem o calor e de novo,

Rebenta a vida em botões de flor.

No verde das folhas.

 

Chegam os cantos sonoros dos pássaros

Que fugiram do frio.

 

Vem o sol e a praia.

E o lanche no bosque.

À beira do rio.

 

Só o nevão que caíu em mim,

Não tem meio de apagar.

Estou regelado.

E não aqueço com nada.

Nunca mais irei ter sol.

Meus olhos, parece,

Vão secar … para sempre.

Nem lágrimas correm pela minha face.

 

Um deserto gelado e frio.

Não passa ninguém.

Nada vem alegrar meus dias.

Noite cerrada e fria.

Mas, bem no fundo, sei.

A Primavera irá voltar…

 

 

Ouvindo canções dos Andes

 

Zehlendorf, 13 de Dezembro de 2012

8h4m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

Neste nascer de Sábado,

Cinzento e frio, 

Nem a brancura da neve,

Que cobre o chão,

Alegra meus olhos cansados

Das  sombras sombrias 

- tudo  enegrecem-

Parecem reais.

 

Que túnel  longo ,

Abafado,  sem fim,

Carrega meus passos pesados

A caminho de quê?...

 

Só as asas do sonho,

Onde ainda reina o sol,

Me libertam desta escuridão

Que se abateu sobre mim…

 

 

Zehlendorf, 15 de Dezembro de 2012

9h49m

Terceiro Domingo de Dezembro

 

Tudo está parado na terra.

Neste amanhecer de domingo.

D’hora a hora, em silêncio,

Roda vazio um eléctrico na estrada,

Na sua ronda constante.

 

Pela trela curta e apertada,

Vadiam em cima da neve,

Os canitos aflitos,

Duma noite, de continência.

 

Numa ou noutra varanda,

Alheios ao frio,

Assomam famintos,

Os dependentes do fumo.

 

Só os corvos negros não páram.

Debicam, esgravatam na neve,

À procura de lagartas ou pão.

Para levarem no bico.

 

 

Na cozinha, cá dentro,

Ouve-se o silvo da cafeteira.

Ainda bem.

Já cheira a café.

 

 

Berlim, 16 de Dezembro de 2012

9h39m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


Reichelt, 29 de Novembro de 2012

11h58m

Quinta- feira de chuva fria, quase neve. Viemos tomar aqui o pequeno -almoço e fazer umas compras.

 Estive a tentar escrever no computador mas não consegui entrar.

A net estava pastosa. Queria escrever um poema ao som duma música dos Vangellis que já tinha gravada.

Não consegui. Agora, não me acodem ideias para escrever poesia.

O movimento no supermercado é incessante e calmo. Predomina a gente de meia-idade para cima.

Vêm calmamente. Com seus carrinhos e sacos próprios.

Alguns trazem cestas de vime como se usava tanto na minha infância.

Lembro-me da senhora Julinha dos ovos…

Vão passando pelas prateleiras e compram comedidamente.

Gosto de sair à noite com o meu canito.

 Corro pelas bermas das ruas todas aqui à volta.

Estão carregadas de folhas secas, enleadas de restos da neve eterna.

 Ele dá pulos de contente, e puxa pela corrente que nem um burro, embora os seus treze anos de existência, connosco.

Um coker muito vetusto, mas bem conservado. Saudável. Apenas mouco.

São os próprios veterinários que o reconhecem. Tem um coração de jovem. Todos os índices em boa forma.

Em casa, é um come e dorme. Muito paciente. Muito leal e fiel às suas normas.

Pois, esse passeio obrigatório dá-me o ensejo de entrever a vida destes alemães de leste, recolhidos nos seus palacetes, semi-iluminados, de vidraças abertas cá para o exterior, sem qualquer limite.

Vê-se como arrumam as suas coisas, nas salas e bibliotecas, onde as mobílias primam pela simplicidade e feição utilitária e funcional, em contraste aos costumes da nossa terra. Têm de tudo. Fora e dentro. Um asseio completo. No esmerado cuidado do jardim. Com ruinhas, com grande variedade de arbustos, sempre acompanhados das papeletas com indicação da espécie e suas origens.

 

Nelas vive gente reformada mas também activa.  Uma característica ressalta eloquente: é extrema ordem que eles pôem em tudo. No que fazem e na forma como se comportam. Afinam todos pelo mesmo diapasão. Não se vêm rostos desmotivados em parte alguma. As moças das caixas dos supermercados, os empregados nos estabelecimentos comerciais todos, pequenos e grandes, os empregados de mesa, dos correios, da limpeza pública, todos se revelam  dedicados ao que fazem. Vivem à vontade e sem stress de amargura.

 

Que distância vai deles às gentes da minha terra!...    

 

Zehlendorf, 3 de Dezembro de 2012

20h7m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes