terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Jardineiras


Dependuradas sobre o corrimão
Da varanda alta,
Que dá para a rua estreita
Do Bairro Alto,
Ao Calhariz,

Pendiam flores em vasos,
De muitas cores.
Ouviam as varinas e seus pregões…
Tão felizes, brilhando ao sol, ~
Soltavam sorrisos a toda a gente,
Alfacinha ou não…
Querem sair…vir passear,
Pelas ruas,
Como as pombas vadias
Que ali voavam.
Eram tão felizes!...

Ouvindo Vocalize de Rachmaninov

Berlim, 22 de Janeiro de 2013
9h15m
Joaquim Luís M. Mendes Gomes

domingo, 20 de janeiro de 2013


O Rio da Vida

 

 

As sementes vêm de nós

Como o pão nasce da terra.

As ideias nascem em nós

Como vento livre

Que sopra e vai mundo fora.

 

Nossa vida é um rio

Que desliza sempre

Sem conhecer o rumo.

 

Ora se espraia e esborda

Ora é fio de água

Leva a vida à sua frente.

 

Banha e alegra

Quem se abeira e mergulha nele.

Reverdece os campos.

Se orna de frondosas árvores.

Com ninhos

Nos seus segredos.

 

Origina pontes

Que unem as gentes

Como irmãos separados.

Mas vivem de frente.

 

Tem cardumes,

Rio abaixo, rio acima,

Em plena liberdade.

 

Não há sendas nem ruinas.

Há espaços largos nas planuras.

Dão tempo para as redes

E o repouso nas suas margens.

Oásis verdes.

 

Olhando o céu.

E seguir viagem.

Como a água do rio,

A vida corre.

Longa ou breve.

Não volta atrás.  

Vai em frente

E nós atrás.

 

Ouvindo H.Grimaud, em sonata de Beethoven

Berlim, 20 de Janeiro de 2013

6h27m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

sábado, 19 de janeiro de 2013


Portas fechadas

 

 

É preciso abrir as portas fechadas

Que temos bem dentro de nós.

Escondem e guardam riquezas

Que estão lá escondidas.

Foram inscritas pelas mãos do artista

Que nos pensou.. .

Antes de sermos quem somos.

Obra prima, única e final.

Cada qual tem as suas.

À discrição.  Ao nosso dispor.

 

São luzes gravadas

Que dão cor e vida

A  cada dia da vida

Que Ele traçou.

Plano ascendente, rumo ao sol.

Fugindo da terra,

Fugindo do chão.

Criados para o alto,

Deixemos as trevas,

Das covas escavadas,

Onde crescem as ervas  daninhas.

Tudo atrofiam.

Não deixam crescer.

Não deixam voar.

Geram tristezas.

Estiolam a vida

Tecida para amar.

Com esse mar de riquezas,

São joias.

Que temos em nós.

Basta querer.  E escolher.

Entre viver com amor.

Ou viver para morrer…

 

Ouvindo Hélène Grimaud , sonata de Beethoven

 

Berlim, 19 de Janeiro de 2013

9h13m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013


Pobres Anões

 

Acordei estremunhado.

Abro o computador

E ligo-me ao mundo.

O que deveria ser lindo dia de sol,

É escuro. Sombrio,

Salpicado de sangue,

Mordido da fome.

 

A guerra feroz ,

De irmão contra irmão,

Como vermes da terra,

É nuvem cerrada

De ódio e indiferença

Que cobre os céus,

Roubando-lhe a luz do amor

Que devia brilhar.

 

Meninos esquálidos,

Com os ossitos à mostra,

Transidos de fome,

Nascidos há horas,

Só os olhitos reluzem,

Sem uma migalhinha de pão.

 

E o mundo inteiro a esbanjar,

Nas las vegas  douradas…

Quer  lá saber…

Aviões de combate ,

Carregados de morte,

Avançam pelos ares,

Como se fossem à caça,

Despejando metralha,

Onde cheira a petróleo.

Só para alguns!…

Os donos da sorte.

 

Erguem torres babéis,

Inúteis,

Desafiando os céus,

Como se fossem gigantes,

Nos mares do deserto,

Sobre as águas do mar,

Ssugando as entranhas da terra,

Como se não tivessem mais fim

E se livrassem da morte.

Ó pobres anões,  

Ó donos do mundo!

Como estais enganados.

Lembrai-vos que há Deus!...

Um ligeiro abano da terra,

Uma ligeira lufada de vento,

E eis que ela aí vem…

Vai tudo ao chão.

 

Ouvindo Hélène Grimaud a tocar Racghmaninov, concerto nº 2

Berlim, 17 de Janeiro de 2013

8h21m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes
Desesperadamente,
Altivo,
Apareceu no palco,
Abeirou-se do piano.
Uma saudação perfeita
E pôs-se a tocar.

As teclas fugiam-lhe
Nervosas e obedientes,
Debaixo dos dedos.

Pareciam gazelas, cheias de medo,
Dum lobo faminto que as perseguia.
Soltavam sons tão plangentes,
Com tanto vigor,
Tanta revolta,
Pareciam chorar a morte súbita
D’alguém querido.
Dos que se vão
E não mais voltam.

Que sentimento forte e quente,
Saía daquele piano imenso!...

Ficámos presos,
Sem poder reagir.

Sem dar conta,
Pelas escarpas íngremes,
Sem dar conta
E olhar para trás,
Chegámos ao cimo.

Éramos só nós, no alto.
Em cima, o céu profundo.
Ao longe, os campos retalhados
Em muitas leiras,
De tantos tamanhos
E múltiplas formas …

As colinas eram ondas,
Pareciam bailar
Brilhando ao sol,
Numa sinfonia de cor,
De tantos matizes.

Eram flores, ao deus dará.

Que lindo quadro.
Que ninguém pintou.
Só nós o vimos.

Ouvindo Lang Lang, ao piano, tocando a sonata 23 de Beethoven
Berlim, 16 de Janeiroi de 2013
20h20m
Joaquim Luís M. Mendes Gomes
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terça-feira, 15 de janeiro de 2013


Mergulho sedento,

Na piscina da poesia,

Como quem foge do sol escaldante.

 

Entro, enfim, desfeito em suor,

Oásis dentro,

Buscando a frescura

Que o deserto não dá.

 

Avanço atento ao mar,

Mirando ao longe,

O farol da terra que me prende.

 

Subo aturdido

Aos cumes do monte,

Para me embriagar

Do doce silêncio da terra.

 

Caminho, há tanto,

Pelas agruras deste mundo,

Em busca do abrigo

Que não encontro.

 

Semeio ao vento

Do amor que os mais queridos,

Ao longo do tempo,

Em mim me semearam.

Ainda espero chegar a tempo

De ir assistir ao pôr do sol…

E me banhar de sonhos,

Numa noite cheia de luar…

 

Berlim, 15 de Janeiro de 2013

11h12m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

 

Espero de mim

Que hei-de chegar ao fim,

Com minha alma serena e calma,

De ter caminhado na vida,

Semeando luz e bem.

Esse é o meu fito.

A mola real.

Quando acordo, cada manhã.

Que haja luz e graça ao meu redor.

Se acabem as guerras

De alecrim e manjerona todas,

Da cabeça aos pés.

Em mim. Aqui e longe.

Que o mundo respire paz.

A alegria reine e todos, em festa,

Vivam melhor.

Saboreando os dias que nos chegam …

Quem sabe donde

Nem para onde vão…

E até quando …

 

Se acabem as armas maciças

Da destruição e morte. De tudo e todos.

Haja compaixão pronta e forte

Por quem enfrenta

A dor e a morte.

Se dê as mãos,

Sem olhar a quem e cor,

Em vez da indiferença e ódio.

A raiz dos males.

Inimiga da paz.

Afinal,

O melhor bem universal.

 

Ouvindo Hélène Grimaud , Estudos de Rachmaninov

 

Berlim, 15 de Janeiro de 2013

6h24m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes