sábado, 2 de fevereiro de 2013


Noivado em Fevereiro

 

Voltou a cair neve,

Miudinha, quase líquida.

Já tapou o chão de gase, 

Como um véu suave,

Que tudo afaga e cobre, 

Preparando a terra triste,

Para a grande vaga em festa,

Que está para chegar.

Como em despedida.

 

De fininha e ténue,

Passou a espessa,

Em farrapinhos brancos,

Cada vez mais   grossos. 

Vêm desorientados,

Bruxuleando, pelo ar,

Em linhas sem nexo,

Como se viessem perdidos.

 

Sacudindo as asitas,

Passarinhos gaiatos.

Que vão brincar para o chão.

 Atirar bolinhas de neve

À  gente que passa.

Poisando nos carros

Em passeios breves.

 

Não tardará muito,

E o arraial da festa,

Em grande algazarra, 

Tingirá as árvores  negras,

 Lavradeiras alegres,

Com mantilhas  de branco,

Como se fossem noivas,

Subindo ao altar.

 

Como um pintor apaixonado, 

Que não mais descansa,

Enquanto não vir na tela,

O Fevereiro noivado,

Como lhe vai na alma.

 

Berlim, 2 de Fevereiro de 2013

9h18m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


Saborosas razões da madrugada…

 

Quem primeiro se abrir ao dia

Que está a nascer,

Mais cedo, poderá ver à frente

O esplendor do sol nascente.

 

Alcançar a imensidão do mar,

Até onde ao longe,

Este esconde o céu

E um mar de estrelas

Que a seguir, hão-de brilhar.

 

Ouvir as ocultas ressonâncias

Que pairam em ondas ,

Nossos olhos não vêm

Mas são reais.

 

Entrelaçadas,

Numa lufa-lufa misteriosa,

São dóceis mensageiras

De tudo o que, de bom e mau,

Se passa.

 

Sentir a magia do odor

Que vem da terra

A despertar

Depois da bruma silenciosa

Da madrugada.

 

Mais cedo sentir,

Como é bom estar vivo

E navegar alegre

Sobre as ondas ,

Ora mansas ora bravas,

Do misterioso e rico mar da vida.

 

Poder acompanhar

Em espírito,

Como irmão que sente,

Os que, pelo mundo,

Sem razão, sofrem,

Por injustiça ou por desgraça.

 

E poder erguer as mãos

A dar graças

Por mais um dia …

Que de graça

Se vai viver.

 

Ouvindo Hélène Grimaud em Adágio de Mozart

 

Berlim, 1 de Fevereiro de 2013

7h34m

 

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Sair para a rua

Sinto que tenho de sair de mim
Para ver mais longe e bem.
Se continuo fechado,
A escuridão virá, mais cedo ou não.

Há que sair para a rua,
Andar na praça, ao vento,
Ver as cores dos passos
De quem ao meu lado passa
E para onde caminham.
Ou vão.

Até pode calhar de seguindo ao seu lado
Chegar melhor e mais alto,
Que se fosse sozinho.

Cada um tem seu modo de ser e ver.
Cada um vê com seus olhos
Dum outro ângulo
Que não é o meu.

Faz bem espreitar
Ouvir e ver o que alguém vê
Porque melhor colocado está.

O aviso certo, na hora exacta
Adianta tempo
E faz-nos mais seguros
E seguir melhor.

Por certo,
Ficarei mais rico,
Alcançarei mais
E viverei melhor
Do que ficando sózinho
Nas minhas quatro paredes
Com um só tecto.

Quantas mais portas e janelas tem,
Mais luz lhe vem
E mais amigos entram.

É da amizade que o bem vem.

Ouvindo Hélène Grimaud em concerto nº 2 de Rachmaninov
Berlim, 7h56m
Joaquim Luís M. Mendes Gomes

terça-feira, 29 de janeiro de 2013


Meu Dilema da noite…

 

Uma cortina negra desceu

Por fora da minha janela.

Carregada de escuro,

Vem batendo às portas,

Como quem vem a fugir.

Vem aflita.

Parece morrer com falta de quê?

Como quem morre de sede.

 

Não sei que lhe faça.

Se lhe abro a porta

E a deixo entrar,

Para lhe dar de beber.

Não sei mais que fazer…

Logo se esvai….

Quando abro a luz.

E ela volta a bater!...

 

Ouvindo Hélène Grimaud em Sonata nº 31 de Beethoven

 

Berlim, 29 de Janeiro de 2013

18h21m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

O Meu fado

 

Mansamente, como um rebanho saciado,

Desce a encosta da serra

E vem recolher-se no seu leito ,

Eu desço o meu dia-a- dia 

Por uma senda,

Que me levará até, não sei onde

E quando lá chegarei,

Até final…

 

Não me preocupo com esse tema.

Viver é o meu  lema,

Seguir em frente,

Pisando o melhor caminho,

Evitando as pedras mais pedregosas

Para bem dos pés…

E sentir-me bem,

Olhando em redor.

 

Parando aqui e ali…

Um amigo que há muito

Não via…

Alguém que me pergunta das horas

Ou do melhor caminho,

E fica horas perdidas a conversar…

Até se esquecer ...

Olhar ao longe ,

Para o campanário de cruz ao alto,

Lembrando Deus…

Deleitar estes meus olhos

Com as verdes promessas perfumadas

De mais uma primavera, em flor…

Entrar na tasca da Isaurinha,

Onde já ia meu Avô…

Ou no vizinho café da esquina,

Para mais dois dedos de conversa,

Enquanto se bebe um copo ,

Secome um bolinho de bacalhau,

Com o amigo de ocasião.

 

Engraxar os meus sapatos pretos…

cortar o cabelo, enquanto houver,

E parecer bonito a quem me vê…

 

Ler o jornal para saber

Onde vai a missa …

Ou do bom e mau

Que vai pelo mundo…

Sem esquecer a derradeira página …do necrotério…

 

Enfim, cumprir meu fado ou meu destino,

Enquanto o sol me bater na eira…

Tal e qual assim,

Como fazia o meu avô feliz…

Que só partiu… quando Deus quis…

E eu sei certo que está no Céu…

 

Ouvindo Hélène Grimaud em Moonlight de Beethoven

 

Berlim, 30 de Janeiro de 2013

7h39m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

domingo, 27 de janeiro de 2013


Tenho saudades do Alentejo

 

Gostava de voltar a correr

À  solta,

Pela manhã,

Pelas planuras do Alentejo

Cobertas de flores

De todas as cores que há. 

 

Inibriar - me, feliz,

Daquele ar puro

Que ali traz em força,

O vento suão.

 

Ouvir o silêncio azul

Que inunda de sombra e luz

Aqueles montados brancos

Onde tão boa gente

Se esconde e dorme.

 

Ir atrás das borboletas,

Aflitas,

De tanta de sede.

 

E, nas sestas quentes,

Regalar-me à sombra farta

Daquele mar de sobreiros esbeltos

Mas desgrenhados,

Ouvindo histórias,

De mouras e de príncipes, encantados.

 

Enamorar-me,  

De amor humano

E igual amor divino,

Pelas noites dentro, ao luar…

 

E acordar alegre,

 Ao rasgar da aurora,

Com os desgarrados

E intermináveis,

Cantares de galo.

 

Ouvindo as Quatro estações de Vivaldi

 

Berlim, 27 de Janeiro de 2013

11h40m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

Gostava de voltar a correr

À  solta,

Pela manhã,

Pelas planuras do Alentejo

Cobertas de flores

De todas as cores que há. 

 

Inibriar - me, feliz,

Daquele ar puro

Que ali traz em força,

O vento suão.

 

Ouvir o silêncio azul

Que inunda de sombra e luz

Aqueles montados brancos

Onde tão boa gente

Se esconde e dorme.

 

Ir atrás das borboletas,

Aflitas,

De tanta de sede.

 

E, nas sestas quentes,

Regalar-me à sombra farta

Daquele mar de sobreiros esbeltos

Mas desgrenhados,

Ouvindo histórias,

De mouras e de príncipes, encantados.

 

Enamorar-me, igual,

De amor humano

E igual amor divino,

Pelas noites dentro, ao luar…

 

E acordar alegre,

 Ao rasgar da aurora,

Com os desgarrados

Cantares de galo.

 

Ouvindo as Quatro estações de Vivaldi

 

Berlim, 27 de Janeiro de 2013

11h40m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes