segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013


Ribeiro veloz…

 

 

Saltitando de fraga em fraga,

 Em borbotões de espuma branca,

Vem correndo,

Lavando as pedras,

Vestidas de veludo verde,

Salpicando de luz as hastes breves,

Onde se escondem pardais,

Gorgolejando soluços alegres,

Como chafarizes nervosos,

Arrastando as folhas já mortas,

 

Aí vem festivo.

Como um gamito, à solta.

Fugindo da mãe,

Encosta acima.

 

Aí vem cantando asperges santos

De hinos num festival de cor,

Ao sol, como seu mestre.

 

Ribeirinho manso e breve.

Um raminho tenro que busca seu irmão mais velho

Para o levar ao mar…

Como rouxinolzito alegre

Que aprende a cantar…

 

Ouvindo Hélène Grimaud em concerto nº 2 de Rachmaninov

 

Berlim, 26 de Fevereiro de 2013

6h46m

 

Hora da festa…

 

Está na hora de descer

E deixar lá atrás o que passou.

 

Fique e se desfaça no chão.

Até que venha a chuva

E leve o que sobrou da festa.

Já não presta.

 

Vamos descer ao vale.

Onde o rio corre

E banha suave a terra vizinha e meiga

Que o serve e que rega. 

 

Vamos serpentear

De mãos dadas com ele.

 

Visitar os  irmãos. 

Sossegar quem teme.

Fazer arder em chama…

Combustão ardente.

 

Ânimo e fé.

Vamos para o mar.

Vida em festa.

Na festa da praia.

 

Alegria em chamas.

Só dança quem quer.

Quem anda depressa…

Chegará a tempo.

 

Bandas de música.

Tendinhas abertas.

Canadas de vinho.

Bênçãos do céu.

Lagares de Agosto.

Tempo de festa…

 

Ouvindo Musorsky

 

Berlim, 25 de fevereiro de 2013

9h13m

 

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

domingo, 24 de fevereiro de 2013


O nosso caminho…

 

 

O que sinto em mim

Não vem de mim.

Vem duma fonte

No cimo do monte.

No meio das fragas.

Lá bem em cima,

Lá bem no alto.

 

Onde reina o sol.

Que a abastece.

Sem que mereça.

 

Vem porque vem.

Tal qual brota da terra.

Semente sem cor.

Força imortal.

 

Árvore gigante,

Com muita ramagem.

Seara sem fim.

O fruto sai natural.  

Vai mundo fora.

A quem o quiser.

 

Graça de Alguém.

Faz o que quer.

 

O caminho é d’Ele.

Nada mais certo e seguro.

Há que dizer sim,

Sacudir o que não vale

E deixar-se seguir.

Crescendo…amando e servindo.

 

Abraçado à vida,

Viagem de graça,

Para porto seguro.

 

Por mais tormenta que faça ,

É só vento que passa.

Abre o caminho e limpa o chão.  

 

 

Ouvindo Shirley Bassey em My Way…

 

Berlim, 25 de Fevereiro de 2013

7h33m

 

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Hino à Vida

 

Chova em torrente

Uma chuva de açúcar branco e alvinitente.

Sobre esta lama peçonhenta

Que a terra fez.

 

Caiam mantas brancas de puro linho,

Que tudo pintem como de sal em dunas.

 

Suba no céu o sol em bola ardente

E queime todo o mal

Que germinou e apodreceu.

 

Floresça um mar de flores

Com todas as cores.

Se exale um perfume tal

Que se faça um baile em tropel de nuvens.

 

Regressem as aves todas de todo mundo,

Venham dos trópicos,

Rutilantes nas suas penas.

 

Tragam bicos que assobiem trinos e cantares agudos,

Como silvos de comboios por esses vales fundos.

 

 Ardam fogueiras em labaredas de cor e fogo.

Em vez da metralha da morte

Que o mal fabrica pela calada da noite.

Ou da coca mortal

Que se espalha felina e fera.

 

Ceguem de amor as searas verdes.

Festejem noitadas de cor e luz.

Venham sereias embalar o mundo

E um mundo novo nasça ao nascer do sol…

 

Ouvindo Hélène Grimaud em concerto de Beethoven,

Berlim, 24 de Fevereiro de 2013

11h18m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

sábado, 23 de fevereiro de 2013


Da minha varanda…

 

 

Sempre que me debruço

Na minha varanda,

Acabo por enxergar ao longe,

Entre a fumarada da vida,

A senda recta que me leva

No caminho certo.

Rumo ao alto.

 

Esqueço os negrumes

E as trevas negras

Que me escurecem a luz do dia.

 

É preciso confiar que o mundo

Não cessa onde os olhos vão.

 

Há outras sendas,

Outras razões ocultas

Que valem

Ter connosco.

Como nosso lastro.

 

Como farol aceso.

Sem medo do mar revolto.

 

Por detrás da nuvem parda,

Ao fundo da linha,

Lá bem ao fundo,

Há um universo livre.

 

Onde o sol brilha e reina.

É a luz da esperança

Que mo garante e mo afirma.

 

É preciso olhar ao alto.

Deixar o pó desta estrada

Carregada de fumarada

De tanto escape e ar já morto. …

 

Ouvindo Hélène Grimaud em 4º concerto de Beethoven

 

Berlim, 24 de Fevereiro de 2013

5h53m

 

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Segredos ocultos…

 

Quem não tem segredos guardados no sótão da vida,

Levante o braço e diga porquê? 

Se a vida desabrocha em nós como uma flor na primavera.

 

E o berço é o cálice onde bebemos o licor da vida.

Como um brinde que se ergue em festa

E abre no regaço materno e primaveril, logo ao nascer.

 

Segredos escondidos que se colhem

Nos abraços ternos da mulher que nos abriu em flor.

 

Serenas noites de luar com serenatas de doçura com cantigas de embalar.

Anjos cândidos a cantar lausperenes de alegria,

Mais um ser humano na terra

Por lei da vida…

Para amar e ser amado.

 

Ouvindo Lang Lang  em Liebestraum

 

Berlim, 23 de Fevereiro de 2013

15h35m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

 

 

 

 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013


A pé…

 

Vou a pé a todo o lado.

Subo escadas.

Salto os muros.

Pelos caminhos.

Pelas fragas. 

Vou ao topo.

Quero ir alto.

Ao pé do céu.

 

 Ver de cima a teia de campos

E de hortas lavradas.

Telhas vermelhas.

Sineiras de igrejas.

Vejo os pastos.

Fumo das fábricas.

Chaminés ao vento.

Ondas de mar.

A dança dos rios.

Os cumes das serras.

Os campos de trigo.

Rebanhos quietos.

Encostas dos montes.

Searas de pinhos.

Lagares de Agosto. …

 

Ouvindo Rachmaninov

 

Berlim, 22  de Fevereiro de 2013

 

11h 23m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes