sexta-feira, 22 de março de 2013


Café da Manhã

 

Tilintam as chávenas do café.

Zumbe a máquina de o moer.

Ferve em brasa a bica que sai da bica.

Soam sem alma, cantos no ar,

Só para distrair.

Por encomenda de quem só quer ganhar

E pouco perder ou dar.

 

Já não se ouvem as canções douradas

De vozes sonoras,

Com timbre de sino,

Como sereias

É tudo um embrulho

Para só olhos verem,

Sem fogo a arder.

 È a vida moderna

Que tem mais de pobre

Que rica,

Embora não o queira ver…

 

Café Castelão em Mafra, 22 de Março de 2013

11h13m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Irrompeu sereno e brilhante

Com a força de um vulcão.

Em três tempos,

Rompeu e deitou por terra

Tanta fumarada bassa,

Que , havia séculos, toldava o céu,

Do vaticano.

 

Tanta traça e pó,

Com cheiro a verniz,

Ele desfez em cacos.

 

Um sorriso limpo e perto,

Um beijo nas mãos.

Um abraço firme.

Nada de dobras em joelhos irmãos.

 

Tanto capacete albo e tinto,

Tanto anel e filigrana fina.

Tanta opa larga e veste imperial.

Tanto carmim, em damasco rico.

E, ao cabo e ao resto,

É só um homem simples,

Que representa Deus.

quinta-feira, 21 de março de 2013


 

Percebi que era rei

Quando me vi pobre,

Despido de toda a riqueza fútil.

 

Quando segui meu caminho

Rumo ao infinito,

Sem olhar para o chão de lama,

Mesmo enxuto.

 

Quando encarei o sol,

Apesar das trevas que o mundo me impõe,

 

Quando me deitei por terra,

Perante a beleza do mar

E dos fulgores do vento

Silvando na noite.

 

Quando me pus a voar nas asas do sonho,

Apesar da dor que me faz chorar.

 

Agora sou rei de mim, porque já sei amar.

 

Mafra, 21 de Março de 2013

15h20m

Joaquim luís M. Mendes Gomes

terça-feira, 19 de março de 2013


Os meus fantasmas

 

Ramagens coloridas refulgentes.

Margens perdidas, dum rio a fluir.

Imagens soltas de notas breves.

Espaços secos como desertos.

Arames farpados que nos cercam.

Troços marcados de caminhos negros.

Almas penadas de esqueletos mortos.

Escadas íngremes dum cadafalso falso.

Tudo isto é tudo o que me ronda a casa

E me sufoca.

 

Café Castelão, Mafra, 19 de Março de 2013

11h 57m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado, 16 de março de 2013


O caminho da vitória

 

O caminho é fugir do presente.

Tão insolente se tornou.

Fique depressa passado.

Venha um futuro carregado

De ânimo e harmonia.

 

Tem de surgir dentro de nós

A força impossível de transformar

Esta tempestade em bonança.

 

É preciso repor tudo no lugar devido.

Segundo a ordem inicial.

E a lei da natureza.

 

O que vale fica por cima

E à frente.

O que não presta e estorva…

Vai fora.

 

Seguir adiante

Pelo caminho aberto à força

Da força de todos.

 

Nada resistirá.

O impossível será real.

Tudo ficará na ordem.

Pela ordem natural da fraternidade

Que nos rege.

 

Sem predomínios inadmissíveis,

De ninguém sobre ninguém,

A não ser com a razão  certa e adequada. 

 

Tudo é de todos

E para todos, por igual.

Com o contributo de cada um,

Conforme seu saber e sua força.

 

Há que pôr à frente

Só quem é capaz de dirigir

Com saber e rectidão.

 

Assim, a vitória será certa…

 

 

Mafra, 6h49m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

sexta-feira, 15 de março de 2013


Outro farol de Alexandria

 

 

Resplandeceu enfim,

No horizonte universal.

Uma luz descomunal.

 

Num ápice, deslumbrou o mundo.

Cumeadas, cordilheiras,

Altivas, quase infernais,

Carregadas de neve,

Parecia eterna…

 

Vales fundos, escuros,

Como cavernas,

Tenebrosas,

Se iluminaram.

 

Fez-se dia.

Viu-se um cortejo de duendes, informes,

Muito bem ataviados,

A desaparecerem lestos e sorrateiros,

Como toupeiras.

E se despenharem nas fossas fundas

Dum oceano ao pé,

De águas mortas,

 

Onde ficarão inertes,

Jazendo infétidas. 

 

Tanta roupagem inútil,

Tantos rubis que só faiscavam,

Sem iluminar.

 

Tanto fumo,

Tanto incenso falso,

 

Tantas plumas. Secas.

Tanto verniz charmoso

E inexplicável à verdadeira luz.

 

Soou a hora de lavar as roupas,

As mais simples,

Que são só roupas…

Nunca fardas.

 

A caminhada é outra..Outro caminho.

O caminho de Deus!...

Muito diferente dos caminhos do mundo,

Num constante arfar de avidês sem lei..

De açambarcar poder, só para reinar,

Com todos os fulgores,

Mesmo que à porta,

Em cortejo imenso,

Morram de fome e frio..

Gemam  famintos…

 

Outro farol brilhou nos céus…

Não é romano…

É de Alexandria…

Onde a tradição jazeu…

 

Ouvindo concerto para piano nº 1 de Brahms,

 

Mafra, 16 de Março de 2013

6h33m

 

Joaquim Luís M. Mendes Gomes