terça-feira, 26 de março de 2013


Num barquinho sozinho…

 

Atirei-me ao mar de olhos fechados,

Sem saber nadar… Sou louco?

Não …Havia um barquinho ligeiro

Que ia a passar.

Subi e fui mar dentro.

Até onde pude chegar.

Ninguém me ralhou.

Ninguém me prendeu.

Ninguém se zangou,

Ninguém perguntou se eu sabia nadar.

Liberdade total.

Na terra do mar.

Sem ruas, cruzamentos fatais.

 

A força do vento

Levou-me onde quis.

 

Quando me deu,

Voltei para terra.

Só correntes …

Algemas sem ondas

E regras aos montes

Que não servem para nada.

 

 Amanhã, de manhã,

Está dito e cumpro.

Vou voltar para o mar…

Se outro barquinho sozinho passar.

 

Mafra, 26 de Março de 2013

15h52m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Babilónia terrestre

 

Tem caído tanta chuva de espetos…

Nesta terra de sonho…

Parece que o mundo vai acabar

Num holocausto supremo!...

 

As guerras começam e acabam

E logo vem outra pior…

 

O mundo devasso das finanças tenebrosas

Esgana as gentes humildes

Com uma banca sinistra,

Desumana e apátrida.

 

Erguem-se tendas no centro das praças

Que só vendem e passam desgraças…

 

Ressoam vozes atrozes

Que semeiam procelas

No ocidente e no leste.

 

Campeiam à solta

Gatunos gigantes

Como se fossem heróis…

Fazem que vão

E regressam piores…

 

Perderam-se os princípios morais,

Com base sólida,

Na figura humana de gente…

Vale tudo…do direito e avesso…

Desde que interesse.

 

Ó meu Deus!...Aleluia!...

 

Quando acabará de vez,

Esfrangalhada em cacos no chão,

Esta babilónia terrestre?...

 

Ouvindo “Aleluia” com Alexandra Burke

 

Mafra, 26 de Março de 2013

7h36m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

 

 

 

 

segunda-feira, 25 de março de 2013


Uma história possível…

 


Passou à minha frente,

Uma menina alourada,

De cabelo sedoso,

Apanhado ao alto

Com um laço rosa de seda

E olhos castanhos.

 

Nos pés de menina,

 Uns sapatos pretinhos,

De fivela e verniz.

Blusa encarnada

E saia curta aos godés.

 

Uns soquetes azuis,

De malha em xadrez,

Até aos joelhos.

 

Levava consigo,

Debaixo do braço,

Um livrinho suave e bonito,

Como um caderno.

Onde ia apontando,

Com desenhos e notas,

De tudo o que via

Para depois recordar.

 

Tudo guardava em segredo,

Num cantinho do quarto.

 

 Quando o sono faltava,

Na madrugada,

De candeeiro aceso,

Ponha-se a ler e escrever

Do que tinha o caderno.   

 

Encontrara um menino

Um pouco mais velho.

De sacola ao ombro

Que vinha da escola

E que lhe sorriu.

 

Usava calções.

Com suspensórios.

Eram cinzentos.

 

O cabelo era preto,

Num rosto esbelto,

Um nada comprido,

Muito bem desenhado.

 

Seus olhos ovais,

Em tons esverdeados,

Olharam para ela,

Com tamanha emoção,

Sentiu-se a tremer,

Nunca mais esqueceu…

 

E os anos passaram,

Sem mais se encontrarem.

 

Ficaram só as notas

Que foi escrevendo

E sonhando no livro-caderno…

 

As voltas da vida

Por caminhos sem fim,

Ao cabo de anos,

Já quase no fim,

Por portas travessas,

Voltaram a encontrá-los,

Como se nunca se vissem…

 

Uma luz acendeu

E puseram-se à fala.

Do que fora passado.

Que obra,

Que frutos havia

Para mostrar.

 

Ela rapou do livrinho

E pôs-se a contar.

 

Havia histórias singelas.

Com um fim de encantar.

Sobretudo, pinturas de cor

E quadros de sonho,

Com o mar e a serra

Em porfia constante,

Com o sol a brilhar.

 

-  E você… Que andou a fazer?

 

-  Andei mundo fora,

Fazendo a guerra…

Comendo do pão amargo

Que o diabo amassou…

Para ser amante e amado,

Ser alguém na vida…

 

- E agora, que faz?- insistiu curiosa

 

- Agora, sou pai e avô…

 E entreguei-me a escrever

Minhas histórias passadas

E versos sem conta,

Sobre a beleza do mundo…

Enquanto puder.

 

Mafra, 25 de Março de 2013

21h e 29m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

      

Pena da morte…

 

Estremeço ao pensar que meus olhos

Se hão-de fechar para sempre.

 Sem mais acordar.

Deixar de olhar este mar da Ericeira…

As nuvens no céu…

Sempre a bailar…

Paquetes de luz…

E o sol a brilhar.

 

Campos relvados ,

Montanhas de cor.

 

Pássaros em bando,

Sempre a cantar.

Vinhas com vinho,

Sempre a jorrar.

 

Praias de sol,

Fogueiras a arder,

Na sombra das tendas,

Com a brisa do mar.

 

E os comboios em festa,

Subindo a serra,

Como rios de amor

Correndo para o mar.

 

Florestas em flor,

Carregadas de vida.

Escondendo segredos,

Como tesoiros de ouro,

Num silêncio total.

 

Tempestades medonhas....

Parece que o mundo acaba

E dão em bonança…

Tenho pena que a vida

Não seja eterna!...

 

Ouvindo trompete…

 

Mafra, 25 de Março de 2013

16h05m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Lembrando o passado..

 

Guardo na minha memória,

Como um tesouro de oiro,

Lembranças de sonho

Dum futuro risonho.

 

Quando esperava pela feira de Maio…

Toda a gente corria para a feira de Maio!

E a pequenada em flor

Podia subir à vontade

Pela cerejeira carregada em festa,

Tantos ramos à mostra.

Era só trepar e comer e comer...

 

Apertar bem o cinto

E abarrotar de cerejas,

A camisa por dentro,

Até aos sovacos…

Depois era a festa de comer e fartar…

 

E aqueles morangos gordões

Por trás das muralhas,

Cobertas de cacos de vidro…

Da dona Efigénia!...

Nem a matilha de cães

Que andavam à solta…

Nos fazia tremer…

 

E aquelas uvas de mesa

Só para fidalgos comerem…

Podiam borrá-las com bosta de boi…

 

Havia uma bica de água sempre a correr.

Depois de lavadas…ó que farnel!..

 

Não havia aipades…

Nem playstations de cor…

Só a liberdade do vento,

Que nos fazia voar.

 

Bendita infância de oiro

Que tanto sorria…

Promessas dum sonho

Que morreu ao nascer!...

 

Ouvindo Alleluia deHaendel…

 

Mafra, 25 de março de 2013

14h e 34m

Joaquim Luís M. Mendes gomes

domingo, 24 de março de 2013


Outro mundo…

 

Quem não quereria ver

um mundo diferente

do que temos agora.

Se findassem as guerras.

Houvesse trabalho para todos

em todas as partes da terra.

Que o mundo todo fosse primeiro mundo.

Não houvesse segundo e terceiro.

 

Houvesse riqueza. Alegria.

Com campos e hortas lavradas.

Florestas selvagens,

Cheirando a perfume.

Que os ventos soprassem

Balões de oxigénio lavado,

Das fumaradas do forno,

Que as neves dos polos

Permanecessem eternas,

Sem buracos de ozono.

E os mares oceânicos

Fossem apenas um universo estrelado

Com fartura de peixes.

 

Cada um pudesse ser quem é,

Como nasceu para ser.

E fizesse o que é capaz de fazer.

 

Que alturas atingiriam todos

Com o esforço de todos,

Num mesmo sentido.

Nem a força do tempo a fugir

Seria capaz de esbater a saudade

Que deixa quem parte do mundo feliz...

 

Ouvindo A sinfonia do novo mundo de Dvorak

 

Mafra, 24 de Março de 2013

7h23m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

sábado, 23 de março de 2013


Sonho improvável…

 

Queria para sempre

Fechar estas torneiras

Que jorram torrentes de mal,

Num mundo belo e sereno.

 

Onde chilreiam as aves

Com liberdade total.

Onde crescem as flores,

Com ar de princesas.

Onde correm à solta e ao sol,

Cavalos alados de crinas ao vento.

 

 Onde fumegam lareiras acesas,

Como favos de mel.

Quero cantar hinos de amor,

Numa serra perdido,

Sem lobos que me queiram comer.

 

Quero ter esperança

Que a bonança há-de vir…

Depois da tempestade passar.

E mandar para o inferno este império de mal…

 

Ouvindo Chopin, em Nocturnos

 

Mafra, 23 de Março de 2013

14h38m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes