quinta-feira, 4 de abril de 2013


Parecia o fim do mundo…

 

Abro meus olhos embaciados, ao acordar.  

Vou à janela.

Só vejo nevoeiro branco,

Como baforada do mar

A arder em labareda.

 

Não oiço pássaros

Nem sequer gaivotas.

Como sempre.

 

Só o marulhar das ondas

Em rebentação gritante.

 

Estou atónito.

Não se vê viv’alma a passar na rua.  

Estão cerradas as portas e janelas

Das casas em meu redor.

Parece que todo ser vivo fugiu daqui,

Em silenciosa debandada.

Acossado por piratas.

 

E  eu aqui só…

Como um perdido no deserto.

 

Que me valem tantas estantes

A abarrotar de livros e revistas. Mudos.

Minha aparelhagem stéreo,

Último grito da tecnologia…

As resmas de discos vinil,

Que acabaram por ser sempre os mesmos….

E as de papel de máquina

Para neles derramar meus versos…

E minhas lendas fantasmagóricas…

Que ninguém lê…

Sem tv nem telemóvel…

 

Meu frigorífico vai aquecer,

Com falta da corrente eléctrica.

E, vai fora grande parte da comida

Que lá tenho dentro.

 

Sinto medo de sair à rua.

Nada mexe.

Não há carros nem ambulâncias.

 

Ainda ontem,

Tudo, à volta,

Remexia em alvoroço.

 

Bastou uma noite …

E parece que cheguei ao fim do mundo…

 

Corro a abrir a minha Bíblia, à sorte…

…………………………………………………….

Sai-me o Salmo 27 de David.

Salmos 27

 

[Salmo de Davi] O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O SENHOR é a força da minha vida; de quem me recearei?

Quando os malvados, meus adversários e meus inimigos, se chegaram contra mim, para comerem as minhas carnes, tropeçaram e caíram.

Ainda que um exército me cercasse, o meu coração não temeria; ainda que a guerra se levantasse contra mim, nisto confiaria.

Uma coisa pedi ao SENHOR, e a buscarei: que possa morar na casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do SENHOR, e inquirir no seu templo.

Porque no dia da adversidade me esconderá no seu pavilhão; no oculto do seu tabernáculo me esconderá; por-me-ás sobre uma rocha.

Também agora a minha cabeça será exaltada sobre os meus inimigos que estão em redor de mim; por isso oferecerei sacrifício de júbilo no seu tabernáculo; cantarei, sim, cantarei louvores ao SENHOR.

Ouve, SENHOR, a minha voz quando clamo; tem também piedade de mim, e responde-me.

Quando tu disseste: Buscai o meu rosto; o meu coração disse a ti: O teu rosto, SENHOR, buscarei.

Não escondas de mim a tua face, não rejeites ao teu servo com ira; tu foste a minha ajuda, não me deixes nem me desampares, ó Deus da minha salvação.

Porque, quando meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me recolherá.

Ensina-me, SENHOR, o teu caminho, e guia-me pela vereda direita, por causa dos meus inimigos.

Não me entregues à vontade dos meus adversários; pois se levantaram falsas testemunhas contra mim, e os que respiram crueldade.

Pereceria sem dúvida, se não cresse que veria a bondade do SENHOR na terra dos viventes.

Espera no SENHOR, anima-te, e ele fortalecerá o teu coração; espera, pois, no SENHOR.

…………………………………………………………

 

 

Começo a ler…ansiosamente…

Lentamente,

Versículo a versículo…

Comecei a ficar

Cada vez mais tranquilo

E em Paz…

 

 

Mafra, 4 de Abril  de 2013

7h46m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

quarta-feira, 3 de abril de 2013


A corrente da vida…

 

Como água pura e fresca

Que sai da terra ,

Duma fonte desconhecida,

E limpa, inesgotável,

Nossos pensamentos brotam ,

Rodam,

Trazem luzes, sensações,

Cuja nascente, suas raízes,

Ninguém pode conhecer.

 

Tantas cadeias de gerações passadas,

Tantas faces vivas,

Como nós,  atrás de nós,

Viram estrelas,

Viram sóis,

A nascer

E sóis a pôr.

 

Sentiram a terra a tremer

E a verdejar de pão.

 

De todos vem tudo o que agora somos.

 

Cumpre acrescentar o melhor de nós

E seguir em frente, como estafetas .

Atentos à vida

Que nos arrasta e faz correr.

Fazendo sempre bem

O que deve ser.

 

Mafra, 4 de Abril de 2013

6h59m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Santa Mãe Noite…

 

No princípio era o nada.

Do nada se fez a noite.

Da noite nasceu o dia.

Só depois nasceu a terra.

Só depois nasceu o sol.

E do amor dos dois,

Nasceram as serras

Depois os mares.

 

Toda ufana,

Toda de verde se cobriu a terra.

Vieram flores, como um jardim.

Vieram os peixes.

Vieram os pássaros.

Na perfeição.

 

 

Nasceram os homens.

Na vertical.

E dentro deles,

Cresceu o bem

E também o mal.

 

Com avidez tal…

Nasceu a inveja.

Queriam voar.

Queriam nadar.

Veio a fome.

 

Fizeram-se predadores.

Aqui à caça…

Depois à pesca.

Descobriram o fogo.

Foi só reinar.

 

Até que, de caçadores,

Viraram presas…

 

Forjaram armas…

Procuraram cavernas,

Em defesa própria.

Começou a aquecer.

 

Primeiro nos vales,

Ao pé dos rios.

Treparam aos montes

E viram mais longe.

De sedentários

A vagabundos,

Foi o passo seguinte.

 

Vieram as guerras,

Como fratricidas…

E daí para frente,

Foi o fim do mundo.

E foi assim que

Morreu a paz

Que nascera santa
Do ventre da noite…

 

Mafra, 3 de Abril de 2013

14h14m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

 

 

 

 

Nem o ouro nem a prata…

 

Posso carregar meu dromedário

Com todo o ouro e prata deste mundo,

Armar-me de balas até aos dentes,

Ter ao meu dispor

Meia dúzia de gêpêésses,

Que me tracem o caminho.

 

Ao cabo de poucas horas,

De secura ,

Se não há uma gotinha de água,

Até a alimária com suas bossas…

É a desgraça.

 

Afinal,

Onde ficou o poder e a riqueza?...

 

Mafra, 3 de Abril de 2013

9h53m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes.

 

 

 

terça-feira, 2 de abril de 2013


Suave milagre…

 

Um dia, lá muito atrás,

Prometi a mim mesmo

Que haveria de ser feliz.

 

Durante muito tempo,

Lutei sozinho por consegui-lo.

Sem ajuda de ninguém.

Cada vez me dava conta

De que era mais difícil…

Quase desisti.

 

Tentei de tudo.

Desde, ser o melhor em tudo.

O que corria mais.

O que mais valente.

O melhor da turma.

Tudo em vão.

Cada vez mais me vi sózinho.

Um a um, cada companheiro,

Me abandonava. E, cada vez,  eu mais sofria.

 

Até que um dia,

Ó que milagre!

Mudei de vida.

Passei a olhar

E a ser de modo diferente.

 

Por encanto, tudo mudou.

Comecei a ver em cada um

Um meu igual.

Sem tirar nem pôr…

Embora diferente.

Que tinham coisas

Muito melhores que as minhas.

E me eram úteis.

E eu agradecia.

 

Não levou muito.

Tudo ficou melhor.

Descobri então,

Como é bom gostarem de nós.

E, sobretudo, da nossa ajuda.

 

A partir de então,

Minha vida mudou de cor.

E continua…

 

Mafra, 2 de Abril de 2013

20h40m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

segunda-feira, 1 de abril de 2013


Lareiras de cinza…

 

Lareiras ocultas, escondidas,

Como fragas de pedra.

Icebergs de gelo, por não verem o sol.

 

Lares apagados,

Com braseiras acesas.

Nunca se apagam.

 

Só queimam e escaldam

Quem lhe toca com as mãos.

 

Fogos reais em terras queimadas,

De tanto arder.

 

Fontes em brasa que

 

brotam do chão,

Ninguém apagou.

 

Tantas lareiras caladas com fome de pão.

 

Tantas riquezas que ardem…

Não servem para nada.

 

Fnac de Almada, 1 de Abril de 2013

11h15m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

domingo, 31 de março de 2013

Páscoa das cruzes…
 
 
No alto do calvário
Se ergueram três cruzes.
A minha…a tua …e a d’Ele…
Foi assim a ressurreição.
Sem a minha e sem a tua,
De nada valeria a Sua cruz…
Foi por ti e eu
que Ele morreu
E subiu ao céu…
Como a dizer:
Aqui, na terra,
Não é o nosso fim.
Que também nós
Havemos de ressuscitar…
JÀ beira d’Ele é o nosso lugar.
Mafra, 31 de Março de 2013
17h18m
Joaquim Luís M. Mendes Gomes