sexta-feira, 24 de maio de 2013


Tempestade vital…

 

Diz-se que o mundo terá nascido

Duma grande convulsão.

Dum big bang.  

Duma medonha tempestade

Que atirou para o indefinido,

Pedaços e pedaços de matéria.

Incandescente.

 

Que ficaram a gravitar

Em velocidade louca, sobre si,

Como que a recuperar o ponto de partida.

 

Talvez, por esse estigma original,

Tudo na vida,

Vem duma explosão vital.

Cada fenómeno,

Complexo ou simples,

Assenta num choque violento,

Num confronto com a inércia,

Num duelo de contrários,

Que tendem a coexistir,

Num ponto e base de entendimento.

 

Tudo, em nós,

É vibração e queda livre.

Oxalá para o infinito.

 

Ovar, 25 de Maio de 2013

7h4m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

A simplicidade…

 

Tudo na vida é simples

Como a gota de água.

Como uma pedra

Que se lança ao lago

Provoca ondas

E vai ao fundo.

 

Os nossos olhos ficam perdidos,

Presos a elas,

A perguntar porquê.

 

Arranjam  teorias.

Fabricam tratados.

Num emaranhado louco.

Esquecem a pedra

Que não fica à tona.

 

E ficam os arcos,

A razão central.

Por explicar.

 

Chovem propostas

Das mais solenes.

Em duelo aceso.

 

Forjam-se teses,

Das magistrais.

 

Há promoções de gala

E conclusões finais.

 

De tão brilhantes

Até fazem escola.

Acerca dos arcos.

Esquecem o essencial

Que jaz nas trevas.

 

Ovar, 24 de Maio de 2013

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

Vale a pena…

 

Jurei a mim mesmo

Seria feliz, um dia qualquer.

Até ao dia final.

Tanto hei-de lutar.

Vou conseguir.

 

Não quero riqueza.

Não quero poder.

Não quero reinar.

Só quero deixar

Bem e melhor

Quem vivia pior.

 

 Dizer alto e bom tom

Que sempre vale a pena viver.

 

Com as forças que temos.

Tem fé…

O resto Alguém faz

 

Ouvindo “Nocturno” de Chopin

 

Mafra, 24 de Maio de 2013

7h57m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

quinta-feira, 23 de maio de 2013


Lei vertebral…

 

De repente, uma alcateia abundante,

Vinda do desconhecido,

Desceu a serra

E atacou ferozmente

Este povoado antigo.

Que vivia feliz e em paz.

 

Entrou pelas hortas,

Tudou comeu.

Porcos, galinhas e cabras

E, até os fumeiros,

Regalo dos velhos,

No rigor do inverno….

 

Que bandidos piratas,

Vindos da serra,

Armados de dentes,

Correndo à pata…

Piores que os do mar.

 

Rasgam os sonhos

De gente honrada e batida da vida.

Devoram-lhe o pão e o mel

Que tanto custou a ganhar…

 

Arreganham as fauces vermelhas,

Como canibais…

Ao serviço de si…e outros chacais

Que nem são de cá…

 

Fizeram-se amigos do rei…principal.

Para sacar, com ordem legal…

A ferro e a fogo.

Nada respeitam.

A não ser os nobres da banca…

Nem sequer o tribunal constitucional…

Que tem a seu cargo mais alto,

Defender a Lei vertebral

Deste país …

 

 

Ouvindo Vangelis

 

 

Mafra, 24 de Maio de 2013

6h48m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

Milagre das mágoas…

 

Atirei ao vento as minhas mágoas todas.

Como penas de aves

Que já nem para cobrir do frio,

Serviam.

 

Nasceram em mim,

Tão sorrateiras,

Como ligeiras mossas,

Como feridas graves,

Que nem a chuva ou o sol

Conseguiram sarar.

 

Fiquei curado.

Por um milagre

Que só a Deus eu devo.

Alguém o pediu por mim.

 

Nem a coragem eu tinha

Para o pedir.

 

Voltei a ser de novo.

O amor renasceu.

Muito mais puro.

Com muito mais força.

 

Agora, acordo e amo,

Intensamente,

Cada dia que nasce.

Como nunca amei.

 

Sinto perfumes

Que eu ignorava,

O odor da terra,

Das primeiras chuvas.

 

Das flores silvestres

Que, de graça, tão bem

Vestem os montes.

 

Das tílias gigantes

Que, sem o saberem,

Cheiram a mel.

 

Reparo nos ninhos

Que as aves tecem,

Com o mesmo carinho

Das nossas mães.

 

Sofro a dor do meu vizinho,

Quando lhe vejo lágrimas,

A correrem na face,

Sem curar saber

Se são de raiva

Ou se são de dor.

 

Minha vida corre,

A fluir de Deus,

Como um rio ridente

A correr para o mar.

 

Mafra, 23 de Maio de 2013

20h46m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

Revolução de Maio!

 

Abri minha janela, pela manhã.

À minha frente era o deserto.

Nem um só dos meus vizinhos.

Reais.

Na velha tapada de Mafra.

 

Só a relva verde e os pássaros,

Debicando livres a palha seca.

 

Uma debandada geral.

- Teriam fugido

Da sede e da fome?...

 

Teriam sido levados

Para a revolução de Maio?...

Oxalá fosse!...

 

De ataque aos índios,

No terreiro do Paço?...

 

Abri a tv…

Podia ser que fosse…

Esperanças vãs

Do Abril

De antanho.

 

Mas nada havia.

Tudo pacato,

Em letargia plena e total.

Nada bulia.

 

Pelo meio dia,

Ouvi os telejornais.

 

- Grande manifestação tumultuosa,

No Marquês de Pombal, em Lisboa.

Só de cavalos!...

Com raiva,

Reais…

 

Era a grande notícia!

Ó que euforia!...

 

“- Queremos de novo, o Marquês!...

Venha outra República!...

Abaixo o governo!…

E esta anarquia de vergonha!...

Venha a democracia …

Uma democracia geral!”

 

Ali estavam

Espumando e clamando, heróis,

Os meus venturosos vizinhos

De Mafra…

 

 

Mafra, 23 de Maio de 2013

15h29m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Subindo à montanha
Arregaço as mangas.
Pego na pena.
Lanço meus olhos
para o infinito do céu.
Estremeço, de medo,
Na escuridão que o cobre.
Nem uma estrela sozinha aparece.
Tremente.
É o silêncio. E o ermo.
Ergo uma prece
Uma luz que rasgue e desfaça
em pedaços as trevas
e negrumes de todas as serras.
Lanço no mar
Minhas cordas e amarras que prendem.
Levanto e bato as asas do sonho,
E parto à sorte e ao vento.
Atravesso as nuvens.
E eis que num espanto,
Entro num céu vasto de luz.
Só o silêncio
Aqui reina, inunda e seduz.
Surgem flores de todas as cores.
Abro janelas em mim.
Entra uma aragem suave
Que inunda minha alma.
Meus olhos cerrados voltam a ver.
Passam clarões pela frente.
Que me inundam de rastos.
Tento apanhar pedacços e restos
Como quem colhe flores.
Quando vou a tocar-lhes,
Desfazem-se em fumo,
E se escondem no espaço.
Mas parecem brincar,
Vão a sorrir.
Corro no encalço,
Encantado e sedento.
Não desisto e tento.
E uma lufada de vento mais forte
Rasga as cortinas
E me mostra um jardim.
Fico suspenso.
Ressoam cá dentro,
Ondas indizíveis,
Pintadas de tons
De todas as cores
Que me deixam feliz.
E começo a pintar e escrever…
Mafra, 23 de Maio de 2013
7h43m
Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes