segunda-feira, 27 de maio de 2013


Fecunda guerra...

 

Caem pedras no meu telhado.

Chovem na minha cama

Cinzas negras

Dum vendaval feroz.

 

Oiço cães na rua.

Vêm esfaimados

Das mansões de luz.

 

Passam os coveiros

De enxada nas mãos.

Querem enterrar-nos vivos.

Por ordem d’alguém.

 

Estilhaçaram tudo.

Com vestes de anjos.

Querem o meu sangue

Para o seu festim.

 

São canibais de fome...

Devoraram os pais.

Não poupam ninguém.

 

Deixei minha G-3

Nas bolanhas de África.

Minha cartucheira amada.

 

Agora é que eu a queria

Mesmo à cabeceira.

 

Nem um só escapava.

Mesmo sem pontaria.

Ia tudo a eito.

 

Até que, de novo, a paz

Voltasse a nascer...

E minha terra verde

Me visse a morrer.

 

Ovar, 27 de Maio de 2013

14h53m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

domingo, 26 de maio de 2013


Nunca é tarde...

 

Onde iria dar aquele caminho

que troquei,

por capricho vão,

contra o aceno oculto

que eu ouvi em mim?

 

 Tudo seria diferente.

Já estaria lá...e certo.

 

Quantas voltas vãs,

Pelo mundo eu dei.

O tempo perdido,

Para chegar aqui.

Onde, por culpa minha,

Não me sinto bem.  

 

Mas, no fundo, é certo.

Se o quero bem,

Há sempre tempo

De arrepiar caminho.

Nunca será tarde...

 

Há sempre um atalho

Que nos leva ao cimo.

Basta estar atento

E seguir em frente.

 

Ovar, 27 de Maio de 2013

7h53m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

O melhor caminho…

 

Sonho ser feliz,

Desde o nascer.

E sonho…sonho

E luto.

 

Depende de mim

E mais ninguém.

Basta querer.

 

Aceitar os outros

E ser melhor que eles,

Mesmo com dor

É o melhor caminho.

 

Há sempre flores

A brilhar ao sol.

Ali à mão.

Para oferecer.

É só pegar.

 

O encanto é tal.

Ninguém resiste.

Tanta riqueza.

Todas as portas

As deixam entrar.

 

Ficam bem à mesa.

Quanto mais pobre,

Mais elas brilham,

Sem nada pedir.

 

Semear o bem,

É só esperar

Dá sempre fruto.

 

A avareza é pobre

E é raiz do mal.

 

Quem o espalha,

Só para reinar,

Até pode ser rico,

Nunca é feliz.

Erra o caminho.

 

Tarde ou cedo,

Vem a tristeza

Que causa dor

E  traz o luto à alma.

 

Ovar, 26 de Maio de 2013

16h57m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes
Minha grafonola velha…


Era de dar à manivela

A minha grafonola preta.


Como um moinho à roda,

Moía notas de som,

Desfiava baladas quentes,

Melodias do fado,

De Farinha e Marceneiro.

Do Hilário do choupal…
De Lisboa, a capital.


Não precisava de cordas

De harpa ou de viola.
Nem para o corridinho.

Só sei.

Aquele bico a prumo,

Riscando o disco,
Às voltas,

passavam de mil,

Sem fazer fumo,

Desfiava vozes
E debicava sons,

Com a exactidão,

Total encanto,

Duma perfeita orquestra.


Ali jaz no sótão,

Tão caladinha e sóbria,

Como se estivesse morta,

Mas ainda canta e toca,

Se eu lhe der a corda…


Ovar, 26 de Maio de 2013

7h49m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

sábado, 25 de maio de 2013


Minha harpa…

 

É de madeira de ébano

A harpa que me legaram os deuses.

 

Quando ela toca,

Minhas cordas vibram.

Baladas de ouro.

Mirra e incenso

Que sobem ao céu.

 

Minha alma sonha,

Num delírio vibrante.

Ressoam ondas

Dum mar distante.

De quando ainda só as aves

Trinavam versos,

Sem pauta à frente.

 

Têm a cor do ouro,

Reluzindo ao sol.

 

Solta acordes breves,

Como hinos celestes.

Oriundos divinos,

Quem não sabe cantar.

Precisam das nossas harpas

Para se fazerem ouvir

E nos fazerem sonhar.

 

Ovar, 25 de Maio de 2013

20h34m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

Revisitação…

 

Esqueço nas insónias,

Minhas horas passadas de angústia.

 

Seco minhas lágrimas

Com a brisa leste do mar em frente.

Estendo ao sol

As minhas vestes gastas de pedinte.

 

Pus-me a rever lá atrás,

As promessas da minha sorte,

Quando, há tanto, eu fui infante.

 

Sonhei estudar e ser alguém.

Sem dinheiro…

Parecia impossível.

Quis ser padre e desisti.

 

Foi  lá que a luz dos livros

Se me abriu.

E cresci…cresci…a par.

 

A meio caminho.

Veio a tropa a sério,

A  caminho da guerra.

 

De tudo joguei.

Até na roleta medonha,

Das operações de morte.

 

Caíu metralha aos montes,

À minha volta.

 

Meu destino era voltar,

São e salvo,

Ao pé dos meus

Para continuar

O meu caminho.

 

 

Ovar, 25 de Maio de 2013

18h42m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

 

 

 

 

 

 

Milagre das cerejeiras

 

Por volta do mês de Maio,

Quando o vento dava

para lançar o papagaio,

colado a goma de sapateiro,

todo ele em papel negro de jornal,

preso a cinquenta metros de fio grosso,

das canas secas

dos foguetes mortos,

a cerejeira alta do vizinho,

exibia engalanada,

que nem um andor,

abundantes cachos rubros de cerejas.

 

O dono ia para a feira da vila descansado.

A pequenada, no fim da escola,

Poisava no chão respeitosamente,

As alças presas das sacolas.

 

Pareciam macacos trepadores,

Pelo tronco grosso acima.

Até aos cumes.

 

Depois era só encher,

O corpo,

À volta fresca da camisa.

Até mais não…

 

A seguir,

Na mata do tanque,

Da quinta das bócas.

Sob os carvalhos

De frondosa sombra.

Era um fartote!...

 

Não havia gelados, yogurtes,

Nem frigoríficos.

Só havia sol

E a liberdade de fazer milagres

A céu aberto,

À saúde da cerejeira…

 

Ovar, 25 de Maio de 2013

15h52m

 

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes