quarta-feira, 29 de maio de 2013


Mar morto...

 

Está tão calmo o mar

Que tenho ao pé.

Não há ondas,

Não há vento.

Não tem algas.

Tudo nele dorme

Em sono profundo.

Era tão viçoso e rico!...

 

Até as pedras

Que lhe venho lançando.

Caem secas,

Ficam à tona e ao sol,

Como um deserto.

 

Pior que um charco, à sombra,

Onde há rãs...e folhas mortas

E se adorna de flora verde.

 

Parece um jazigo

De almas penadas,

Que o céu não quis acolher.

 

Não me canso de lançar pedras...

Pode ser que a chuva venha em temporal

E a vida volte a renascer...
E as minhas pedras
Se tornem conchas.

 

Ovar, 29 de Maio de 2013

22h20m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

Nem com um cento de contos...

 

Empenhei as minhas barbas brancas

Pelos netos que Deus me deu.

Por ora, são só quatro.

Cada qual é o mais lindo.

 

Quatro prendas de Natal.

Em troca dum sapatinho.

Com a bênção do Senhor!...

 

Primeiro, foi o João.

Que belo moço!...

Uma obra prima.

 

Tão perfeito,

De corpo e alma.

Tem tudo em grande

Para ser um grande homem.

Se o mundo

Não o estragar.

Tem mãos de artista.

Asas de sonho.

Tem vaidade de sobra,

Não sabe perder.

 

Depois o David.

Muito diferente.

Uma habilidade de mãos.

Imaginação fulgurante.

Perspicácia feroz.

Naquilo que gosta.

Cria oligamis

Como quem tece painéis.

Um arquitecto sem par.

 

A seguir, uma fada de sonho.

A Sarita Joana.

Desenhada a pincel

Pelo melhor artista

Que havia nos céus.

Rainha será,

Com o mundo aos pés.

 

Depois o Tomás,

Foi prenda do grande mestre.

Que obra –fina, tão perfeita.

Deixou tanta saudade...

Ao fim de dois anos,

Foi Deus que o quis

No céu...

 

 

Ovar, 29 de Maio de 2013

21h39m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

O poder das sombras

 

Me ficaram cravadas fundo,

Num dos lados,

Todas as feridas,

Mesmo leves,

Que me deixaram,

E nunca esqueço.

 

Mas, no outro,

Para sempre,

Bem guardados,

Cada gesto bom

Cada sorriso,

Por mais breve,

Que me deram.

 

Fiz a soma

E o saldo é de sobra,

A meu favor.

Por isso, eu vivo

E canto a sorte de viver.

 

São as sombras

Que dão encanto

Às cores

E é com cores que se pintam

Os lindos quadros

Que irradiam vida.

 

Ovar, 29 de Maio de 2013

14h30m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

terça-feira, 28 de maio de 2013


O meu gatito cinzento

 

Sem marca.

Veio dum bando,

Sem pai registado.

 

Fez-se cá a casa.

Num instante.

Agora é sua.

 

Não há cortina ou cadeira

De seda ou de napa,

- ó que desgraça!...

Que escape as suas dedadas .

 

Salta-me para o colo.

Indiferente ao que faça.

Está-se nas tintas.

 

Seus longos bigodes,

Varrem-me as faces,

Me cheira o nariz.

Oiço rom-rons ritmados,

Na sua guela.

Parecem tambores.

 

Seus olhitos vivaços

Seguem o rato e as letras

Que correm

No écran luminoso

Do meu computador.

 

 Atiro o ao chão.

E ele, danado,

Dá mil voltas à casa

Em correria louca.

 

Segundos passados,

Sem vergonha na cara,

Teimoso,

Aí está de volta,

Em cima dos ombros,

Sem espera de vez.

 

Ovar, 29 de maio de 2013

7h52m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

Milagre do cozido à portuguesa

 

Em cima das mesas,

Só restam desalinhados,

Os talheres e os pratos,

À solta .

 

Há restos de peles e ossitos,

na borda do prato.

Naquitos de pão desfeito

Em migalhas e côdeas

Cobrem a toalha.

Sem regra.

 

Nas travessas, sobram esventradas

Batatas e arroz, vestidos de couves.

Do chouriço negro e vermelho,

Só sobram as peles lambidas.

Que s comam os cães...

 

Na borda dos copos,

Há marcas de batons

E sujos beijos lambidos.

 

As garrafas ao alto

De rótulo rasgado,

São vasos calados.

Que perderam o pio.

 

À volta das mesas,

Há rostos vermelhos e olhos,

Ambos luzentes.

 

Abundam sorrisos abertos,

Rasgando tristezas

Em irrequietas cabeças.

 

Gargalham risadas sonoras

Que atravessam a sala.

Parecem obuses.

 

Jorra alegria à farta,

Em cataratas de fé

Dos pés à cabeça.  

 

As memórias passadas

Chegam fresquinhas em caixas

Que a saudade transporta. 

 

Chovem surpresas ocultas

De pequeninas glórias secretas,

Que iriam ficar sepultadas

No silêncio da cova.

E tanto, a todos interessam.

Como se fossem só suas.

 

Bendito cozido e filhoses,

Regado de vinho,

Que consegue sentar

Tanta amizade,

De camaradas de guerra,

À volta da mesa, felizes!...

 

Ovar, 29 de Maio de 2013

7h14m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

e serei feliz...

 

Custe o que custar,

Prometi a mim mesmo

Que serei feliz.

 

Tenho Fé!...

 

Não há vagas,

Não há rochedos

Que eu não escale

De olhos presos

E o coração livre.

 

Não preciso de asas.

Basta um balão

E uma chama a arder.

 

O vento me leva,

Rumo ao infinito.

Basta soltar amarras

E deixar-me ir.

 

É lá do alto,

Por cima das nuvens

Que se vê o céu.

 

Como é pequena e simples

Esta terra azul.

 

Nem os montes mais altos

Me conseguem tocar.

 

Quanto mais subir

Mais pequenos ficam.

 

Já não há impérios,

Nem coações ferozes

Que me prendam o leme.

 

É só neste mundo livre

Que eu quero florir.

 

Ovar, 28 de Maio de 2013

13h58m
Joaquim Luís Monteiro Mendes Gom

Batuque no meu quintal

 

Armei uma tenda grande

No meu quintal.

De caqui da tropa.

 

Pequei num tambor

E pus-me a tocar.

Aquele batuque,

Soturno e longo,

Bem à moda da Guiné.

 

A passarada à volta,

Apardalada,

Foi a primeira.

Debandou em alvoroço.

 

Por momentos,

Fiquei só eu

E o agudo latir

Dos cães do povoado.

 

Foi só um pouco.

Um a um,

Depois em grupo,

Foram chegando,

Espavoridos,

Primeiro, os vizinhos,

Depois, de mais longe,

Os mais curiosos.

 

Ainda assim, eram vizinhos.

 

Não levou muito.

Uma magna assembleia,

Vinda de longe e perto,

Se prantou a ouvir

O trinado forte

E toques simples

Que não dizem nada...

São só batuque!

 

 

Ovar, 28 de Maio de 2013

8h12m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes