sexta-feira, 7 de junho de 2013


A cem por um...

 

Saio para a rua desarmado.

Por fora.

Por dentro,

Levo um colete reforçado,

à prova de toda a bala.

Não é de aço ou bronze.

Ou outro metal inerte

Que a ferrugem traça.

 

Minha carapaça é só a força

Que me vem de dentro.

É telúrica. Astronómica.

Intemporal.

 

Minhas amarras ainda estão presas,

Não nas margens, baixas,

Que as águas desfazem,

Se o mau tempo vem,

 

Mas à rocha firme,

Um castelo de pedra,

Que me serviu de base

E ponto de partida.

 

Aí, sim. Havia cabos de aço.

Nos prendiam à terra

E chegavam ao céu.

 

Tudo era verdadeiro

E límpido.

 

Não havia jaças.

Tudo era de graça.

 

Como a chuva ou o vento,

Que abrem caminho,

Preparam o terreno

Onde a semente nasce,

A seguir o fruto,

A cem por um.

 

Ouvindo André Rieu

 

Ovar, 8 de Junho de 2013

7h46m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

Acabou a guerra...

 

Estranhas vistas vejo

da minha janela verde.

Não passa ninguém.

Está tudo dormente.

 

Não se ouvem pássaros.

Só miam gatos

E ladram cães.

Nem o carro do lixo vem.

 

Só o sino das horas,

De hora a hora toca,

Uma a mais que antes tocou.

 

Não passam varinas.

Nem as buzinas dos almocreves.

Nem cavalos à solta,

Só a palha seca aos molhos

Espera por eles.

 

Só as pás gigantes,

Geradoras eléctricas,

Emergindo das copas,

Ao longe,

Rodam lentas

Ao vento norte

Que sopra forte.

 

Nem sequer a tropa fandanga,

Que já não é tropa,

Trepa as colinas,

Como antigamente,

Nas sendas da mata.

A guerra acabou...

E felizmente.

 

Ovar, 7 de junho de 2013

18h4m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

 

 

 

 

 

O meu atelier

 

Não tenho pincéis nem tintas.

Nem aguarelas.

Não uso aventais.

Nem pastéis ou óleos.

 

Minha paleta é só o teclado cego

Cheio de letras.

Não uso velas,

Minhas paletas

São só as estrelas.

 

E o meu cachimbo

O timoneiro

Com que desfaço as nuvens

Para ver o sol.

 

Não tenho cadeiras

Só bancos de pedra,

Um lago de rãs,

E um jardim em flor.

São o recreio

Onde descanso

Quando o sono vem.

 

Enquanto minhas telas secam

Para fazer seguir,

Como folhas soltas,

Que deito ao vento,

Até ao destino

Que só ele escolher...

 

Ovar, 7 de Junho de 2013

15h28m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

Mundo do mar

 

Atirei-me ao mar todo vestido.

Vieram cardumes

Pegaram em mim,

Sem perguntar quem sou,

Tiraram-me as vestes,

Emprestaram-me barbatanas,

Disseram como se faz

E fui com eles...

 

Subi aos montes,

Desci aos fundos,

Mostraram rochedos,

Visitei palácios,

Tudo de graça.

Sem ir para as bichas.

Assisti a bailes de gala,

Ouvi sereias,

Que bem cantavam.

 

Ao nascer do sol,

Trouxeram-me à tona,

Fiquei a boiar

E adormeci...sonhando...

Que mundo lindo,

O mundo do mar!...

 

Ovar, 7 de Maio de 2013

14h45m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

Não peço muito...

 

Gostava de usar só túnica.

Que fosse branca,

dos ombros aos pés

 

De lavar no rio,

e secar ao sol.

 

Usar alpercatas livres,

Não usar meias,

De tirar e pôr...

 

Ter um camelo,

Sempre ao meu lado.

Que me carregasse as malas.

 

Pisar areia.

De viver num oásis.

 

Contar as estrelas,

Sem taboadas.

 

Sem calendários

A contar-me os dias...

 

Poder sonhar,

Sem pesadelos.

 

Não usar talheres,

Comer insectos

Com golos de água.

 

Rezar a a Alá,

Ao pôr do sol.

 

Bailar com nuvens

Desejando a sombra,

Companheira virgem

Para os meus enlevos.

 

E que um dia,

Quando Deus quisesse,

Sem vaticanos,

Acordar no céu

Para todo o sempre...

Ao pé do de Deus.

 

Ovar, 7 de Junho de 2013

14h 5m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

 

quinta-feira, 6 de junho de 2013


Apenas um ponto...

 

Do mais ínfimo e simples

para  o complexo,

Tudo no mundo

é revestido de camadas.

 

Autoprotectoras.

De dentro para fora.

Como quem guarda no centro

o que é bom,

Como um segredo,

E é preciso preservar.

 

É assim, nos pequeninos seres,

Com os seus núcleos ínfimos

Que escondem núcleos,

Quase infinitos...

 

É assim, universo fora.

Teia emaranhada

de tantas órbitas colossais

Que se enlaçam

E prendem

 em espirais de força,

Gigantescos seres,

Sem dimensões e peso,

Como fenómenos...

Minúsculos pontos de luz,

Parecem perdidos

Na imensidão celeste.

 

Olho para tudo isto.

Só de olhos fechados,

eu vejo claro

que, por mais que pense

apenas sou um ponto ...

E apagado.

 

Ovar, 7 de Junho de 2013

6h49m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

quarta-feira, 5 de junho de 2013


Nave espacial

 

Por entre estreitas frestas das nuvens,

no silêncio infinito da noite,

Enxerguei a passagem,

pertinho do céu,

Dum pontinho de luz,

Tão lenta e suave,

Como se fosse parada.

Dizem que é uma nave espacial,

Saída da terra,

Rumando com norte,

Espreitando o que há

 

À roda da terra,

Sementinha azul,

Envolta de paz.

Mas onde, como vírus voraz,

germina a fome e a guerra,

de quem olha o céu...