quarta-feira, 12 de junho de 2013


Lembrando serões...

 

Como uma lenda antiga

Que os avós contavam,

Ao serões de inverno,

Lareira a arder,

No rigor do frio,

A chuva a cair,

O vento a soar,

Bramidos de mar,

Oiço enlevado,

Minhas ondas internas,

Contando segredos,

Contos de fadas,

Me fazem sonhar.

 

Lembro as horas,

Tão longe,

Carregadas de amor,

Brincando às cegas,

Noitadas sem fim,

Sem querer dormir,

Ao pé dos meus pais alfaiates,

Que ganhavam o pão,

Na oficina a coser e brunir.

 

A roupa a estrear

Para a festa da igreja,

Com música e andores.

Que estava a chegar.

 

Em Pedra Maria,

E demais arredores,

Nos quinze de Agosto,

Senhora da Assunção,

Com gente feliz...

Ouvindo  “ silêncio” de Beethoven

 

Ovar, 12 de Junho de 2013

15h58m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

 

 

Explosão feliz

 

Lancei meus laços à solta,

Fiquei  à espera.

De braços abertos,

Podia ser que alguém,

Perdido ou mais livre,

Fosse a passar

E me soltasse,

Sem eu abafar.

 

Como um enxame,

Uma teia densa,

Ainda mais preso,

De tantos laços,

Maiores que os meus,

Aqui fiquei.

 

Com tanta força,

Me sinto apertado.

Uma explosão...

Fiquei a arder.

 

Aqui vou voando,

Em liberdade,

Universo fora,

Incandescente,

Balão a arder,

Em combustão feliz.

Fogo divino,

Asas de sonho,

Não acaba mais...

Só parará

Quando entrarmos no céu.

 

Ovar, 12 de Junho de 2013

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

terça-feira, 11 de junho de 2013


Oração da manhã...

 

Como seria este País

Que a sorte dos deuses fez tão lindo,

Aqui deitado à beira-mar.

Exposto livre,

Ao sol e à brisa,

Com abundância extrema,

 

Bem nos fins do mundo,

Que vai da Europa

Ao fim da Ásia imensa,

 

Ponto de partida e de chegada,

Que todos os olhos vêm,

Com a ânsia de conhecer,

Justa e certa.

 

E não perdido algures,

No emaranhado espesso e denso,

Sem mar à volta,

Como em clausura presa.

 

Como varanda aberta e alta,

Com tanto verde e flor,

Sobranceira às ondas cansadas

Que chegam de longe.

 

Como seria lindo

Se nele reinasse a justiça e paz...

Por isso eu choro e oro!...

 

 

Ouvindo Aznavour

 

Ovar, 12 de Junho de 2013

7h30m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

Sou poeta...

 

Meus versos

que meus olhos lêm,

Me dizem que sou poeta.

Nunca o pensei...

Embora o quisesse muito.

 

Quando na escola

Descobri a poesia,

Lida, tão bem dita

E meditada.

 

De Miguel Trigueiros,

“O natal das sombras”

A chegarem em cortejo lento...

 

Os sonetos enigmáticos e belos

De Camões, com suas “elegias” de fazer chorar..

“Sôbolos rios de babilónia...”

De Bocage e Antero Quental...

“Já Bocage não sou...

à cova escura meu estro foi parar desfeito em vento”

 

De António Nobre...

Fernando Pessoa...

e tantos mais.

 

Com que enlevo,

me entregava a ouvi-los.

 

Meus ouvidos ficaram moldados.

Meus olhos sequiosos

Ficaram religiosamente atentos,

Perscrutando tudo.

 

Sem dar conta,

me fui impregnando,

E de repente,

Minhas amarras presas,

Se soltaram

Como asas ocultas,

E comecei a voar...

Neste universo lindo,

Como se fosse um sonho.

 

Café Parque, em Ovar,

11 de Junho de 2013

11h15m

 

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

segunda-feira, 10 de junho de 2013


Minha Pátria

 

É uma parcela de terra,

Pequena

Da Europa gigante

Cercada de mar.

 

Tem campos e serras,

Uma teia de rios sem fim.

Ramadas perenes,

Carregadas de vinho.

 

Uma fartura de hortas,

Lezírias,

Campos de milho,

Searas de pão

Que chegam e que sobram.

 

Tem feno e tem linho.

Secando ao sol,

Na orla dos rios.

 

Florestas à farta,

Estaleiro imortal

Das naus da glória.

Repasto malévolo

Dos incêndios de Agosto...

Guarda tesouros de oiro,

No seio do solo.

 

Tem um império de mar

Onde pode pescar,

Para comer e vender.

 

Tem sol a brilhar,

Com fartura,

E muita areia nas praias,

Toneladas de iodo,

Para dar e mercar.

 

Sobretudo,

Tem gente rica e valente

Com alma gigante,

Com história brilhante

E antiga.

Que canta e que fala

Numa língua, t

Exacta e perfeita,

Mais rica, na terra,

Não há...

 

Ovar, 10 de Junho de 2013

19h14m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

Holocausto

 

Minha esperança e fé

neste país atraiçoado

Arde em chama ardente,

Em sacrifício aos deuses.

Clamam justiça!...

 

Quando as forças do corpo

Se vão esgotando.

Só restam as da alma...

Incorruptíveis.

 

Renascem das cinzas.

Quanto mais ardem,

Mais fortes ficam.

Fogo divino,

São imortais.

Como Quem as deu.

Por isso, espero e creio

Que a bonança volte

E o holocausto acabe.

 

Ovar, 10 de Junho de 2013

15h43m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

Até ao topo...

 

 

Calcei minhas botas

Em couro espesso

E porte leve.

Um impermeável verde.

Minha mochila.

Com o preciso.

 

E aí vou perdido,

À sorte.

Montanha acima.

 

Deixei o rio,

A correr no leito,

Cercado d’hulmos,

E vidoeiros.

Vai entretido,

Com seus cardumes,

Transporta paz.

 

Pelas barrocas frias,

Sob ramadas altas,

Entre quinteiros,

Escorrem valetas

Parecem rios,

Águas da serra,

Que a chuva deixou.

 

Pelas encostas negras,

De terra-húmus,

Crescem à solta,

Ao deus-dará,

Lírios silvestres,

Cochilos prenhes,

De várias cores,

Brilham as amoras,

Filhas das silvas,

Cantam os grilos.

 

De vez em quando,

Lá vem um cão,

Ladrando,

Parece zangado,

Cheio de medo,

Estranha quem passa

E não é da casa.

 

E passo a passo,

De pedra em pedra,

Aí vou subindo,

Caminhos de cabra

Ou carros de bois,

Cada vez mais alto.

Cada vez mais leve,

Encosta fora.

 

Depois das casas da aldeia,

E suas cortes de gado,

Das oficinas toscas

E algumas tascas,

Cheirando a vinho,

 

Vêm os montes agrestes,

Onde só moram urzes

E os tojos de mato,

Um reino de paz,

As abelhas zumbem

E cantam os grilos.

 

Há serradela tenra,

Ninhos de cuco.

E o sol é brasa,

Quando não chove.

 

Cada vez mais leve...

Aí vou subindo,

Até ao topo.

Escorrendo suor,

Escutando o silêncio,

Olhando ao longe,

Como sabe bem...

 

Ovar, 10 de Junho de 2013

9h15m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes