domingo, 16 de junho de 2013


Peregrinação...

 

Alegremente e sereno,

Caminho e sigo,

Desembaraçado  e leve,

Sem laços e pesos,

Meros enfeites,

Inúteis, caducos,

Que não servem,

Iludem.

 

Só levo meus braços e pés.

 

No peito, com força,

Batem pancadas

E fogo a arder.

 

A cabeça erguida.

Olho o céu e o chão

Sinto os ventos que sopram

De todos os lados.

 

Peço ajuda se caio,

E perdão se ofendo.

 

Lavro a terra e oro,

Não espero o pão

Que caia de graça ...

Do céu.

 

Só levo um bombo alegre

E um pequeno instrumento de som

Que cantem comigo, à sombra,

Minhas alegrias e penas

Nas sestas.

 

E levo uma pena de tinta,

Que risque arabescos e traços

Onde minha alma

Some e registe

Todas as contas e notas

Que faço, cá dentro,

E, um dia,

Tenho a prestar...a Alguém.

 

Ouvindo “ história de amor” de Henrique VIII e Ana Bolena

 

Ovar, 17 de Junho de 2013

7h2m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

 

Para relaxar...

 

Lavei meu corpo ,

Nas águas correntes dum rio

Ao sol.

 

Tão limpo e perfumado,

Nem o sol me quis secar,

Com pena e medo

De o sujar,

Nas brasas ardentes

Dos seus raios.

 

Vesti minhas roupas

E lancei-me ao tempo

E, feliz e leve

Fui correr mundo.

 

Não passou muito.

Vieram as chuvas ácidas,

Cheias de cinzas.

Qual múmia negra,

Minha pele tinta,

Só meus olhos fundos,

Me reluziam no rosto...

 

Ai de mim,

Se o visse ao espelho!...

 

Voltei ao rio,

Num sítio à sombra,

Tanta era a vergonha e o medo

De imundo eu estava.

 

Caí ao rio,

Foi tal o susto.

 

Morri de medo,

Do medonho fantasma negro

Que saíu do fundo,

Pronto a matar...

 

Ouvindo “Vangelis”

 

Ovar, 16 de Junho de 2013

21h40m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

 

 

Pègadas da praia...

 

Uma pancada leve e invisível

Tocou meu ombro,

Quando me deleitava a ver o mar.

Olhei em volta,

Não vi ninguém.

 

As nuvens estavam serenas,

Lá no cimo.

Não havia aves.

Só areia fina,

E uma brisa leve.

 

Fechei os olhos.

Fiquei a ver meu pensamento.

Saído de mim,

Buscando confuso,

Em remoinho...

 

Levantei-me.

Comecei a andar.

 

À minha frente,

Havia pègadas frescas.

De pés descalços.

 

Fui-as pisando,

Muito ao de leve,

Com meus pés nus.

Eram exactas,

Do mesmo tamanho,

À mesma distância,

Pareciam minhas.

 

Fui-as seguindo,

Para lá das dunas.

Até fora da praia.

Continuava deserta.

 

Só as ondas azuis,

À sua vez,

Continuavam tecendo

Rendas de linho,

Mantas de espuma,

 

- quem as mandava?...

 

Todas diferentes,

Tão caprichosas,

Mal assomavam,

Logo se iam,

Sem deixar pègada.

 

Só as minhas,

Se quedavam sós,

Como a chamar meus pés,

Em nova visita...

 

Ouvindo “ Adágio” de Albinoni

 

Ovar, 16 de Junho de 2013

15h5m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

 

 

 

Amo viver...

 

Amo viver e a vida

Até mais não poder.

 

Quando o fim chegar,

Terei de partir,

Mas vou a chorar...

 

Queria viver eternamente.

Sonhar com este mundo,

De paz e amor.

 

Um banho no mar,

Um passeio nos campos,

O sol a brilhar, depois de nascer.

 

O luar de Agosto,

As festas de amor

À beira do rio,

Noitadas felizes

Com sonhos de fogo.

 

Não posso aceitar

Que vai tudo acabar

Quando meu sol morrer

Deitado no mar,

Sem poder renascer.

 

Ouvindo “love story” de Beethoven

 

Ovar, 16 de Junho de 2013

8h50m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

sábado, 15 de junho de 2013


Solidão Negra

 

 

Surdas badaladas me soam fundas.

Como teias de aranha presas

Nos fundos da caverna do meu mar.

 

Retinem sinos, como bombos,

Em longos cortejos negros

De tristeza e de pesar.

 

Sombras amargas me descem presas,

Neste poço fundo,

Quase sinistra sepultura.

 

Ouvem-se trotes secos de cavalos,

Por calçadas de falsas pedras,

Como fardos de palha seca.

 

Retirei-me do outro mundo

Onde tudo corre contra a mão.

Procuro a paz, mesmo que

No céu não haja estrelas,

Minha companheira,

Seja só a solidão...

 

Ovar, 16 de Junho de 2013

7h40m

Joaquim Luís Monteiros Mendes Gomes

Rio de pedras...

 

Mergulhei ao fundo

da minha vida passada.

Fui pé-ante-pé, pelo fundo do rio.

Meus pés sangraram.

Com tanto calhau que pisou.

 

Pedras que alguém me atirou,

Tentando roubar minha vida.

Impedindo-me de chegar onde ia.

 

Mas não conseguiram.

As pedras jaziam inertes,

Com marcas das mãos indeléveis

Que alguém me estendeu,

Salvando-me

E por isso aqui vou.

 

Sorrindo, olhando em frente.

Subindo a pulso,

Nas margens do rio.

Amarrado à vida,

Vivendo em cheio,

Sem freio nos dentes

 

E hei-de chegar

E vencer.

Meu porto final.

 

Ovar, 15 de Junho de 2013

13h47m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

sexta-feira, 14 de junho de 2013


Reclamo vingança e justiça...

 

 

Te choro, ardente,

Meu povo traído,

Enganado,

Merecias viver

Alegre e feliz,

Com o fruto

Do suor do teu rosto,

Noites de inverno,

Tardes de agosto.

 

Merecias viver

Encantado e sereno,

Com teus filhos e netos,

Brincando na praia,

Em férias felizes,

Ganhas num ano

De trabalho e labor...

 

Que te fizeram,

Meu povo imortal,

Coberto de dor,

Alta traição,

De quem teve o poder

De trocar e vender,

Por meio tostão,

Que meteu no bornal...

 

A herança de sonho,

Que os Pais nos legaram?...

 

 

Ouvindo Jacques Brell

 

Ovar, 15 de Junho de 2013

7h37m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes