domingo, 23 de junho de 2013


O meu canário amarelo...

 

 

Canta e canta de manhã à noite.

E se me pressente,

mesmo de madrugada,

mesmo sozinho,

Pega na flauta

e põe-se a cantar.

 

Não canta fados.

Só sabe loas,

Tão afinadas,

Mesmo sem pautas,

Me fazem chorar.

 

É amarelo.

Bico fininho.

Melhor que o melro,

Do meu vizinho,

Conhece seu dono

Com tanto carinho,

Espanta as tristezas,

Enche minha casa

Com ondas de paz.

Anjo com asas,

Que não podem voar.

Gaiola cadeia,

Sem crimes,

Penas que cumpre,

Em troca do ninho

Abrigado

Da chuva e do vento,

Vestido de seda,

No inverno e verão.

Seu canto me encanta,

Violino sem cordas,

Que sabe voar...

 

Mafra, 23 de Junho de 2013

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

 

 

 

OS Azeiteiros


 

 

 

Já não existe a casa amarelada de dois andares onde eu nasci. Hoje, apenas está lá o sítio e o plátano que lhe dava sombra.

Não era dos meus pais. Era arrendada. Ao senhor Alvarinho dos Moinhos. Uma bagatela de renda. Aí, uns cinquenta mil réis, talvez...

Apenas o primeiro andar estava arrendado.  Direito a um bom quintal, com poço e tanque, nas traseiras.

Subia-se para ele por uma escada de granito, a partir de um cancelo em ferro forjado baixo, tinha sido encarnado, em tempos.

Os degraus eram altos e as pedras ainda estavam rugosas. Contei-os, todos, era eu menino, num trambulhão, sem fim, que me ia mandando p’rós anjinhos.

Havia um corrimão, também em ferro, a proteger quem subia ou descia. E fazia jeito, principalmente nas noites de inverno. Não havia iluminação pública na estrada nacional que lhe passava adiante.

Por isso, de inverno, aquela protecção era muito útil aos fregueses do meu pai que era alfaiate, quando se iam embora, com o fato novo ao colo, depois das longas esperas a que já se habituavam, em serões que não tinham fim.

Por baixo tinha uma garagem a todo o comprido e a largura do andar que suportava.

Tinham acesso a ela, para um ou outro arrumo transitório, mas não o direito a usá-la.

Por isso, foi muitas coisas, que me lembre, para meu regalo, até foi fábrica de pregos.

Como tinha um alçapão fundo ao comprido, tapado por tabuões enegrecidos de pinho, com escadinhas de acesso, mesmo ao meio do chão, terá sido oficina de carros.

Não sei de quem era o carro, mas houve um, grande, que fez as minhas delícias furtivas, horas a fio, às escondidas dos pais. Enquanto se manteve ali, estacionado. Alguém pediu para o guardar. Tinha uns grandes faróis cá fora, em cima dos guarda-lamas, pareciam gigantescos olhos de boi. E uma corneta de borracha, tipo de clister. Nessa não tocava eu...

Entrava-se subindo um espaçoso degrau em metal reluzente e depois vinham uns estofos avermelhados de couro com cheiro a sapateiro.

Um guiador preto, que me esgotavam o comprimento dos meus braços. Só de joelhos tinha vista lá prá frente.

 

Sem dar conta, um dia deixei de o encontrar... lá.

Por muito tempo, fiquei mais pobre e triste, sem a magia daquele meu castelo de sonho.

 

Ao lado de nossa casa havia outra. Como se diz hoje, geminada. Também do mesmo senhorio, e arrendada ao senhor Manel Cunha que era sapateiro. A oficina ficava na loja. À socapa de meus pais, que não me deixavam ir para lá, vi-os fazer, de fio a pavio, as botas e sapatos, desde o corte ao fim.

A mulher, de faca em punho, era quem talhava e fazia o corte das peças de cabedal e, a seguir, as cosia desembaraçadamente, na máquina de costura, marca Singer, mais robusta que a do meu pai.

 

Eu gostava deles.

 

Nunca me regatearam um pouco de goma de farinha triga, com que colavam as solas, para os meus papagaios de jorna. Ou as tiras de borracha para as minhas fisgas.

 

De vez em quando, levantava-se para lá uma trovoada..., de raios e coriscos, entre ele e a mulher. Parecia o fim do mundo.

Não sabia porquê, mas apercebia-me de que não havia grande entendimento deles com meus pais.

Um dia, também eles desapareceram.

E ainda bem.

 

Foi então que chegou, vindos de fora, outro casal, com dois filhos, muito mais velhos do que eu. Por isso, não me lembro do nome deles. Dizia-se que vinham lá dos lados de  Coimbra. De Poiares.

 

De facto o falar era muito diferente do nosso. Soava cantado, agradável de se ouvir.

Eram azeiteiros. Viviam do suor duma mula, preta que tinham.

Todos os dias, ainda madrugada, lá estavam todos à volta do animal, num cerimonial complicado a que, depois, com o passar do tempo, tive acesso, e me regalava de ver.

A alimária alojava-se num compartimento, demarcado só por toros de madeira,ao canto da loja ampla do rés-do-chão, cheio de palha e tojo de mato, como cama, e era o centro, prioritário, de todas as atenções e cuidados da família.

Tornou-se habitual, a qualquer hora da noite, ouvirmos, através das frestas ralas  do sobrado comum às duas casas, a voz rouca do tabaco, do sr. Azevedo,assim se chamava,  a perguntar à mulher se tinha deixado de comer à burra...

-         ó home, só agora é que te lembras?...por ti, o bicho já tinha morrido de sede e fome...- era sempre a resposta imediata, em tom zangado, da Miquinhas.

Depois, seguia-se o silêncio da madrugada entrecortado pelo ressonar cavernoso, certamente, do marido rezengão.

Não por muito tempo. Por volta das quatro e meia, cinco horas, ainda noite escura, começava a carrega da burra.

Sabía-mo-lo, devido  à série de zurros que a burra soltava, nunca soube se de gáudio se de revolta.

Talvez, fosse a reclamar o fardo de palha seca que lhe era servido de pequeno almoço.

 Primeiro, era uma manta de couro que estendiam sobre o dorso do animal, da cabeça ao rabo.

Nela, havia lugar para tudo. Em poucos minutos, erguia-se nela um alto bazar, em cascatas, uma pirâmide, recheado de tudo quanto iria ser vendido, durante o dia, ao longo do emaranhado de caminhos que os levavam aos lugarejos, das freguezias em redor.

Eram os dois almudes bojudos, em zinco reluzente, de cada lado da barriga, cheios de azeite, com uma torneira de cobre, cada um. 

Vários mais pequenos de vinagre e petróleo, medidas de vários tamanhos, uma balança.

Em dois baús de madeira engrecida, ao comprido, presos com correias grossas de couro gordurento e cravos de latão, iam os paus de sabão azul, esfregões e até vassourinhas de piassaba, enfim, toda a complicada drogaria que recheia a dispensa das cozinhas.  

Uma vez pronta e arreada, lá seguiam os três: o pai, de boné de couro preto muito roçado, na cabeça, o cigarro já fumegar, e uma bolsa de couro com os trocos, a tiracolo, e a burra, carregadinha que nem uma jumenta, atrelada ao rapazote e a corneta, lá partiam, portão fora, para a volta do costume.

À chuva ou ao frio. Só regressavam pela tardinha ou noite escura, conforme fosse verão ou inverno.

Vinham quase sempre pelo caminho do Eirado. Ou era a burra que relinchava, ali ao pé da casa das milagras, ou era o rapaz que dava uma cornetada. Como que a avisar a Mãe e a irmã de que podiam ir pondo a mesa para a ceia. Estavam mesmo a chegar.

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 22 de junho de 2013

Pedras no lago...

Fui até ao lago, dormente,
Com um bornal cheio de pedras.
Comecei a atirá-las.
Uma a uma,
E cada arco era um abraço
Que eu fazia chegar a cada amigo
Que não conheço...

Despejei-o todo e fiquei à espera
Do retrocesso.
Só tu estiveste atento.
Com o abraço que me fizesre chegar.
Regressei feliz...
Afinal, não estou sozinho.
Recebi tantos como o bornal de pedras...
Se mais tivera...mais eu recebera.

Como é fácil, colher amizades...
Basta bater à porta
E esperar quem vem.
Foi um sucesso.
Vou repetir...
Enquanto há pedras
Para lançar ao lago.

Mafra, 22 de Junho de 2013
13h46m
Joaquim Luís Monteiro Mendes Gom
Pedras no lago...

Fui até ao lago, dormente,
Com um bornal cheio de pedras.
Comecei a atirá-las.
Uma a uma,
E cada arco era um abraço
Que eu fazia chegar a cada amigo
Que não conheço...

Despejei-o todo e fiquei à espera
Do retrocesso.
Só tu estiveste atento.
Com o abraço que me fizesre chegar.
Regressei feliz...
Afinal, não estou sozinho.
Recebi tantos como o bornal de pedras...
Se mais tivera...mais eu recebera.

Como é fácil, colher amizades...
Basta bater à porta
E esperar quem vem.
Foi um sucesso.
Vou repetir...
Enquanto há pedras
Para lançar ao lago.

Mafra, 22 de Junho de 2013
13h46m
Joaquim Luís Monteiro Mendes Gom

sexta-feira, 21 de junho de 2013


Que frustração!...

Rapei dum azorrague,
cheio de espinhos.
Fui ao encalço deles.
Os que passam a vida
A fazer maldades
A seus irmãos.

Dei tantas, que a vergasta
Se vergou de sangue.
Matei coelhos...
Bati em portas...
Só gaspar me escapou...safado.
No dia seguinte, choveu a vingança:
O estupor subiu o iva...
Mais uma vez...
Fiquei raivoso.
Toquei a rebate.
Ninguém apareceu, à luta.
Fiz-lhe uma espera,
Levei meus cães...
Nem os ossos...
Chamaram-lhe um figo.
E queriam mais...
Fui a belém...
Tivemos de dar à sola...
Com tanto guarda...
De arma em riste.
Assim, não vale...
Que hei-de fazer?
Valha-nos Deus!...

Mafra, 21 de Junho de 2013
Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

Sentido da vida

 

Caminhei contra a chuva,

E contra os ventos,

Por sendas de bruma,

Com raios de sol.

 

A fé e a esperança ardendo,

Sempre presentes.

 

Passei por vales profundos,

Reino das sombras,

E encumeadas de luz,

Searas floridas,

Batidas pelo vento.

 

Escalei encostas agrestes,

Sangrei dos meus pés.

Meu peito arfante.

 

Sonhei com a morte,

Com as chaves nas mãos,

Sempre a sorrir.

 

Olhando para trás,

Achei o sentido

De tudo o que fiz...

Com a bênção de Deus,

Nosso Pai de verdade

E sabe o que faz.

 

Ouvindo André Rieu

Mafra, 21 de junho de 2013

13h33m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

quinta-feira, 20 de junho de 2013


Lama nos Santuários

 

Aquele mar de lama e água barrenta

Que, de repente,  

“Enxurrou”  tudo,

à volta do santuário,

é de estarrecer os olhos,

dum crente ou não.

 

Mero acaso da natureza?...

Foi ali. Podia ser além!...

 

Também o templo de Jerusalém,

Um dia, foi arrasado,

não ficou pedra sobre pedra.

 

Quando o culto que lá se fazia,

De tão pagão,

serviria alguém

Mas não a Deus!...

 

Em Fátima e Lurdes,

E outros lugares da Terra,

Há sinais que gritam,

Manifestações divinas,

Superiores, intemporais.

Para mim

Que creio,

Sinais de Deus.

 

Nada do que ali se passa,

Será acaso...

Dá que pensar!...

 

Mafra, 21 de Junho de 2013

7h10m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes