domingo, 30 de junho de 2013


Prosseguindo...

 

Despertei duma noite atribulada...

O calor intenso e o ar condicionado

Formam uma calda choca,

Nada boa para o nosso corpo.

 

Por dentro,

as enxaquecas e a respiração...

E por fora.

As dobradiças ficam pegadas,

As costelas gemem

E nem um bom colchão resolve o problema...

 

Já passou...aqui estou,

depois de me refrescar no duche,

pronto a seguir até o golfo de Roses

na Catalunha.

 

Uma estância de praia e mar

Onde tudo é em doses certas.

O ar é leve e puro.

O mar é são e manso

E o céu é azul como safira.

 

A harmonia em tudo

é uma manta de linho puro

Que nos abraça...

 

Alcalá de Henares, 1 de Julho de 2013

Joaquim Luís Mendes Gomes

Romagem a leste...

 

Vim de Badajós a Madrid,

Como quem atravessa o deserto.

Campos e campos de palha seca.

Uma casita erma aqui,

Outra além.

Só os carros corriam na estrada.

Como pássaros solitários,

Que migram e só fazem escala

Nas bombas de gasolina.

 O sol aperta e o sono

Esvoaça e mina à frente,

Como nuvem bassa

Que adormece e ameaça.

 

O caminho é longo...

Dá para ver ao longe,

Um céu imenso,

E à esquerda, roçando as nuvens,

Uma grande muralha,

Com dentes de serra,

Refulgindo ao sol.

É a Guadarrama.

Imponente e bela.

Marcando fronteira

Entre o norte verde

Cheio de rios

E o sul agreste,

Deserto de sal...

No fim do mundo.

 

Alcalá de Henares, 30de Junho de 2013

20h47m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

 

sábado, 29 de junho de 2013


Íntimamente...

 

 

Acabei de almoçar na “pucarinha”.

Borrego estofado.

Puxei do cachimbo

E pus-me a fumegar,

De volta para casa.

 

Bebi um wuiske.

Sentado no meu sofá.

Acendi meu balão

E fui pelos céus.

Como faúlha acesa,

Brilhando ao sol.

 

Dei a volta ao mundo.

Por cima das nuvens,

Como um mar celeste.

 

Esqueci-me da terra.

Batida de vento.

Como  peregrino saudoso

Que não quer voltar.

 

Tive sonhos belos,

Duma infância feliz.

À procura de ninhos,

Nas árvores do rio,

No final da escola.

 

Fui marinheiro,

Num navio à vela.

Fui caminheiro

Pelos montes da santa,

Até me sentir cansado.

 

Poisei lentamente,

Quando o sol se pôs.

 

Fui fazer amor,

Por me sentir feliz.

 

Mafra, 29 de Junho de 2013

16h44m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

sexta-feira, 28 de junho de 2013


A unha grande do pé direito...

 

Que grande luta ...

Pô-la em ordem

ou dar cabo dela!...

 

Nasceu torta e feia

De falso parto.

Em segunda mão.

 

A primeira encravou-me a marcha,

Aos 16 anos.

Que pesadelo!...

Meteu doutor...até hospital.

Para se ir embora.

Mas não gostou.

 

Por vingança ou maldade,

O lugar vago

Ficou um deserto em ferida

Que custou a sarar.

Um caso sério!...

 

Foram as mãos duma santa freirinha

Que com muito amor,

pôs tudo em ordem.

 

Ao fim duns tempos,

Assomou à porta

Um toco de unha,

Grossa e feia.

 

Crescia torta.

Parecia bolota.

 

Que grande luta ,

foi toda a vida,

Para a controlar.

 

Por fim, tive de a deixar crescer...

Parecia um lagarto à solta

Que me prendia o pé.

 

Ontem, atirei-me a ela.

Pu-la de molho num alguidar.

Quase a esqueci.

 

Estrebuchou de raiva

O raio da unha.

Começou a lascar...

A soltar escamas,

Um crocodilo!...

 

Ferrei-lhe um alicate de aço

E foi de vez,

acabei com ela...

Agora,

Dá gosto olhar meu pé...

Em liberdade...

Fiquei feliz!

 

 

Mafra, 29 de Junho de 2013

6h40m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quinta-feira, 27 de junho de 2013


Estou cansado da madrugada.

Toda ela a sonhar.

Uma barafunda...tudo às avessas...

Cheguei a duvidar se tudo era sonho,

Para meu sossego...

Mas sentia que era real.

Tenho a sensação

De que não descansei,

Como a noite me propunha.

 

Que alívio alegre e puro

Senti ao despertar.

O dia não é traiçoeiro.

É o real. À vista.

Dá para fugir,

Ao menos tentar...

Se vem o mal.

Depois, é só viver.

Cada um, com o ser que tem em si...

Princípio e fim,

A preservar.

 

Mafra, 28 de Junho de 2013

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

Noites de verão

 

Tenho saudades daquelas noites,

Sentado estreme

na soleira da porta em granito,

olhando o céu.

As constelações enigmas.

Onde paravam elas?

Toda a gente via,

Mas não eu.

 

Só via bem a estrela do norte.

Era grande,

Sempre a luzir.

Tantas cassiopeias

Eu via a estrelar...

A orion,

Jogando as escondidas.

Sempre a ganhar.

 

Cada vez pior.

 

A ursa maior...

Havia tantas.

Como um rebanho.

A ursa menor,

Todasiguais.

 

Apetecia-me ir

Ao hemisfério sul.

A ver se era igual.

 

Luzeiro do sul.

Sempre arder,

Como um farol.

Estrela polar.

 

Só a lua, tão verdadeira,

Mudando de faces,

Esposa do sol,

Diziam que mente,

Sempre a sorrir...

 

Mafra, 27 de Junho de 2013

20h8m

Joaquim Luís Mendes Gomes

A minha bicicleta...

 

Minha bicicleta branca,

De mudanças de cubo,

Era uma flecha lestra

Que me pegava

e levava ao vento.

De Varziela à Longra,

Sem uma pedalada.

 

Com uma só condição,

De a trazer para casa,

Antes do sol posto.

Tinha medo da noite

E das estrelas

Que brilhavam no céu.

Quando via a lua,

Era cá uma festa...

De fazer chorar.

 

Ponha-se a dormir,

Encostada à porta.

E sorridente,

Ao nascer do sol,

Queria voltar comigo,

Queria ir à vila

Ver suas amigas

Que lhe queriam bem...

As que ficaram na vitrina,

À espera dum dono...

Estavam prisioneiras,

Que as fizesse livres.

 

Sem culpa formada,

Pagando pelos crimes,

Que nunca cometeram...

 

Havia tanta injustiça...

Eram só os ricos

Que as levavam por bem.

 

Na carteira dos pobres,

Não havia vintém...

Só usavam socas

E eram de pau...

O menino jesus as dava

A quem se portasse bem...

 

Mafra, 27 de Junho de 2013

Joaquim Luís Mendes Gomes