quinta-feira, 18 de julho de 2013

prefiro os cactos...


Prefiro os cactos...

 

Vou para a praia cantar ao mar,

Não cansado ou desiludido da terra,

Mas de quem hoje manda nela.

 

Quero esperar as ondas,

Incessantes e certas,

Que espalham frescura

E,  brandamente,

Me banham os pés.

 

Quero sentir no rosto,

As vagas de brisa,

Com sabor a sal.

 

Quero ver partir para a sua faina,

Até desaparecerem ao longe,

Aqueles barquitos breves,

Onde só cabem três...

Porque o resto

É para a riqueza viva,

Mais importante,

Que querem trazer.

 

Quero ouvir só

O silêncio das dunas secas,

Que sem atropelos,

Tecem ondas,

E se banham ao sol.

 

Prefiro os cardos,

Cheios de espinhos

Porque são só cardos...

Que os vizinhos da terra,

Que a cobriram

De flores do mal...

 

...ouvindo sax, pela manhã

 

Berlim, 19 de Julho de 2013

7h17m

Joaquim Luís Mendes Gomes

de portas abertas...


De portas abertas...

 

A estrada,

que dá prá minha casa,

estava cheia de buracos

e eu tropeçava...

 

Ladeá-los não chegava.

Quase caía...

 

Peguei numa pá,

Num carrinho de mão,

Enchi-o de saibro, com pedras,

Com água,

fiz uma massa

e cobri-os.

 

Veio o sol,

Ficou mesmo duro.

 

Vieram as chuvas,

E a estrada ali está,

Aberta para mim

E para todos

Que a queiram trilhar...

 

Foi ver chegar os amigos,

Até minha casa,

Com caminho alisado

e portas abertas

A quem quiser entrar...

 

Ouvindo Clayderman...

 

Berlim, 18 de Julho de 2013

9h53m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

faces das redes...


Faces das redes...

 

Só com buracos

fazem cercos

Que protegem fiéis e

Cumprem à risca:

 

Nada lhes sai

nada lhes entra

maior que o maior.

 

Mas do avesso,

Só permitem saída,

Ao menor do que eles.

 

Cercam as quintas

Como muralhas,

Como se fossem de aço.

 

Fazem de sacos

Que enchem navios.

Apanham os cardumes incautos.

 

Cobrem os poços

Por causa das aves.

Ocultam os rostos

Como mantilhas.

 

Abrigam searas,

Das forças do vento, mas

Fazem de tendas.

 

Fazem barreiras.

Servem de cama,

Servem de berço,

Não precisam de palha.

 

 

Em filigrana fina,

Tecem as teias,

Vestem medusas,

Enformam as células

Que levam o sangue.

 

Tecem as asas,

Levam sementes,

Semeiam searas.

 

Irradiam em ondas,

O som e a luz

Que abraçam o mundo...

 

Ouvindo Gospel choir do Soweto

 

Berlim, 18 de Julho de 2013

8h36m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

 

terça-feira, 16 de julho de 2013

mercado das luzes...


Mercado das luzes...

 

No universo de liberdade

Que estes olhos vêm

Há tantos caminhos,

Tantas faces,

Tantos rostos,

Tão reais,

Como de estrelas,

Lá nos céus...

 

Por todos,

Se vai em rumo certo,

Se com Deus, como nosso sol...

 

Sua luz ilumina igual e fundo,

Todos os recantos,

Os mais sombrios,

Sem discriminar.

 

Basta se lhe expor sem reservas...

Tudo o que somos

E o que temos em nós,

E tudo fica a luzir

E perfumado,

Como a roupa nova

Que se merca

Na melhor tenda

E melhor mercado...

 

Berlim, 17 de Julho de 2013

7h22m

Ouvindo Michael Jackson em saxofone

 

Joaquim Luís Mendes Gomes

inebriado de ...mel...


Inebriado de...mel...

 

Estou cercado de tílias gigantes,

Onde voam livres

milhares de abelhas.

Colhem o mel

Que lhes serve a elas

E, sem discutirem,

Põem à disposição da gente.

 

Que lindo exemplo

Para nós mortais.

 

Podiam escondê-lo.

Já saciadas,

Oferecem livres

O que lhes sobra.

 

Bela lição de abelha-mestra.

Vivo inebriado

em perfume de mel...

 

Para elas é bom...

Para nós é mais.

 

Berlim, 16 de Julho de 2013

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

 

três condições...


As três condições...

 

 

Se utilizo bem

Quem sou e o que tenho,

Em meu favor,

Igual a quem,

Por bem,

Me bate à porta,

Acabarei bem os meus dias.

Fui quem devia ser.

O mundo cresceu

E ficou mais feliz

E eu também.

 

Se oiço, atento

E sigo direito,

O que me vem de dentro,

Para bem meu,

Antes de fazer

O que quero fazer,

Dará sempre certo,

Porque a lei está escrita...

 

Se apanhei o barco certo,

Com rumo seguro,

Porque o pensei bem,

Antes de me fazer ao mar,

Basta esperar...

E o porto vem.

 

Porque sei quem sou.

Quem vai comigo.

Vou atento.

No barco certo.

Em boas mãos.

Assim, foi escrito...

 

Berlim, 16 de Julho de 2013

10h6m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

horas devassas...


Horas devassas...

 

São escassas as horas mortas da estrada.

Sem termo, rolam as rodas,

de lado para lado.

Fico atónito como nasce a riqueza,

Se metade da vida se passa a correr...

 

A vida germina tão lenta no seio da terra.

Percorre um caminho

Tecido de passos tão leves,

Parece que morre.

 

Ao cabo dum tempo,

Contado ao segundo,

Desabrocha flor ou árvore de fruto,

Pronto a comer...

 

Dentro de nós,

Sem compassos de espera,

Remoinham em teias,

Ideias pintadas de cores.

 

Umas são claras,

Outras mais escuras.

Todas com cores.

Percorrem no rosto

E semeiam sorrisos...

 

Às vezes, fios de lágrimas

Que sabem a dor.

 

Berlim, 15 de Julho de 2013

16h45m

Joaquim Luís Mendes Gomes