sexta-feira, 2 de agosto de 2013

o despertar do dia em Berlim...

O despontar do dia, em Berlim
 
A suavidade da luz chega lenta
e vai vestindo de azul o céu.
De verde a terra.
De branco as nuvens
que navegam ao sabor do vento
em fumarolas.
 
Reluzem das casas sonolentas,
as janelas envidraçadas do casario.
 
Aqui e ali, uma chaminé altiva
lança ao ar volutas de fumo
prenunciando a vida interna
que desperta e se agita.
 
Os corvos negros e as pombas,
se despicam de árvore em árvore,
para o chão,
em procura de alimento.
 
Pelas estradas, recobertas de folhedo,
vai engrossando o cortejo louco
do corre-corre...
 
Acendem-se as vitrines dos cafés e bares,
à borda das ruas,
enquanto as máquinas aquecem,
a toda a força, suas caldeiras
para o bica a bica.
 
Se recolhe aos vestiários em chapa de zinco,
o tropel nocturno das vassouras
que limparam tudo a pente fino.
 
Contrariados mas conformados,
avançam para os elevadores, às baforadas,
os funcionários da banca, dos seguros e ministérios.
 
Giram pelas ruas, aflitas,
as carrinhas desencontradas
do 112 e 115.
 
Em pouco tempo,
Se põe em marcha
Esta grande mole de mundo ordeiro
Que disputa a vida, com certezas...
 
 
Berlim, 3 de Agosto de 2013
6h41m
Joaquim Luís Mendes Gomes

barca de noé...


Barca de Noé...

 

Aportei em Berlim,

Na minha barca de Noé.

Com toda a família,

A bordo.

 

Até o cão e o gato...

 

A fugir do dilúvio

Que grassa e desgraça

O meu País.

 

Não vieram do mar

Que é seu amigo,

E irmão...

As águas de enxofre

Que o sepultam.

 

Vieram da Europa sulfúrica,

Capitalista e financeira.

Pelas mãos da troika verme

E da cobardia infame

De quem o vem governando,

Depois de Abril.

 

Minha idade já não dá

Para lhes fazer frente,

D’armas na mão...

Porque só assim,

Se lhes porá o fim...

 

Nunca esperei ver

Tanta infâmia a arder

E tanta apatia em combate-la...

 

Berlim, 2 de Agosto de 2013

15h20m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quarta-feira, 31 de julho de 2013

meditações da noite...


Contemplação da noite...

 

Em cima desta pedra ronda,

pela madrugada,

contemplo ao alto,

uma imensidão estrelada.

 

Tantos pontinhos brancos,

a brilhar de luz...

uma parcela apenas

do universo total.

 

Que será a terra,

onde vamos nós,

vista de lá?

 

Minúsculo pontinho,

onde não cabe nada...

uma faúlha azul

que Alguém acendeu...

 

Um baú doirado,

só o sabemos nós,

onde vais tu e eu...

 

Nenhum telescópio celeste

nos consegue ver...

Só nós temos alma e olhos

para os poder contar,

sem saber porquê!...

 

Berlim, 31 de Julho de 2013

Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 29 de julho de 2013

só...no terraço...


 

Só, no terraço...

 

Estranha sensação

de vazio e cansaço.

Chegar ao terraço

e não ver o céu a brilhar.

 

Tudo cinza,

negro e calado.

Sinto cá dentro

a mesma vontade de sempre

de voar e sonhar.

 

Minhas asas estão presas

em laços atados

que não consigo soltar.

 

Olho em redor.

Não vejo uma fresta

por onde entre o sol.

 

O embaraço fere

E é quase total.

Querer e não ter...

mais nada para dar.

 

Só me resta a certeza e a esperança

de que minha fonte infinita não seca.

 

A água sedenta de sede

há-de voltar a correr...

 

Berlim, 30 de Julho de 2013

7h58m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado, 27 de julho de 2013

nas asas do vento...


Nas asas do vento...

 

Deixo-me ir

nas asas do vento.

Sem rumo ou destino.

 

Fico onde chegar.

Deserto ou oásis.

Serra ou vale.

 

Não poiso no mar,

onde posso morrer.

 

Oiço canções.

Balbuceio orações.

 

Sonho os sonhos

que gostava de ter.

 

Tremo de frio,

Se o sol não se abrir.

 

Sou nauta perdido nos ares,

à tona do vento.

Sou folha cadente

à procura do chão e dormir...

 

Ouvindo le Cygne com André Rieu

 

Berlim, 27 de Julho de 2013

11h46m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sexta-feira, 26 de julho de 2013

fonte santa...


A fonte santa...

 

 

Na aldeia das casas velhas,

tudo era velho.

Menos os putos.

 

Eram velhas as tílias gigantes,

à volta do largo.

Que servia de sala.

 

E uma fonte tão velha,

de pedra negra,

mesmo no meio,

sempre a botar.

 

Água viva que nascia na serra,

muito distante,

por um rego antigo, em pedra,

que vinha descendo,

por entre campos e montes,

ao sereno sabor dos declives,

aqui e ali, sobre suportes robustos

de granito talhado a cinzel.

 

Havia três tanques grandes,

ligados em círculo:

num se lavavam as roupas das gentes;

noutro, vinha, à vez, todo o gado beber;

o outro era para a rega geral

e, também, o regalo dos putos,

nas tardes quentes da escola.

 

Por isso, lhe chamavam de santa,

àquela fonte,

de agora e de sempre...

 

Berlim, 26 de Julho de 2013

18h31m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quinta-feira, 25 de julho de 2013

sons do silêncio...


Sons do silêncio...

 

 

Lanço ao vento

Meus sons do silêncio.

Sinais e fachos ardentes. 

São gritos

Vêm de dentro,

Como chuva e granizo,

Caídos do céu.

 

Cantam e choram.

Louvam e oram.

Riem, aplaudem, alegres.

Bradem e soluçam de dor.

 

Estrebucham bravios,

De raiva contida

Que apetece matar.

 

Trombetas finais,

Clamando justiça,

Pregando união.

 

De mãos dadas,

Nada é fatal,

Se a vontade quiser...

 

Com força e à uma,

De todos,

No mesmo sentido,

O barco, cravado na areia,

Por causa da sorte malsã,

Entra nas ondas

E avança no mar,

Fugindo à ameaça da morte.

 

 

Berlim, 26 de Julho de 2013

8h29m

Joaquim Luís Mendes Gomes