sexta-feira, 23 de agosto de 2013

que buraco negro...


Que Buraco negro...

 

 

São ásperas estas horas mortas,

Em que o sol desapareceu do céu.

Fica tudo triste. Seca a alma.

Cai a noite, às vezes de breu.

 

Vêm pesadelos. Desesperança.

Parece o fim de tudo.

Não há uma nesga de céu azul.

O chão negro de terra negra

É o único horizonte à vista.

Nem nuvens voam no ar.

Nem as corujas uivam presságios.

Tudo ruiu à volta.

Aquele mundo de paz

E certo que vi viver

Na minha terra-mãe.

 

Até as lembranças doces

-Parece, se apagaram de vez.

Meu coração dói-me...arfante

D’ainda querer viver...

 

Ouvindo Hélène Grimaud

 

Berlim, 24 de Agosto de 2013

8h21m

Joaquim Luís Mendes Gomes

verdade da praia


Praia da verdade

 

Naquele estendal de areia branca,

À luz do sol,

Assoma ao de cima,

Toda a verdade.

 

Se desfazem em nuvem,

Todos os disfarces

Fica a verdade ,

Tal como é.

 

Tantos novelos de seda

Se desfazem em chama.

Tantas quimeras douradas,

A preço de oiro,

Ficam singelas toalhas de linho.

 

A verdade oculta rebrilha ao sol.

Tantas diferenças

Eram só farsas.

Tão bem disfarçadas.

 

Tudo é igual...

Tudo é beleza

Como Deus a criou...

 

Roses, 2 de Julho de 2013

16h23m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

a morte da morte...


A morte da morte...

 

De repente, tocou a rebate.

O adro encheu.

Começou o debate.

Decretar uma lei

Sobre a morte da morte...

 

Questão crucial!...

 

Os ânimos ao rubro.

A multidão dividiu-se.

Depois de horas a fio,

Sem conclusão.

Decidiu-se à sorte,

Por cara ou coroa.

 

A cara era o sim.

E, por sorte...

Saíu.

 

Veio a festa.

Tocaram os sinos sem fim.

Ó que alegria...

Houve arraial.

A noite passou.

E novo dia também.

Sem a ameaça da morte,

- Os do sim e do não -

Ninguém queria voltar.

 

No resto tudo ficaria igual.

A fome e a sede.

O calor e o frio.

A doença e a dor.

O trabalho geral.

Se não queriam sofrer.

 

O tempo avançou.

A aldeia, feliz,

Os do sim e do não,

Voltou ao normal.

 

Pouco durou.

A discórdia surgiu e cresceu.

Entre dois grupos rivais:

Os que queriam viver sem sofrer,

E os que queriam viver sem trabalho.

 

E foi de tal ordem

Que os sinos tocaram a rebate

Outra vez.

Mas só apareceram

os que não votaram a morte da morte,

os mesmos do sim ao trabalho.

 

E assim, a aldeia,

Por mal

Ou por bem,

De novo,

Tudo acabou em guerra,

Sem morte.

Outro dilema pior!...

 

 

Berlim, 28 e Julho de 2013

9h47m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

 

 

 

 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

concerto de piano...


Concerto de piano...

 

 

Belo espaço recolhido,

Com muita gente à volta,

Muito atenta,

Seguindo sons

Que brotam lá do fundo, ao centro,

Dum piano preto de caixa aberta.

 

Duns dedos ágeis

Duma pianista-estrela.

 

Como o perfume e o incenso

Sobem em ondas de cores, inebriantes,

Que enlevam a alma.

E sossegam o corpo.

 

Todos entendem aquela língua,

Que as teclas escrevem em correrias,

Ora loucas, ora doces e lentas.

 

Narram sonhos

Que alguém sonhou um dia,

No silêncio dos seus arcanos.

 

Mal sabendo quanta paz e bem

Estava semeando, no seu segredo criador.

Ligado ao belo infindo e oculto

Que, felizmente,

Coroa a vida de luz e cor...

 

Ouvindo Hélène Grimaud em sonata de Beethoven

 

Berlim, 23 de Agosto de 2013

7h37m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

cortejo colossal...


Cortejo colossal...

 

Manhã sorridente de sol a abrir.

Contente de pegar ao trabalho

De mais um dia,

Que o universo lhe encomendou.

 

Em roda louca, incessante,

Dá voltas à terra amante

Que se volta,

Que se revira,

Vezes sem fim.

 

Há um laço vital, oculto,

Tão constante,

Redondo e firme

Que tudo prende

Neste universo infindo.

 

Que cadeia misteriosa,

Que cortejo colossal,

Em carrocel,

Nos transporta por esse além sem fim.

Sem darmos conta.

 

À frente da minha janela, ridente,

É o silêncio verde, a arder,

Dum mar de tantas copas altas,

Luzindo ao sol,

Apontando ao céu

Seus ramos, pujantes,

Em oração perene.

 

E eu com eles...

 

Ouvindo “nocturnos” de Chopin

 

Berlim, 22 de Agosto de 2013

7h59m

Joaquim Luís Mendes Gomes

intuição...


Intuição

 

É milimetricamente exacta e precisa

Quando actua.

Adivinha e perscruta

Em ondas ocultas, reais

Que nos passam à frente

E os sentidos não sentem.

 

Zonas que existem em nós,

Presentes e activas,

Janelas abertas,

À espera de luz.

 

Tantos domínios no mundo

Vendado aos olhos,

Só a alma os vê.

 

Sem distâncias nem tempo,

Tudo atravessa e atinge,

No momento preciso e exacto.

Sem cálculos ou somas.

Nem antenas celestes.

 

São os olhos da alma

Que o corpo não vê...

 

Ouvindo Chopin

 

Berlim, 21 de Agosto de 2013

11h15m

Joaquim Luís Mendes Gomes

lembranças...


Lembranças...

 

Não basta chorar

Quem partiu e não volta.

É preciso honrar sua memória.

Da vida vivida connosco ao lado.

 

Sorrindo, sofrendo,

Das dores que sentíamos,

Como se fossem suas também.

 

As mais lindas flores

São os dias vividos,

Do modo que eles gostariam de ver...

Esperando por nós.

 

ouvindo nocturnos de Chopin

Berlim, 21 de Agosto de 2013

10h55m

Joaquim Luís Mendes Gomes