segunda-feira, 26 de agosto de 2013

serenata louca...


Serenata louca à trovoada...

 

Despi minhas vestes

E fui como um louco,

Dançar à chuva,

Ao vento e à trovoada.

 

Senti-me nobre e livre.

Com a leveza dum pássaro breve.

Duma formiguinha arguta,

Que se espraia à solta,

Num carreirinho ao sol.

 

Um fio de estopa,

Numa roca esguia,

Desfiando fio e renda

Para um bornal de pão.

 

Só me faltou o fôlego

Para alcandorar o céu

E ordenar aos anjos

Que acudam a esta terra louca,

Perdida no espaço e tempo.

Olhando ao chão, imundo,

Esquecendo o céu...

 

Ouvindo Brahms,

Berlim, 27 de Agosto de 2013

7h37m

Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 25 de agosto de 2013

parto difícil...


Parto difícil...

 

Toda a madrugada,

Tive um poema a saltar

Na minha mente cansada.

 

Não entrevia clara, a forma.

Só lhe pressentia

Sua gema dourada.

Querendo romper

E nascer.

 

Se me cerravam

As janelas e portas.

Sem frestas por onde

Coubesse e passasse.

 

Fiquei à espera.

Com a esperança.

Dum parto difícil.

 

Podia ser.

Com o feitiço da lua,

A estrela da aurora,

Se decidisse e nascesse.

 

Ele aqui está...

Lindo e sadio.

 

Quero abraçá-lo e abri-lo.

Ao de leve,

Escondido,

Como quem escuta

Um segredo-surpresa.

Triste ou alegre,

Que chega

Sempre por bem.

 

Cada um,

Sua cor e perfume.

Seu brilho nos olhos.

Cheirando a novo.

Vem doutro mundo.

 

Me surpreende o calor.

E a beleza que brilha...

 

Só lhe empresto a forma,

Como lenha que arde

Porque a chama e o fogo

É d’Alguém

Que sopra e aquece

E não eu...

 

Ouvindo Rachmaninov por Hélène Grimaud

 

Berlim, 26 de Agosto de 2013

8h10

Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado, 24 de agosto de 2013

desafio ao homem...


Desafio ao Homem...

 

 

Venham caravelas, aeronaves, hidroaviões,

E toda a sorte de transportes

Que o génio humano engendrou,

Em grande escala.

 

Se abram escancaradas

Todas as grandes bibliotecas.

Carregadinhas de papel encharcado em teorias.

 

Se alinhem lá para o cimo,

As mais altas torres de ferro e massa.

 

Se encham de mar sem ondas

Os mais inóspitos areais desertos.

 

Se armadilhem de electrões ferozes

Todos os cantos e esquinas, do universo,

Com vontade de extermínio.

 

Se ergam mega-cidades monstras,

Que nem florestas secas de argamassa.

 

Muitas pontes colossais,

Que liguem este mundo ao outro.

 

Por mais que tudo isto.

De que vale ... sei lá que mais...

Viver num mundo assim,

Se for só o mal

A dominar o coração do homem?....

 

Ouvindo Tchaikowski

 

Berlim, 25 de Agosto de 2013

8h22m

Joaquim Luís Mendes Gomes

Festa da Vida...


Festa da Vida

 

Toda a manhã passaram estrelas

Em cortejo longo.

Em arco íris.

De todos os tamanhos e cores.

Vêm do universo infindo.

 

Convidadas pelo Rei de tudo.

Para a grande festa da vida

Que irá nascer

Na Terra

E não vai ter mais fim.

 

Trajam de tule a arder.

E carmim de linho

Corado ao sol.

 

Tão graciosas.

Parecem rainhas.

Seus brincos

Centelham raios.

Seus diademas,

Refulgem de luz.

 

Brilhar no alto,

É só o que sabem.

 

Vêm curiosas.

Que outra forma estranha

De existir, além de estrelas,

Poderá haver? 

 

E, vista de longe,

A Terra é só

Uma bolinha azul,

E tão minúscula,

Raiada de nácar.

Que pode ter...?

 

Diz o convite.

 

É só descer.

O ponto de encontro

É algures...no oriente,

Onde o sol nasce

E a lua se põe.

 

- Haverá um sinal -.

 

De repente,

Ouviu-se um estrondo.

A terra tremeu.

Se apagou a luz.

Que escuridão!

De estarrecer.

O fim do mundo...

De lés-a-lés

Se rasgou-se o céu.

 

Um clarão.

Tudo brilhou,

Como nunca alguém viu.

 

Soaram coros.

Todos os anjos.

Muito mais que as estrelas.

Que vozes lindas!...

 

Envolvendo a Terra,

Vestida de verde

E azul de mar,

Feita jardim,

O berço escolhido,

Em todo o universo,

P’rà  Vida nascer...

 

Ouvindo “ O Lago dos Cisnes” de Tschaikowski

 

Berlim, 24 de Agosto de 2013

22h13m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

que buraco negro...


Que Buraco negro...

 

 

São ásperas estas horas mortas,

Em que o sol desapareceu do céu.

Fica tudo triste. Seca a alma.

Cai a noite, às vezes de breu.

 

Vêm pesadelos. Desesperança.

Parece o fim de tudo.

Não há uma nesga de céu azul.

O chão negro de terra negra

É o único horizonte à vista.

Nem nuvens voam no ar.

Nem as corujas uivam presságios.

Tudo ruiu à volta.

Aquele mundo de paz

E certo que vi viver

Na minha terra-mãe.

 

Até as lembranças doces

-Parece, se apagaram de vez.

Meu coração dói-me...arfante

D’ainda querer viver...

 

Ouvindo Hélène Grimaud

 

Berlim, 24 de Agosto de 2013

8h21m

Joaquim Luís Mendes Gomes

verdade da praia


Praia da verdade

 

Naquele estendal de areia branca,

À luz do sol,

Assoma ao de cima,

Toda a verdade.

 

Se desfazem em nuvem,

Todos os disfarces

Fica a verdade ,

Tal como é.

 

Tantos novelos de seda

Se desfazem em chama.

Tantas quimeras douradas,

A preço de oiro,

Ficam singelas toalhas de linho.

 

A verdade oculta rebrilha ao sol.

Tantas diferenças

Eram só farsas.

Tão bem disfarçadas.

 

Tudo é igual...

Tudo é beleza

Como Deus a criou...

 

Roses, 2 de Julho de 2013

16h23m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

a morte da morte...


A morte da morte...

 

De repente, tocou a rebate.

O adro encheu.

Começou o debate.

Decretar uma lei

Sobre a morte da morte...

 

Questão crucial!...

 

Os ânimos ao rubro.

A multidão dividiu-se.

Depois de horas a fio,

Sem conclusão.

Decidiu-se à sorte,

Por cara ou coroa.

 

A cara era o sim.

E, por sorte...

Saíu.

 

Veio a festa.

Tocaram os sinos sem fim.

Ó que alegria...

Houve arraial.

A noite passou.

E novo dia também.

Sem a ameaça da morte,

- Os do sim e do não -

Ninguém queria voltar.

 

No resto tudo ficaria igual.

A fome e a sede.

O calor e o frio.

A doença e a dor.

O trabalho geral.

Se não queriam sofrer.

 

O tempo avançou.

A aldeia, feliz,

Os do sim e do não,

Voltou ao normal.

 

Pouco durou.

A discórdia surgiu e cresceu.

Entre dois grupos rivais:

Os que queriam viver sem sofrer,

E os que queriam viver sem trabalho.

 

E foi de tal ordem

Que os sinos tocaram a rebate

Outra vez.

Mas só apareceram

os que não votaram a morte da morte,

os mesmos do sim ao trabalho.

 

E assim, a aldeia,

Por mal

Ou por bem,

De novo,

Tudo acabou em guerra,

Sem morte.

Outro dilema pior!...

 

 

Berlim, 28 e Julho de 2013

9h47m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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