quinta-feira, 19 de setembro de 2013

outra vez...

Outra vez...

Sou candeeiro apagado.

Só brilha
Se lhe ligarem a luz.

Gasta velas de fogo
Que duram menos dum mês.

Precisa do ar que recebe
Para aquecer e brilhar.

Se alimenta das sombras
Que queima,
Para poder caminhar.

Precisa de tintas e cores
Para seus quadros a óleo
Que, de graça,
Quer oferecer.

Precisa dos acordes do vento 
Na guitarra que toca
Para consolar quem o ouve.

Gasta notas de conto,
À procura das pautas mais lindas,
Para escrever o seu canto.

Só espera que o fogo e a chama
Nunca lhe falte 
E o dia nasça outra vez...

Ouvindo “Le Cigne”, com André Rieu

Mafra, 20 de Setembro de 2013
6h45m
Joaquim Luís Mendes Gomes
Mafra, 20 de Setembro de 2013
6h45m


de que se ufana tanto?...

Como somos pobres!...

Nosso corpo vivo,
Como um carro a diesel,
Se alimenta de células mortas
Que já tiveram vida.

Se agasalha do frio
Com restos de plantas
Ou pêlos de ovelha
Que ela dispensa
E não cobra nada.


Se calça com peles de vaca
Para não molhar os pés.

Se abriga da chuva
Em tendas de pedra
Ou argila da terra
Que dá e que sobra.

Se deita em lençóis de linho,
Para não sentir o chão.

Mata a sede com água da chuva
Que brota da terra.

Se regala com um copo de vinho
Que lhe dá a vinha.

Se serve do ar que queima
Para poder andar.

E do raio de sol
Para não se perder.

Nada tem de seu.
Tudo lhe vem de fora.
Grátis...

Só a vaidade estéril
Lhe cresce dentro,
Como erva daninha
E não serve para nada...

Então...porque se ufana tanto?...


Mafra, 19 de Setembro de 2013
20h51m

Joaquim Luís Mendes Gomes

bula do mendigo quase cego e pedinte...

Fiz um espantalho de farrapos velhos
Que tinha no sótão.
Pu-lo prantado à entrada da porta da rua.

Veio o carteiro de mota
E o saco bem cheio de cartas e notas.
Olhou para ele.
Sorriu. Torceu o nariz e andou.

Veio a padeira, vermelhusca,
De canasta à cabeça.
– Minha nossa senhora!
- Temos o fim do mundo, mesmo à porta!

Veio um padre,
Vestido de preto
E sapato em verniz a brilhar,
Pisando no chão.
Olhou o macaco.
Fez uma cruz do tamanho do braço
E partiu orando ao céu.

Veio um ferreiro sardento
E carroça de burro,
Com a forja em brasa.
Fitou o boneco, dos pés à cabeça.
Tirou-lhe o boné
E continuou o caminho. 
Mas o burro malhado,
Piscando seus olhos redondo,
Zurrou profundo
E descarregou um montão de excremento.

Veio um pedinte-mendigo,
Quase cego dos olhos,
De cabeleira comprida,
Coberto de manta sem cor
E um saco de serapilheira vazio.
Parou confundido
Diante da porta.

– olá, meu irmão
Que passaste a noite
Gelado ao frio, sozinho,
Toma um pedaço do manto
E cobre ao menos o peito,
Enquanto teu dono não chega
E te abre a porta...

Mafra, 19 de Setembro de 2013
16h12m

Joaquim Luís Mendes Gomes

os anos sessenta...

Anos sessenta...


Como vão longe aqueles anos...
Éramos jovens, fortes
E tínhamos a vida toda pela frente.
Uma vontade enorme de vencer e ser alguém...
Tínhamos sonhos a arder
Como nunca mais na terra,
Os houve assim...

Fomos capazes de enfrentar a guerra,
Por amor dum ideal...
Choramos os irmãos que lá deixamos.

Voltamos valentes para subir na vida.
Construímos lares de gente sã...
Com fogo de amor.

Criamos filhos com chama
Que, na sua hora,
Por nossa mão,
Tomaram nosso lugar...

Vieram ventos, ciclones de frio,
Tudo secou.
Os poucos frutos
Vieram raquíticos.
Vazios por dentro,
Sem seiva na alma.

Incapazes de amar ninguém...
Sem horizontes.
Só pensam neles...

Mas não é o fim dos tempos!...

Ouvindo o “ Êxodo”

Mafra, 19 de Setembro de 2013
98h10m

Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 17 de setembro de 2013

fosse eu condor...

Fosse eu condor...

Passaria a vida
Voando alto,
Longe desta terra azul
Que se fez imunda,
De tanto mal.

Tanta loucura à solta,
De quem nela manda,
Culpa do homem.

Simples viageiro,

Esqueceu quem é.
Assentou arraiais,
Como se fosse aqui
Sua meta final.

Com a lei do mais forte,
Que nasceu igual,
Num império do mal
Se volveu o mundo.

Fez-se pirata,
Salteador de gentes,
Ergueu castelos,
Fez-se terror.
Fera imortal,
Imperador sem lei.
Vive do sangue,
Impune,
Do seu irmão...

Bradou aos céus,
Como se fosse o sol.
Renegou a Deus,
Autor do mundo...

Em vez de asas,
Só tenho algemas,
Mas sei voar...
Como um condor.

Ouvindo Tschaikowski, concerto nº 1
Mafra, 18 de Setembro de 2013
Joaquim Luís Mendes Gomes

















melodia da poesia...



Melodia da poesia...

Está na cor.
Está na luz.
Está no som.
Está no vento.
Está no mar
E no jardim,
Cheio de cores.
Ela nos banha,
Nos embriaga
E nos aquece.
Nos consola,
Nos encanta,
Abre portas.
Um mar imenso.
Um céu estrelado.
Na lua cheia.
Na praia acesa.
Rio fogoso.
Mar encrespado.

No rosto que chora.
No recreio da escola.
Dança do ventre.

Sino que canta,
Sino que dobra.

Na saudade que morre
D’agora e sempre.

Quem a não sente,
Está mesmo morto.

Mafra, 17 de Setembro de 2013
13h40m
Joaquim Luís Mendes Gomes

suaves caravelas...



Suaves caravelas...

Ao vento desfraldadas,
Rompem as ondas, como arados.
Cavam sulcos.
Como caminhos.
Rumo certo e com destino.

Absortas, como estrelas,
Correm mundo,
Desarmadas,
Pontinhos brancos,
É bom vê-las,
Vistas da praia,
Vão suaves,
Tão serenas
Como a paz.
Quem me dera
Ir com elas!...

Ouvindo Hélène Grimaud

Mafra, 17 de Setembro de 2013
7h52m
Joaquim Luís Mendes Gomes