quarta-feira, 9 de outubro de 2013

o tempo é sábio...

O tempo é sábio...

Naqueles serões de inverno,
Quando o trabalho o exigia,
Ficava-se noite dentro,
Na oficina de alfaiate,
Eles, agarrados à agulha
E eu lendo o que tinha à mão.

Livros de história.
Geografia.
Os rios e as serras todas,
De norte a sul.

As linhas férreas...
Que encanto!

Era o meu mundo.
De aspiração e sonho.
Oh, se eu pudesse estudar!...
No liceu...na universidade.
Ser professor...
Ser escritor...
Como Eça de Queirós...
Camilo Castelo Branco...
Diziam que viveram ali ao pé.
Junto à Régua
E em São Miguel de Ceide...

Mas, tudo me era impossível.
O dinheiro?...
Só para comer...
Meus Pais sabiam...
E nada mais podiam fazer,
Senão trabalhar,
Dia e noite...

- Não desanimes, filho!...
O futuro a Deus pertence.
Se Deus o quiser,
Tudo poderá acontecer.
Sê bom aluno.
O tempo é sábio...
Deixa que ele passe...

Ouvindo Mozart

Mafra, 9 de Outubro de 2013
20h35m
Joaquim Luís Mendes Gomes


terça-feira, 8 de outubro de 2013

rescaldos ocultos...

Rescaldos ocultos...

Fugia de mim...
A quem eu mais estimo...
Como o diabo,
Dizem,
Foge da cruz.

Carregava fantasmas,
Negros e incomodativos,
Vinham lá de longe,
E me oprimiam.

Se aproveitaram
Da minha infância e juventude.
Tenras.
Fizeram arraial de tendas
Como ciganos vis.

Nada respeitaram.
Sanguessugas.
Tudo avassalaram.

O entusiasmo secou,
Com tantas garras.
Tantas nuvens de fumo
Me toldaram o céu.

Procurava o sol
E só via negrume.

Queria voar
E não conseguia
Com tanto peso,
Nas minhas asas.

Tanto empecilho...basso.
Tanto preconceito, estéril.
Derramado em mim,
Quando eu crescia.

Tanta crença falsa.
E receios vãos.

Tanta mentira,
Como ervas daninha,
Me sugaram a vida...

Abutres famintos,
Com asas de anjos.

Foi preciso um ciclone de força.
Um fim do mundo,
Para me desamarrar
E voltar a ser
Quem sou,
Por graça divina.
Agora, eu voo...

Mafra, 8 de outubro de 2013
15h21m
Joaquim Luís Mendes Gomes




privilégio de ter nascido?...

O privilégio de eu ter nascido...

Vim ao mundo criatura ínfima,
Entre miríades de milhares,
Infinitos de milhões,
De possibilidades para não nascer.

Nasci homem. Podia ser só um ratito
Ou verme.
Mas não. Sou eu só.
Assim.
Ninguém mais eu.

Cada dia me deito e levanto
Para viver.
Esta luta constante e dura
Para sobreviver.

De todos os lados,
A desoras,
Me espreita a dor
E o ataque ao ser.

Sou obrigado a ser forte
E pronto
Na arte de me defender.

Vivo horas alegres,
Mas tantas tristes,
E , desde que acordo,
Não me sai da cabeça
Esta ideia clara e negra,
De que um dia,
Novo ou velho,
Pobre ou rico,
Hei-de morrer...

E fico atónito...

Se viver fosse só isto...
Prontamente...
Eu repudiaria
Esta sorte falsa
De ter vindo ao mundo...

Mas, sinto e sei
Cá bem no fudo
Que assim não é...
Tenho Fé no Criador

Que me pôs no mundo
E me quer para sempre...

Mafra, 8 de Outubro de 2013
8h13m
Joaquim Luís Mendes Gomes


privilégio de ter nascido?...

O privilégio de eu ter nascido...

Vim ao mundo criatura ínfima,
Entre miríades de milhares,
Infinitos de milhões,
De possibilidades para não nascer.

Nasci homem. Podia ser só um ratito
Ou verme.
Mas não. Sou eu só.
Assim.
Ninguém mais eu.

Cada dia me deito e levanto
Para viver.
Esta luta constante e dura
Para sobreviver.

De todos os lados,
A desoras,
Me espreita a dor
E o ataque ao ser.

Sou obrigado a ser forte
E pronto
Na arte de me defender.

Vivo horas alegres,
Mas tantas tristes,
E , desde que acordo,
Não me sai da cabeça
Esta ideia clara e negra,
De que um dia,
Novo ou velho,
Pobre ou rico,
Hei-de morrer...

E fico atónito...

Se viver fosse só isto...
Prontamente...
Eu repudiaria
Esta sorte falsa
De ter vindo ao mundo...

Mas, sinto e sei
Cá bem no fudo
Que assim não é...
Tenho Fé no Criador

Que me pôs no mundo
E me quer para sempre...

Mafra, 8 de Outubro de 2013
8h13m
Joaquim Luís Mendes Gomes


domingo, 6 de outubro de 2013

só saudade...

Vão longe os tempos...

Ainda o sol não nascera,
Tudo em redor,
Na natureza,
Cantava ao desafio,
Pelas matas ainda densas,
Só com carvalhos e pinheiros,
E urze brava;

E pela quinta fidalga,
Toda murada,
A muro e hera,
De Pedra Maria,
Onde havia muitas ramadas verdes,
Carregadas d’uvas

E bardos esgalgados
De amoras e morangos;

E, até ao longe,
Uma ténue manta
De neblina doce,
Tudo cobria,
Pelos campos e montes fora,
Desde a estrada até à Serrinha
E mais além.

Brandamente,
O dia nascia, à frente
Da minha janela.

Entre a chilreada crescente
Do passaredo bravo
Que saía aos bandos,
Em correrias loucas,
Daquele mar de folhas,

E o retinar das noras,
Aqui e além,
Nunca mais parava...
A dragarem canecos d’água
Para os milheirais sedentos;

E o repicar os sinos,
Em variados tons,
Mais grosso ou fino,
Conforme a igreja,
Convidando à missa,
Como primeiro acto...
Para quem podia;

E, à mesma hora,
Sem qualquer acordo,
Por todo o lado,
Os silvos das fábricas
Subiam nervosos,
Em altos berros,
Chamando os escravos,
Para mais uma jorna...

E, pelo meio dia,
Com o sol em brasa,
Ao mesmo sinal,
Tudo parava,
Para a merenda...

Era o descanso.

Que saudade!...

Ouvindo Grieg...

Mafra, 7 de Outubro de 2013
7h13m
Joaquim Luís Mendes Gomes





na paz do salgado...

Na paz do salgado...

Um paraíso branco, alvinitente,
À luz do sol.
Onde não há vermes nem silvados.
Só gaivotas e cegonhas.
Ali pastam livres.
Não têm garras.
Não atacam.
Só debicam o que pretendem.
Tudo em paz.
Sem atropelos.

Tudo é branco
Como a neve pura.
Não há cores,
Não há flores
Para disfarçar.

É o que fica da luz do sol.
Não há sementes.
Não há perfumes.
Só o iodo ali faz o ninho.

Não há ruídos.
Silêncio e calma.
Como Deus quer.

Nem os fantasmas lá querem viver.
Um paraíso.
De asas brancas.
Um castelo ao vento
Onde reina a paz.

Mafra, 6 de Outubro de 2013
13h31m
Joaquim Luís Mendes Gomes







sábado, 5 de outubro de 2013

as tormentas passam...

Todas as tormentas passam...

O caminho é em frente.
Não se vive da esperança perdida.
Se tudo parece desabar,
Não se olha para trás.
Avançar é o caminho.

Se assim não fosse, tantas páginas negras se screveram na nossa História.
Teria parecido o fim do mundo,
A quem então vivia.
Com a mesma angústia, repulsa e medo.
De quem nos governa mal.
Como hoje nós.
Impotentes por não terem a solução nas mãos.

Foi assim cá dentro,
Na nossa História,
E foi na Europa
E até no mundo.

O caminho não é liso e plano.
Há muitas planícies verdes floridas,
Mas também há altas serras escarpadas,
Para contornar com ânimo.
Se assim não fosse,
‘Inda ninguém teria ido ao Everest...

Ouvindo André Rieu,
Mafra, 6 de Outubro de 2013
7h24m
Joaquim Luís Mendes Gomes