quinta-feira, 10 de outubro de 2013

girândolas de sons em brasa...

Girândolas de som...

Irrompem luminosas,
Céu acima,
Com a vertigem alucinante
De quem se liberta
Do peso inerte desta terra,
As primeiras notas secas
Do piano em brasa
Que eu não domino.

Sigo atrás.
Sobre o seu rasto em chama,
Divisando ao longe,
A infinitude luminosa
Dum universo oculto
Que se escancara ardente.

Sinto frémitos em mim,
Em estertor de parto.
Chovem raios exasperados,
Por todos os lados,
Em labaredas.

Retinem toques agudos
De multidões aflitas
Em naufrágio iminente.

Há pedidos lancinantes de socorro,
D’almas perdidas.

Confuso,
Quase em desvario extremo,
Já não sei se estou na terra
Ou se passei para além...

E, num misto,
Indefinível,
De gozo e dor,
Quase anseio regressar depressa
À pacatez da terra.


Ouvindo Rachmaninov, em concerto º 3

Mafra, 11 de Outubro de 2013
7h2m

Joaquim Luís Mendes Gomes

nunca é tarde...

Fui, de surpresa, visitar um casal amigo que não via há muito. Meu amigo de infância. 

Uma grande festa. Grandes abraços de alegria pura, sentidos bem dentro.

Entretanto, apareceu uma amiga, ainda é prima da mulher desse amigo Zeca. Uma viúva, nova muito bem conservada. 

Com as últimas que tinham passado. Desta vez com ela mesmo. 

- Vocês querem saber o que me havia de acontecer agora?...exclamou de olhos ainda esbugalhados.

- Conta lá, respondeu a mulher do Zeca.

- Andava eu a regar a relva, de mangueira em punho.

Passou o abade, de batina preta, como de costume. Um ancião robusto de noventa e cinco anos. que não pára em casa.

- Ó F...que andas a fazer?- perguntou ele de olhar viscoso.

- O sr. padre não vê? Estou a regar...
- Estou-te a ver. A perder o tempo!...

- Então porquê?
- Podias vir daí comigo. Vives só...não tens medo?

- Essa agora, sr. padre. Há tantos anos...de que havia eu ter medo. Não me sinto nada bem.
-Olha. Eu tenho. Podias vir viver comigo. Não me sinto nada bem só.

Fiquei sem pinta de sangue...sem saber que dizer. Se me havia de zangar com tão grande atrevimento ou só me rir...

-Lá em cima, no segundo andar, estava acamada, a sogra do meu amigo. Uma velhota igual, com tantos anos como ele. Só que cega, mas não surda e com o juizinho todo...de fazer inveja. Fora uma linda mulher de olhos azuis. Enterrou dois maridos...

Ouviu tudo e não se conteve.

- o F...manda-mo para mim!...

Uma gargalhada geral...
Havia muito que não nos ríamos tanto.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

amar...

Amar...

Não é troca,
Ela por ela...
Pensar no que vai
De olhos postos
No que deve vir...

Nem mais nem menos.

O movimento nasce do esforço
Do declive.
É preciso inclinar,
Apesar do risco
E também do custo.

É preciso desequilibrar
Para que a roda ande.

Sem tal,
Tudo fica parado e igual.

Custa
Tirar de mim
Para dar a alguém,
Precise ou não.

Só há descanso
Quando ficar melhor
Quem vai ao lado...

A igualdade é sempre o fim.
Nunca o começo.

É preciso dar...
Mesmo que custe.


Ouvindo Mozart

Mafra, 10 de Outubro de 2013
6h45m
Joaquim Luís Mendes Gomes


o tempo é sábio...

O tempo é sábio...

Naqueles serões de inverno,
Quando o trabalho o exigia,
Ficava-se noite dentro,
Na oficina de alfaiate,
Eles, agarrados à agulha
E eu lendo o que tinha à mão.

Livros de história.
Geografia.
Os rios e as serras todas,
De norte a sul.

As linhas férreas...
Que encanto!

Era o meu mundo.
De aspiração e sonho.
Oh, se eu pudesse estudar!...
No liceu...na universidade.
Ser professor...
Ser escritor...
Como Eça de Queirós...
Camilo Castelo Branco...
Diziam que viveram ali ao pé.
Junto à Régua
E em São Miguel de Ceide...

Mas, tudo me era impossível.
O dinheiro?...
Só para comer...
Meus Pais sabiam...
E nada mais podiam fazer,
Senão trabalhar,
Dia e noite...

- Não desanimes, filho!...
O futuro a Deus pertence.
Se Deus o quiser,
Tudo poderá acontecer.
Sê bom aluno.
O tempo é sábio...
Deixa que ele passe...

Ouvindo Mozart

Mafra, 9 de Outubro de 2013
20h35m
Joaquim Luís Mendes Gomes


terça-feira, 8 de outubro de 2013

rescaldos ocultos...

Rescaldos ocultos...

Fugia de mim...
A quem eu mais estimo...
Como o diabo,
Dizem,
Foge da cruz.

Carregava fantasmas,
Negros e incomodativos,
Vinham lá de longe,
E me oprimiam.

Se aproveitaram
Da minha infância e juventude.
Tenras.
Fizeram arraial de tendas
Como ciganos vis.

Nada respeitaram.
Sanguessugas.
Tudo avassalaram.

O entusiasmo secou,
Com tantas garras.
Tantas nuvens de fumo
Me toldaram o céu.

Procurava o sol
E só via negrume.

Queria voar
E não conseguia
Com tanto peso,
Nas minhas asas.

Tanto empecilho...basso.
Tanto preconceito, estéril.
Derramado em mim,
Quando eu crescia.

Tanta crença falsa.
E receios vãos.

Tanta mentira,
Como ervas daninha,
Me sugaram a vida...

Abutres famintos,
Com asas de anjos.

Foi preciso um ciclone de força.
Um fim do mundo,
Para me desamarrar
E voltar a ser
Quem sou,
Por graça divina.
Agora, eu voo...

Mafra, 8 de outubro de 2013
15h21m
Joaquim Luís Mendes Gomes




privilégio de ter nascido?...

O privilégio de eu ter nascido...

Vim ao mundo criatura ínfima,
Entre miríades de milhares,
Infinitos de milhões,
De possibilidades para não nascer.

Nasci homem. Podia ser só um ratito
Ou verme.
Mas não. Sou eu só.
Assim.
Ninguém mais eu.

Cada dia me deito e levanto
Para viver.
Esta luta constante e dura
Para sobreviver.

De todos os lados,
A desoras,
Me espreita a dor
E o ataque ao ser.

Sou obrigado a ser forte
E pronto
Na arte de me defender.

Vivo horas alegres,
Mas tantas tristes,
E , desde que acordo,
Não me sai da cabeça
Esta ideia clara e negra,
De que um dia,
Novo ou velho,
Pobre ou rico,
Hei-de morrer...

E fico atónito...

Se viver fosse só isto...
Prontamente...
Eu repudiaria
Esta sorte falsa
De ter vindo ao mundo...

Mas, sinto e sei
Cá bem no fudo
Que assim não é...
Tenho Fé no Criador

Que me pôs no mundo
E me quer para sempre...

Mafra, 8 de Outubro de 2013
8h13m
Joaquim Luís Mendes Gomes


privilégio de ter nascido?...

O privilégio de eu ter nascido...

Vim ao mundo criatura ínfima,
Entre miríades de milhares,
Infinitos de milhões,
De possibilidades para não nascer.

Nasci homem. Podia ser só um ratito
Ou verme.
Mas não. Sou eu só.
Assim.
Ninguém mais eu.

Cada dia me deito e levanto
Para viver.
Esta luta constante e dura
Para sobreviver.

De todos os lados,
A desoras,
Me espreita a dor
E o ataque ao ser.

Sou obrigado a ser forte
E pronto
Na arte de me defender.

Vivo horas alegres,
Mas tantas tristes,
E , desde que acordo,
Não me sai da cabeça
Esta ideia clara e negra,
De que um dia,
Novo ou velho,
Pobre ou rico,
Hei-de morrer...

E fico atónito...

Se viver fosse só isto...
Prontamente...
Eu repudiaria
Esta sorte falsa
De ter vindo ao mundo...

Mas, sinto e sei
Cá bem no fudo
Que assim não é...
Tenho Fé no Criador

Que me pôs no mundo
E me quer para sempre...

Mafra, 8 de Outubro de 2013
8h13m
Joaquim Luís Mendes Gomes