sábado, 19 de outubro de 2013

quadros da tarde...

Pinturas da tarde...

Agarro em pedras,
Agarro em folhas,
Escrevo versos...
Não uso tinta nem pincéis,
Como quem só pinta com as mãos.

Só exijo estejam limpas,
Estejam lavadas,
Estejam secas,
E não sirvam
Para mais nada...

Tenham cumprido bem
O dever que tinham,
Segundo a lei
Que Deus lhes deu...

Só com elas,
Bem urdidas,
Bem alinhadas,
Lhes dou as cores e a luz
Das que iluminam a minha alma,
Como fogo divino
Que Alguém,
Não sei porquê...
Só nesta hora,
Já tardia,
De graça,
Lhe acendeu...

Ouvindo Plácido Domingo

Mafra, 19 de Outubro de 2013
14h37m
Joaquim Luís Mendes Gomes


lição dum cão...

Lição do cão...

Um dia, saltei um muro...
À minha porta
E roubei flores...

Apareceu-me um cão.
Viu-me tão contente,
Mesmo a tremer.

Parou a ver
E depois me perguntou:

- Para que queres tu essas folhas às cores,
Apenas cheiram bem
E não servem para mais nada?...

Olhei o amigo.
Olhos nos olhos.
E retorqui.

- Para que servem aqueles ossos secos,
Que te dão e tanto gostas?...

Sem resposta, o bom do cão,
Lambeu-me as mãos,
De gratidão.
Cortou um ramo
E foi a correr...
Com o rabo a dar...
Todo contente...
Para levar à sua dona!...

Mafra, 19 de Outubro de 2013
14h10m
Joaquim Luís Mendes Gomes


ponto de equilíbrio...

Ponto de equilíbrio...

Nem sal a mais,
Nem sal a menos.
Nem tanto ao mar,
Nem tanto à terra...

Para hoje tenho...
Amanhã,
Também é dia,
Logo se vê...

O desequilíbrio
Sem braços abertos,
A olhar para o ar,
Dá queda certa.
Pode ser fatal...

Navegar à vela,
Com terra à vista
Ou o farol no céu
É rota certa.

Tudo, no mundo,
Gira, rigorosamente, em círculo,
Para dar certo.
A linha recta se tem começo,
Não tem mais fim...

O dia e a noite,
Em marcha lenta,
Sempre certa,
Nunca se perdem
Porque a terra e o sol,
Sempre à roda,
Com a certeza dum relógio,
Nunca deixam de se olhar...

Ouvindo grandes temas...

Mafra, 19 de Outubro de 2013
7h53m
Joaquim Luís Mendes Gomes






sexta-feira, 18 de outubro de 2013

o teu rosto...

Teu rosto belo...

Me quedo absorto,
Quase perdido,
Diante da beleza
Do teu rosto.

Mar profundo,
Mergulho nele,
Suas ondas ,
Cheias de espuma,
Inebriam minha alma.

Repouso cansado
Os meus olhos
Nessas rugas de mistério.

E leio lendas,
Oiço acordes,
Diviso estrelas,
Entre as nuvens,
Só eu entendo,
Embaciam o meu olhar.

Tuas faces, de tão albas,
Quase infinitas,
São duas dunas,
Tão brilhantes,
Ofuscam toda a tristeza,
Que me afoga
Na maldade deste mundo.

Tuas pálpebras doces,
Duas cortinas...
Sem qualquer sombra,
São só minhas

Que se abrem,
Tão suaves,
Tão serenas,
Me arrebatam,
Como um náufrago,
Céu acima...

Os teus olhos,
De lua cheia,
São dois anjos,
Tão brilhantes,
Fascinantes,
Me encandeiam,
E me levam até às estrelas
Onde me perco a sonhar.

Mafra, 18 de Outubro de 2013
19h15m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

sem lugar para o mal...

Sem lugar para o mal...

Irrompem rutilantes,
Em qualquer lado,
Como um manto real,
Ao calor do sol
E carícias da natureza.

Surgem de graça,
Da terra estreme e virgem,
Como açucenas
Ou rosa amarela,
Enfeitando as serras,
Desde os pés aos cumes.

São azuis e albos,
Da cor das estrelas.
São luminosos,
Como o sol nascente.

Miosótis, estrelícias, em cachos,
Prendas de inverno,
Archotes vivos.
Fogos de amor...

Fazem-nos felizes,
Só de olhar para eles.  
Tanta candura.
Tanto perfume a brotar para os céus.
Enchem-nos a alma...de paz e luz...
Parecem o céu...

Como é possível,
Haver na terra tanto lugar para o mal?...

Ouvindo André Rieu...

Mafra, 18 de Outubro de 2013
7h38m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sementes de paz...

Sementes de paz...

Acredito na força final
Que o homem,
Tem para gerar a paz
Em seu redor.

Muito mais que no mal.
De que é capaz.

E na sedução fatal do bem,
No seu ser e agir,
No seu cantinho.

A lei é simples...

Porque, no fundo,
Lhe bate dentro
Um coração...

De pai ou mãe.

Que só quer o bem
De quem deu à luz,
Fruto de amor...

É esta a ordem da vida...

Começo e fim.
Semente de paz.

Ouvindo Hélène Grimaud

Mafra, 17 de Outubro de 2013
8h28m

Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 15 de outubro de 2013

festa geral...

Festa geral...

Gostava de fazer uma grande festa.
Convidar o mundo inteiro.
Nunca mais tivesse fim.
Soasse música ardente.
E muita dança.

Comer à farta.
E toda a gente alegre.
Com a certeza
De que, em todo mundo,
Acabara a guerra e a fome,
Brilhava o sol
E reinava a paz.

Que a humanidade inteira,
Vertical e humilde,
De mãos dadas,
Habitasse a terra,
Com os pés assentes,
De olhos no céu.

Que a inteligência geral
Fosse um archote a arder,
Abrindo caminhos,
Cada vez mais largos,
Com equilíbrio,

Rasgando trevas,
Desvendando os segredos,
Que a natureza guarda,
Para o bem do homem.

Onde o nascer para vida,
Com os nossos limites,
Com lugar para a dor,
Fosse a porta aberta
Para um paraíso
De paz e amor...
Bastaria o homem
Querer ser só
E apenas homem...
Como Alguém o fez.

Oxalá não fosse
Querer demais!...

Ouvindo Pavarotti

Mafra, 16 de Outubro de 2013
6h39m
Joaquim Luís Mendes Gomes