sexta-feira, 25 de outubro de 2013

as duas gémeas...

As duas gémeas...

Não percebo nada de pintura,
Mas oiço música,
Quando contemplo
Um quadro.

Os seus tons,
A arder,
As suas sombras,
Os seus traços,
Curvos, rectos,
São acordes lindos,
Claros, escuros,
Cheios de cor,
Que inebriam de som
Os meus olhos
E saciam de cor
Estes meus ouvidos.

Soltam tons
Cheios de cor.
Brados da alma,
Que canta e sofre.

Espelham o sol,
De luz,
Que nasce e morre.

Pintam o vento perdido,
Fugindo ao tempo.

Ressoam o mar
Fustigando as ondas,
São seara ao sol,
Amadurecendo o trigo,
Se esvaindo em sangue.

Afinal,
São só irmãs gémeas,
Filhas da arte,
Esposa do belo...

Mafra, 25 de Outubro de 2013
22h39m

Joaquim Luís Mendes Gomes

ao cair da tarde...

Visita ao mar...

Andava perdido
E reencontrei-me, frente ao mar.
Contando as ondas
Que me vinham,
E abraçaram...
Tantos abraços bem apertados
Que não recebo desta terra,
Seca e árida,
Que o sol cresta
Para a domar.

Minha alma ficou tão leve.
Como as gaivotas esbeltas
Que esvoaçavam alegres,
Em meu redor.

Não há recantos
Onde me esconda.
Quando me chega a tristeza.

Só nas ondas brandas
Deste mar,
Que envolvem,
Como um manto,
Encontro a paz
Que me rouba
A madrasta terra
Nem sempre mãe...

Mafra, 25 de Outubro de 2013
 20h 53m
Joaquim Luís Mendes Gomes



este mundo glorioso...

Este Mundo Glorioso...

Inesgotável de areia
É o deserto de Saará.

E as torrentes fenomenais
Que jamais secam o Niagara.

E o manto gigantesco
De nuvens no céu
Em permanente vigilância.

E os imensos bandos migratórios
Que, milhares de vezes,
Atravessam o mundo todo,
Em busca duma vida de sucesso.

E as legiões de mãos famintas
Que, pelo mundo,
Desde sempre,
Se precipitam,
Cada dia,
Nas garras do trabalho,
Para garantirem o seu pão
E o dos rebentos verdes
Que criaram.

E as vagas incessantes,
Carregadas de furor,
Que vêm lá dos confins,
Em cavalgadas loucas
Contra as costas.

E os vulcões de amor em chama,
Que irrompem da alma humana,
Quando em casa,
Soa a hora de aflição.

E a rigorosa harmonia milimétrica
Do universo inteiro
Em movimento sinuoso.
..................


Quão ingente e colossal,
Será a fonte inesgotável
Da Suprema Majestade criadora
Que, do nada, pôs em marcha
Todo este oceano imenso
De maravilhas
Para o bem da humanidade!...

Ouvindo Ricardo Wagner

Mafra, 25 de Outubro de 2013
8h17m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

confidências da madrugada...

Confidências da madrugada...

É, sobretudo, pela noite fora,
No silêncio da madrugada
Que eu lanço
A minha escada do infinito.
E subo e venço
Todas as distâncias
Que no dia
Eu  não alcanço.

Não há montanhas,
Não há desertos,
Não há escarpas,
Não há nuvens negras,
Nem angústias...
Tudo brilha,

Perante a plenitude gratuita,
Cheia de estrelas
Dum pensamento,
Humilde
Que se ergue,
Em sublime ebulição.

Como em sonho,
Quando oro...
E me entrego
Como sou,
Assim tão pobre,
Todo a Deus,

Tudo eu esqueço.
Nem a fome.
Nem a sede.
Nem o medo.

É, na paz de Deus,
Que vejo o sol,
E vejo a lua,
E adormeço,
Em chuva branda de luar.


Ouvindo Plácido Domingo

Mafra, 24 de Outubro de 2013

Joaquim Luís Mendes Gomes

num quadro preto...

Num quadro preto,
Risquei um traço branco.
Cheguei-lhe fogo.
E uma labareda
De versos a arder
Em fogo,
Se desprendeu,
Pelo ar...

Vi-me aflito
Para o apagar.
Tanto ardeu...
Me consumiu.

Reduzido a cinzas,
Para aqui fiquei morto.
À espera do vento
Para voltar a abrir...

Mafra, 24 de Outubro de 2013
14h29m

Joaquim Luís Mendes Gomes

preferia morrer...

Preferia morrer...

Acredito no meu irmão
Que vai a passar.
Porque acredito em mim
Que sou seu irmão.

Como eu, tropeça e cai.
Dorme e sonha,
Às vezes ressona.
Tal como eu.
Nem sempre me agrada,
Tem seus defeitos,
Muitas vezes me encanta.

Sinto-lhe a falta,
No dia em que falta...

Choro se chora.
Sua alegria me encanta.
Perdoo-lhe tudo,
Quando ele aparece a sorrir.
É o céu que se abre
E a vida a correr,
Como um rio
Para o mar.

Que seria de mim,
À soleira da porta,
Numa rua deserta
E  vivesse sozinho?...

Preferia morrer.

Café, “sete momentos”, em Mafra, 24 de Outubro de 2013
11h34m
Joaquim Luís Mendes Gomes



milagre do pão...

Milagre do pão...

Quando chega a Primavera,
Se acalmaram os elementos invernis,
Sai o lavrador todo feliz,
Com a saca às costas
E a enxada numa mão.

Ao nascer do sol,
Vai para o campo,
De terra tenra e depurada,
D’ervas daninhas,
Põe-se em frente,
De pé e ora...

Mete a mão e em arcos largos,
Em seu redor,
Vai lançando ao chão
E vai caminhando,
Em passos certos,
Vai cobrindo,
Em acto de amor,
A terra virgem
Que, por força divina,
E calor do sol,
Passados uns meses,
Se desdobra em espigas
E lhe darão o pão...

Ouvindo Ave Maria de Schubert...

Mafra, 24 de Outubro de 2013
8h19m

Joaquim Luís Mendes Gomes