domingo, 24 de novembro de 2013

criança até ao fim...

Criança... até ao fim...

Deus vai ajudar-me
A ser criança até ao fim...

Os cabelos que ainda tenho,
Já são brancos.
Mas minha alma é sempre verde,
Tem rebentos sempre a abrir.

Quer ser suave pradaria,
Dançando ao vento,
E brilhando ao sol,
No raiar das primaveras.

Onde, aos milhares,
Todas as abelhas
Poisem livres ,
Buscando o mel
Para levarem.

Não é d’agora,
É de sempre.
Esta fonte sempre a botar.

Água pura de nascente,
Só corre em mim,
Mas vem d’Alguém...
Porque é assim.

Há-de sonhar sempre
Como uma criança,
Por mais rigoroso e frio
Seja o inverno,
Com as prendinhas do Natal...

Só assim...quero viver.

Ouvindo Brendan Perry

Berlim, 25 de Novembro de 2013
8h10m
Joaquim Luís Mendes Gomes





delicadeza...

A delicadeza...

Arma discreta,
Que a natureza nos deu.
Corta fundo
Que nem bisturi.
Tudo desarma. 
Ninguém lhe resiste.

Por mais duro e empedernido,
Não há indiferença,
Por mais gelada,
Que ela não derreta.

Está inscrita e sempre à mão.
Basta usar no momento certo.
Arranca sorrisos.
Abre portas, mesmo de ferro.

Tão desprezada,
Mesmo esquecida.
Pouca gente a usa.

Em vez da perfídia,
A indiferença mortal.
Fica mais cara
E nada resolve.

A besta-homem,
Infelizmente,
É quem a comanda.
Mas sem a cabeça.

Por isso, este mundo
Está como está...

Virado do avesso.
Nunca esteve pior.

Berlim, 24 de Novembro de 2013
2021m
Joaquim Luís Mendes Gomes

mensagem da ilha...

Mensagem da ilha...


Passa ao largo da minha ilha
Um paquete branco.
Leva as luzes acesas.
 É de noite.

Não conheço quem leva lá dentro.
E, deles, ninguém imagina,
Nem a mim,
Nem a ilha.

Há sempre uma grande fronteira,
Que nos separa no mundo.
Mas nosso barco,
Em terra ou no mar,
É o mesmo.

Que chegue a bom porto.
Que tudo dê certo.

Quanto menos barreiras
E apertadas as mãos,
Mais seguro o barco
E quem vive na ilha,
A vê-lo passar...

Berlim, 24 de Novembro de 2013
10h40m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado, 23 de novembro de 2013

vai haver neve a cair...

Se calhar, vai cair neve...

Está tudo a postos.
O chão estiolado,
Estendido ao comprido,
Sem cor.

As árvores ao ar,
De braços abertos rezando,
Despidas das folhas.

As folhas mortas,
Jazidas na terra
Juntam-se aos montes,
Nas bermas da estrada.
Como quem espera a carrada.

Os telhados  tristonhos,
De abas caídas,
Vêem-se sozinhos,
Sem pombas, nem andorinhas
Aos pares.

E os caminhos estragados
Pelos golpes da chuva,
Sangram de dor.
Esperando algodão que os sare.

Parece a hora da morte.
Que tudo acabou.

O céu anda cansado e tristonho,
Saudoso de luz.

Meus netos, já irrequietos,
Impacientes,
Se voltaram para mim:

- Avô! Quanto é que vem a neve
Para a gente brincar?...

Porque sou homem de palavra e de fé,
Com firmeza lhes digo:

- Tenham mais um pouco de paciência!...
O Menino Jesus está quase a chegar...

Ouvindo Hélène Grimaud,

Berlim, 24 de Novembro de 2013
7h53
Joaquim Luís Mendes Gomes


pintado de fresco...

Pintado de novo...


Pintei meu portão de vermelho.
Ali bem à frente,
Da minha janela.

Uma cor forte
Que faz frente ao sol.
Pus-lhe um letreiro:

“Pintado de fresco.”

Pela calada da noite,
Só podia ter sido.
Alguém, incauto,
Lhe pôs a mão.

Ficaram marcadas.
Eram de gente,
Sem luvas.
Tinha marcadas
Todas as linhas sulcadas,
De impressão digital.
Da palma e dos dedos.

Se fosse por mal,
Poderia chegar ao autor...

Dias depois, o telefone tocou.

Do lado de lá,
Uma voz furiosa
Que não disse quem era,
Descarregou-me a tropel,
Toda a maldade malvada
Que lhe ia na alma.
- que não havia direito
De se pintar um portão,
Onde passam pessoas,
Sem o cobrir...
Bati ao portão
E ninguém apareceu...
Só de má fé!...

Agarrei-me à cadeira,
Para não me estatelar.
Sem saber que dizer.

No domingo seguinte,
Fui à missa do dia.
Cumprindo o preceito.
Fui comungar.

Por acaso ou não,
Reparei na mão
Que segurava a patena.
Toda vermelha.
Da cor do portão...

Aquela ideia
Ficou-me a bailar...
- o figurão do portão
É  sacristão!...

Berlim, 23 de Novembro de 2013
20h32m
Joaquim Luís Mendes Gomes




negra e só, nas terras d'África...

Negra e só nas terras d’África...

Tinha tranças pretas
Aquela moça morena
De olhos tristes.

Viu-o partir
Banhada em lágrimas.

Bendita a guerra que o fez chegar.
Durante dois anos,
Que feliz foi...

Um príncipe encantado,
Que se enamorou dela
E a fez sonhar.

Tantas noites belas,
Na tabanca em festa,
Mesmo de colmo,
Uma fogueira a arder,
Com batuque
Em chama.
À luz do luar.

No seu ventre de amor,
Nasceu –lhe um tesouro.
Seria moreno,
De olhos azuis.
Um rosto de cor,
Entre o branco e o negro.
Um botão a abrir,
Em primavera em flor.

Foi o fim da guerra
Que o fez partir.

Jurando promessas
De um dia voltar...

Cruel força do destino,
Tão fatal em os prender...
Como de cego em os separar!...

Que será feito dela
E do fruto do seu amor?..
.
Não há nada no mundo
Nem de dia,
Nem de noite,
Que os faça esquecer.

Ele, longe, no fim do mundo
E ela, negra,
Nas terras d’África...

Berlim, 22 3 de Novembro de 2013
15h2m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

monte palha seca...

Monte de palha seca...

No meu quintal,
Juntei um molho de palha seca.
Tomei as devidas precauções.
Nela deitei minhas desilusões da vida.
Ateei-lhe o lume...

Nunca meus olhos espantados,
Viram tamanha explosão...

Nem o vesúvio em chama.
Não da palha,
Que só arde e queima.

Foi da lenha negra,
De sete dezenas de anos...

As da mocidade,
Mesmo verdes,
De tão puras,
Eram só pinhas.

Só fogo limpo...
Não faziam fumo.

As da tropa
Eram fulminantes.
Cheiravam a pólvora
E carne queimada...
Da guerra suja...

Mas as piores
Foram as do trabalho,
Uma selva em chama,
Devoradora e vil...
Onde o carvão a arder
Foi a dignidade humana...

Quando afinal,
Esperava respirar o ar
Da liberdade,
Com uma aposentação
Conquistada a ferro e fogo...
Veio a metralha infame
Destes traidores...
Uns incendiários...
Nunca fizeram nada!

Berlim, 22 de Novembro de 2013
21h17m
Joaquim Luís Mendes Gomes