sábado, 30 de novembro de 2013

pássaro ao vento...


 

Aí vou...

 

Aí vou...pássaro sedento,

Ao sabor do vento,

Em liberdade plena,

Buscando um lago perdido,

Uma fonte escondida,

Onde beber,

Espanejar minhas asas,

Crestadas do tempo,

Sujas do ar.

 

Quero encontrar

Sementes douradas,

Meu alimento,

Cresçam em mim,

Dêm bom fruto

E eu possa oferecer

A quem precisar.

 

Vou decidido

A nunca parar,

Tão alto subir,

Para medir bem as distâncias,

Entre o mar e a terra,

Onde serpenteiam os rios,

No meio dos campos,

Aldeias espalhadas,

Onde vivem pessoas,

Que são meus iguais.

 

Parecem sem vida,

Que amam e sentem.

 

Quero largar estes versos,

Como folhinhas às cores,

Outono cadente,

Cheias de alma

Sedenta de amor...

 

 

Ouvindo Hélène Grimaud...

 

Berlim,2 de Dezembro de 2013

6h50m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

comboio da Régua...


Comboio da Régua...

 

 

Tomava o comboio a carvão

Em Caíde d’El Rei,

Que vinha do Porto até ao Pinhão.

 

Era ronceiro...

Tuncathum...thuncathum...

Lá ia ele em marcha lenta,

Sempre a apitar...

Como um elefante.

 

Deitava fumo branco

Em baforadas,

Seguia raivoso,

Para chegar a horas.

 

Furava túneis.

espumando cinzas,

Sem ver o chão.

 

Aí ia ele, de braço dado,

Ao pé do Douro.

 

De hora a hora,

Matava a sede,

Bebia água,

Em vez de vinho...

Com três classes,

Duas de pau.

Porque a primeira,

Na dianteira,

Tinha fregueses certos,

Eram os fidalgos

Donos da eira...

 

Hiii!...Hiii!...

Dobrando as curvas,

Sempre subindo.

 

Ai que saudades eu sinto dele,

Apesar da camisa fina,

Me ficar toda suja,

Com tanta cinza!...

 

 

Berlim, 1 de Dezembro de 2013

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

a oração...


A oração...

 

Podem descobrir todos os caninhos ocultos

Que no mundo há.

 

Desde a electricidade à internet.

Chegar a todos os planetas,

Onde houver vida.

À velocidade da luz...

 

Podem decifrar todos os enigmas

Com a força finita da razão.

 

Alcançar os píncaros mais altos

Que há no mundo.

E os segredos da vida oculta.

Duma simples amiba,

A um elefante.

 

Tudo restará,

Infinitamente, distante,

Dessa força incalculável

Que cada um de nós tem

Ao nosso alcance.

 

Basta um simples toque...

Se abre o mundo inteiro

À nossa mão.

Porque nos liga directo

Ao Criador...

 

Basta querer.

Seu palácio real não tem portas.

Está sempre aberto,

A toda a gente,

Independentemente,

Da cor da pele...

Da riqueza ou da pobreza.

 

A todos recebe,

Pronto e na hora,

Da desgraça

Ou da alegria.

 

Não tem guardas

À nossa espera

Para nos tirar o nome.

 

Ele é Cura...

Ele é médico...

Com remédio certo

Para cada mal.

 

Nada cobra.

Conhece e ama

Cada um de nós,

Como se fôssemos o único.

Só espera de nós

Que O chamemos Pai...

 

Ouvindo Brendan Perry e mais...

 

Berlim, 1 de Dezembro de 2013

00h00m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

o espaço e o tempo...


O espaço e o tempo...

 

 

Voo no espaço e no tempo,

Como folha perdida,

No espaço da vida,

Que o tempo me dá.

 

Passo horas correndo,

Fugindo da vida madrasta,

Que o tempo me traz,

No espaço onde moro,

Sem espaço nem tempo.

 

 

Vivo cercado de tempo,

Sem espaço,

Com trevas,

Em cativeiro de luz.

 

Sei que lá fora,

Há praia e mar,

Com azul,

Luzindo no céu.

 

Tenho barreiras,

À volta

Que me cortam as asas,

E me prendem os pés.

 

Tantas horas perdidas,

Num espaço deserto,

Sentindo o sol a queimar,

Envolto

 

 

De trevas sombrias

Que o tempo me dá.  

 

Sinto falta

De tempo e de espaço

Para uma vida

Com alegria e sol...

 

Valem-me a fé

E a certeza da esperança..

 

Ouvindo Grieg...e mais

 

Berlim, 30 de Novembro de 2013

8h39m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

 

mordaças da vida...

Mordaças da vida...

Saltei para o meio da praça,
Tentando descalçar as botas.
Minhas passadas
Mas prenderam com tantos laços,
Via-me grego para caminhar.

Tantas laçadas me deu a vida...
Preferia poder
Andar descalço.

As mais apertadas
Tinham as marcas fundas
Da religião, muito mal contada.

Tantas nuvens densas
Toldaram meus pés...
Me ataram as mãos.
Em confusão.

Um tal novelo, de voltas falsas,
Me prendeu os dias,
Com frio e vento.
De enregelar.

Sobrevivi, apesar de tudo.
Graças a Deus.

Abri os olhos, vi claro.
O sol raiava...
Tudo era negro.
Com tantas regras...
Tantas laçadas,
De estarrecer.

Num golpe de rins,
Dei cá um salto
E pus-me a correr.

Outras vieram.
Filhas da pátria!...
Mandaram-me prà guerra,
Sem saber porquê...

Quis o destino
Me salvar da morte,
Naquela hora de esperança,
Que a vida promete...
Às vezes não é...

Saltei para vida, um lutador.
Trepei os montes,
Para chegar ao topo
E ver o sol...
Atingi os cumes,
E uma miragem brilhante,
Se abriu em frente.

Caí em mim,
Senti-me vazio,
Um desprezado.
Pedi socorro.
Ninguém apareceu.

Pelos meus pés,
Sangrando sangue,
Lancei-me à luta,
Com as minhas armas,
Que Deus me deu.

Abri os olhos...
Tomei um duche.
Fiquei em mim.
Pus-me a dormir
A sono solto...
Quando acordei,
Me vi sem botas.

Berlim, 29 de Novembro de 2013
2026m
Joaquim Luís Mendes Gomes


renascer...

Renascer...

Espero um dia,
Depois de morrer,
Renascer na mesma casa
E mesmo lugar.

Serei pai dos meus avós...
Sou de boas contas.
Vou enchê-los com tantos carinhos,
Como deles recebi...

Berlim, 29 de Novembro de 2013
16h7m

Joaquim Luís Mendes Gomes

música das palavras...

A suave ou grave música das palavras...

Minhas janelas do pensamento.
Por vós eu espreito
As profundezas do universo,
Com sol e estrelas.

Desço e toco no fundo negro
Do mar ignoto.

Lanço ao vento,
Minhas baladas
Que me vão cá dentro.

Faço brindes de festa,
Ao nascer do sol de cada dia.

Alcanço montes
Onde a neve,
Tristonha e fria,
Se estende ao sol
Da luz do dia.

Dou voz solene
Às melhores sonatas,
Com clarins e coros.

Dou a volta ao mundo
Com as notícias certas
Da própria hora.

Solto meus sonhos,
Que moram cá dentro,
Moinhos de velas paradas,
À espera do vento.

Lembro as horas passadas
Que não quero esquecer.

Capto e decifro
Todas as ondas internas
Que ressoam de ti...

Berlim, 29 de Novembro de 2013
9h27m
Joaquim Luís Mendes Gomes