sábado, 14 de dezembro de 2013

baforadas do meu cachimbo...


Baforadas do meu cachimbo...

Fui para a varanda.
Com meu cachimbo.
Senti-me criança,
A deitar balões...
Com uma palhinha.

Em baforadas.
Aos quatro ventos.
Pus-me a vê-las.
Umas para norte,
Outras para sul.
Como bolinhas e sabão.

Levavam dentro
Uma mensagem.
De Bom Natal...
Com muita alegria...
Muito calor...
E um abraço,
Maior que o mundo.

Oxalá cheguem ao seu destino.
Uma era para Ti...
Com aviso de recepção.
Se não receberem,
Mandem um mail...
Para eu reclamar.

Berlim, 14 de Dezembro de 2013
19h14 m
Joaquim Luís Mendes Gomes



salpicos de nevoeiro...


Salpicos de nevoeiro...

Alvoreceu a manhã,
Salpicada
De ténues farrapinhos de nevoeiro.

Olho lá fora.
Um aquário sereno,
Desmaiado de cor,
De luz apagada.
Sem peixes.

As copas das árvores,
Emergem do chão,
Saem das tocas,
À espreita de luz.

De janelas cerradas,
Dormem os prédios,
Com seus donos,
Cansados,
Lá dentro.
É fim de semana.

Nada ressoa,
Parece que o mundo parou.

Só o meu canito,
Velhote,
Refastelado na cama,
Ressona...ressona...
Parece um leão.

Ouvindo música clássica variada

Berlim, 14 de Dezembro de 2013
9h22m
Joaquim Luís Mendes Gomes




sexta-feira, 13 de dezembro de 2013


Meus lábios espumam de raiva.
Gelada. Em Berlim.
Ferve em Lisboa.
De tanta injustiça,
Esmagada. Oprimida.
Derramada por quem deveria cuidar,
Por mandato do povo.

Chovem torrentes de lava,
Dessas mãos empestadas
De feroz egoísmo.

Só pensam em si...
Não olham a meios.
Roubam e roubam,
Com caras de anjos.
São uns diabos.
Com cornos...
Vão para o inferno.
Deixem em paz.
Quem trabalha e labuta,
Com honra
E ganha seu pão.

Cadeia com eles....
Algemas nos pés
E nas mãos.
A água e pão...
E uns minutos de sol.

Até que aprendam
Que os outros
São seus iguais.
Com os mesmos direitos.
A respeitar!...

Berlim, 13 de Dezembro de 2013
14h13m
Joaquim Luís Mendes Gomes

coloridas tiranias...

Coloridas tiranias...

São coloridas as nossas tiranias.
Em vários tons.
Desde o pálido
Ao espesso e grosso,
Estilo “ceuacescu...debudapeste”

A primeira é rósea.
Brava.
Logo ao nascer.
Assim vingou.
E assentou arraiais.

Pela mão do mestre,
Sem dar cavaco,
Meteu tudo num saco,
E foi oferecer de bandeja,
À união europeia...
Uma rata sábia!...

Em troca, vieram de lá,
Às toneladas,
Milhões e milhões de euros,
Para pagar depois...
Ao juro da lei.

Que euforia!...
Fez-se uma Expo...infernal...
Com tamanho gozo...
Mudou-se o rosto
À capital.

Fez-se o euro-2004...
Com tanto gáudio,
Gigantescos estádios da bola,
Em todos os cantos.
A populaça gostou...
Chamou-lhes um figo...
Se convenceu...
Tudo era um Brasil...
Da cor da rosa!...


Depois foi o pior!...
Vieram os “laranja”
Cheios de fome...
Entraram na praça
Com tanta sanha.

Rasgaram SCUTS, à borla,
Auto-estradas mestras,
A torto e a eito...
Ao sabor do vento.
Venderam as pescas,
Por tuta e meia...
Com suas barcas e redes...

Todas as frotas,
Incluindo as comerciais...

A agricultura, em crescendo constante,
Por toda a parte,
Levou cá um corte...

Foram oliveiras...
Foram videiras...
Eucaliptais aos centos...
Em vez dos pinheiros
E carvalhais!...

Encerraram-se empresas de grande porte...
Para dar a vez aos espanhois...
E outros que tais...
Foi nas faianças,
Foi nas industriais...
Onde se dava carta!...
Tudo fechou,
Em catadupa
E Zé povinho...tão lorpa,
A ver batendo palmas...
Desde que dinheiro fácil
Que uma banca falsa,
Lho pusesse na conta,
Ao preço da chuva!...

Foi uma folia!...Uma bebedeira!

Cresceram gigantes,
Da nota!...na clandestinidade!...
Tudo sugaram...
Para os Off-Shores!...
Paraísos fiscais...
Com a batuta dos FDP
Que tinham poder,
De alto a baixo...
Sem prestar contas...
Tudo valeu.
A Justiça morreu
Para os crimes brancos,
De alto coturno.
Um regabofe...
Que nos pôs de tanga...
À beira da morte...

Entre as clareiras,
Apareceu a azul.
Uma cor celeste!..
Tanta inocência!...
Formiguinha branca...
Furando tudo,
Sem se dar conta,
Como bicho da conta...
Quando se foi a ver,
Tudo lorado!...
Foram sub-marinos!...
Foram rotundas,
Foram empresas privadas
A devorar os lucros,
Por serviços públicos,
Que pertencem ao Estado!...

Tantos piratas!...
Nunca se viu
Em Portugal!...
Até uma TROIKA!...
Aquele aborto!...
Para nos desgraçar.
E está tudo morto!?

Berlim, 13 de Dezembro de 2013
9h9m
Joaquim Luís Mendes Gomes



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

pelas ruas da amargura e horas da morte...




Pela hora da morte!...

Não fujo.
Mas corro, caminho e avanço,
Por esta estrada pejada de faunos,
Que querem assaltar-me
E matar...

Vivi honrado, cumprindo,
O que vem no contrato assinado,
Em nome de nós,
Na hora em que viemos ao mundo.

Nada escolhemos.
Nem os Pais, nem os reis
Que mandam em nós
E na terra que nos coube na rifa.

Por ela lutamos,
Arriscamos a vida...
Na melhor das idades.

Aos que morreram...
Ó fatalidade!...
Nem saudades lhes choram!...

Aos que voltaram,
Pelo menos aos demais,
Puseram-lhes escadas,
Cheias de espinhos,
Para treparem na vida.

Sugaram-lhe a vida,
Pagando-lhes mal...
Em prole de alguns...
Que nunca fazem nenhum
E gozam à farta...

E, agora, afinal,
Na fase da paz
E do fruir almejado
E merecido,
Duma reforma sem fome...

Vá de assaltar...assaltar...
Sem piedade nem dó...
Em troca da morte.
Por esses chacais do inferno
Com caras de sobas...
Reais!

Ouvindo “Astúrias” de Albeniz

Berlim, 13 de Dezembro de 2013
4h46m
Joaquim Luís Mendes Gomes

a noite está a chegar...

A noite está a chegar...

Aí vem com sua manta negra,
Curando guardar tudo,
Como dona do mundo.

Pensa que é rainha viúva
Dum reino perdido,
Ou dum céu extinto,
Por não ter mais escravos.

Até o nevoeiro inocente
Desatou a fugir de medo.
Envolta em silêncio de cal,
Vai estendo seu véu.
Só os candeeiros e os faróis
A arder,
Quebram seu doce enlevo
De quem quer dormir...
À espera do sol
Que a cubra de amor...

Berlim, 12 de Dezembro de 2013
16h30m
Joaquim Luís Mendes Gomes



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

escutar os segredos da vida...

escutar os segredos da vida...


É preciso deixar a sacada parada,
No alto do prédio,
Descer as escadas,
Lançar-se à rua,
Esse mar de gente,
Com nome,
Que carrega dentro,
Um lindo tesouro.

Olhem-lhe os olhos,
Essas janelas largas,
Por onde a vida
Lhes entra
E lhes sai.

Imagens sonhadas.
Saudades passadas,
De tempos de sol,
Raiados de alegria,
Ou toldados das sombras,
De quem se foi para sempre.
E deixou saudades,
A arder...

Olhem-lhe os rostos,
Com marcas riscadas,
Ondas que nascem
Lá dentro,
Dum mar de anseios...
Uns se cumpriram...
Outros, apenas,
Amargas miragens
Que os puxam para a frente...

Contem-lhe os passos,
Que sobem ladeiras,
Descem escadas,
Sem conta,
Gastando da vida
Os tempos de espera,
Procurando cá fora
E em vão...
O que trazem consigo...
Bem dentro,
Pronto a crescer...
Se lhes derem a vida.

Ouvindo Brendan Perry, neste amanhecer de nevoeiro

Berlim, 12 de Dezembro de 2013
8h2m
Joaquim Luís Mendes Gomes