sábado, 21 de dezembro de 2013

custe o que custar...


 

Custe o que custar...

 

Hei-de lá chegar.

Mesmo que gaste todas as minhas forças...

Alguém me vai ajudar...

E eu vou chegar.

 

Sinto em mim

Uma força tal

Não sei donde ela vem...

Me faz caminhar em frente.

 

Um dia eu estarei lá...

Custe o que custar.

 

Nunca quis ser rei.

 

Só quis ser o que

Quem me criou e fez,

E espera de mim.

 

Aqui estou onde estou.

Como um grande letrado.

Que escreve direito e bem,

Como os melhores,

Dos melhores,

Pela Sua mão

Que se serve de mim...

Eu, apenas, Lhe digo sim...

 

Ouvindo Adèle...

 

Berlim, 21 de Dezembro de 2013

20h 48m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

meus sapatos novos...

Os meus sapatos novos...

Feitos por medida
E à mão.
Para o dia da minha comunhão.
Eram pretos.
Muito luzidios.
Quase serviam de espelho
À minha gravata preta.

Senti-me importante.
Como se fosse um homem.
Ao sair de casa,
Com a vela na mão.
E de camisa branca.

Quando cheguei à capela,
Já me ardiam os pés.
Habituados à liberdade
De andar descalços.
Com neve ou sol.
A caminho da escola
E da catequese.
Por campos e montes.

Nunca mais esqueço
Aquela procissão sem fim,
Da capela à igreja...
Pr’aí um km...
Meus pés a arder,
Pareciam de Cristo...

Quando cheguei a casa,
Libertei-me dos sapatos,
Coitadas das meias...
Que grandes bolhas!...
Quase a arrebentar.

Enchi um alguidar de água
E , com eles lá dentro,
Me senti no céu...

Apesar de tudo,
Prefiro as alpercatas...
Nunca me fizeram mal.

Berlim, 21 de Dezembro de 2013
15h20m
Joaquim Luís Mendes Gomes



meu rosário breve...


O meu rosário breve...

 

Conto as horas dos dias,

Uma a uma,

Como continhas soltas

Deste rosário breve.

 

Passam-me pelos dedos,

Tão de mansinho,

Sem eu lhes dar a conta,

Como os raios de sol,

Pelas vidraças largas

De minha janela baça.

 

Só me restam as sombras,

De todas as horas mortas,

Ou das mais carregadas

Que a vida me deu...

 

Ao fechar das contas,

Faço as minhas contas.

Oxalá, me dêem certas,

Quando se acabarem as horas...

Que a vida me der.

 

Berlim, 21 de Dezembro de 2013

11h57m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

O meu rosário breve...

 

Conto as horas dos dias,

Uma a uma,

Como continhas soltas

Deste rosário breve.

 

Passam-me pelos dedos,

Tão de mansinho,

Sem eu lhes dar a conta,

Como os raios de sol,

Pelas vidraças largas

De minha janela baça.

 

Só me restam as sombras,

De todas as horas mortas,

Ou das mais carregadas

Que a vida me deu...

 

Ao fechar das contas,

Faço as minhas contas.

Oxalá, me dêem certas,

Quando se acabarem as horas...

Que a vida me der.

 

Berlim, 21 de Dezembro de 2013

11h57m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

minha Avó Emília...


Minha Avó Emília...

 

Enchi um açafatiunho

De cerejas vermelhas,

Salpicadas de gotas de orvalho

Duma manhã de Maio.

 

Fui levá-las, de prenda,

De minha casa a pé,

A minha Avó.

Presa a uma cadeira

Que prendia de andar...

Frente a um pinhal.

 

Ficou tão contente...

Me abraçou,

Banhada a chorar ...

 

Ainda hoje sei a doçura

Daquelas cerejas

E dos beijinhos doces

Que Ela me deu...

 

Ouvindo o tema de Amélie...

 

Berlim, 21 de Dezembro de 2013

9h32m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

o meu missal...

O meu missal...

Tenho dentro de mim,
Ao pé do coração,
Numa caixinha de cartão,
O meu primeiro livro de missa.

É preto, com um dourado,
Na capa e na lomba.
Custou-me 23 tostões,
Numa lojinha,
Ao pé da Santa,
Mártir Quitéria,
Segundo a lenda.

Foi por ele que entrei
No caminho de Deus,
Minha presença constante,
Ao longo da vida.

Bendita a hora
Em que subi ao monte,
Ao pé da ermida,
E vi ao longe
O caminho certo.

Tem orações da manhã,
Do meio-dia
E as da noite.
Ensinou-me a ajudar à missa.
Desde o “ introibo ad altare Dei”
Até ao “ ite, missa est...

Que encanto tinha o seu folhear...
Me elevava a Deus...omnipresente...
Que eu sentia em mim,
Como Pessoa real.
Lindo tesouro!
Meu companheiro...
Até final...

Berlim, 20 de dezembro de 2013
23h10m

Joaquim Luís Mendes Gomes

minha peneira...

Minha peneira...

Lembro-me de minha Mãe,
Peneirando a farinha de milho,
Antes de coser o pão.
Gostava daquele cerimonial.
Me parecia sagrado.

Tirava-a dum saco, ao lado,
Com uma tigela de barro,
Da masseira de pinho.

O forno ardia...ardia...
Vermelho,
Em labaredas de cisco.

Cada vez mais fina,
A montanha de farinha
Ia crescendo, sobre o fundo
Masseira.

Retirava dela umas mãos cheias.
Botava-lhe água do cântaro.
Fazia uma pasta,
Como uma patela redonda.
Cobria-a de sardinhas pequenas.

Punha-a sobre a patela de madeira
E aí ia ela,
Pelo forno dentro.

Um aroma a arder
De maresia,
Saía em baforadas.
E a boca saliva de espuma,
Com tanta fome de a devorar...
Muito melhor que pisas...
Sabiam a sal,
Como em frente ao mar.

Depois, vinha aquele rosário constante,
De voltas sem conta.
Ora de água, ora fermento,
E vira daqui...vira dali...
Até a masseira encher.
Duma pasta gigante.

Uma cruz sagrada,
E uma reza bendita,
Sobre aquela montanha,
Clamando a bênção
De quem dá o pão...

Daí a pouco,
Era a imolação.

Uma dezena de bolas
Daquela massa,
Entrava à vez,
Pelo inferno dentro...

Vinha a arte de fechar o forno...
Ainda me lembro daquela portiha,
Em pinho,
Já calcinada,
Com sua sorte malvada...

Acertava à justa.
Mas ainda era preciso,
Evitar a fuga de todo calor...
Era com “ bosta” de boi...
Ainda hoje, sinto e sei
Aquele cheirinho a erva...

E o regalo infinito
Daquelas broas gigantes,
Cobertas de ouro
Sabiam a mel...
E daquele brilho nos olhos
Da minha saudosa Mãe...

Berlim, 20 de Dezembro de 2013
17h9m
Joaquim Luís Mendes Gomes



mais uma vez da minha varanda...

Mais uma vez da minha varanda...

Depois do almoço.
Minha cadeira.
Meu cálice de uísque.
Meu cachimbo a fumegar.
À minha frente, um bloco,
Em propriedade horizontal.
É alto,
Um pouquinho s´
Acima das árvores.

Lá em cima,
Sobre a casa das máquinas.
Dois casais de corvos.

Independentes.
Não chateiam ninguém,
Tal como eles.

Se trocam beijinhos.
Um espaneja as asas.
Outro debica as pulgas.
 Lá bem no alto,
Mirando tudo.
Só eles existem.

Mal eles sabem
Que estes olhos humanos
Lhes espiam a vida.

E lhes cobiço a arte
De bem conviver...
Sem regateios.
Com toda a atenção.
Cada um no seu papel.

Até dos corvos...
Há que aprender!...
Como é fácil..
Saber viver.

Berlim, 20 de Dezembro de 2013
16h25m
Joaquim Luís Mendes Gomes