quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

depois do combate...


Depois do combate...

Vem a pior parte.
Enterrar os mortos.
Varrer os destroços.
Lavar o chão.

Reconstruir dos escombros.
Refazer sementeiras.
Sarar as feridas.
Abrir as escolas.
Agradecer a vitória...
A quem de direito.

O caminho é estreito.
Cada um pelo seu pé.
Primeiro o direito...
Subir e descer.
Sem desânimo no peito.
A vida renasce.
Volta a viver.
Há que crescer e florir
E colher
Do bom fruto.
Para semear e comer.

Há tempo para tudo.
Para amar e esquecer.
Um combate feliz
Que nos faça sonhar.

Vivamos unidos,
Em paz e amor...

Ouvindo Wagner- Prelúdio

Berlim, 26 de Dezembro de 2013
10h29m
Joaquim Luís Mendes Gomes

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

migalhinhas de Natal...


Migalhinhas de Natal

Andei perdido por esse mundo,
Sem sentido na minha vida.
Atravessei bosques.
Cidades repletas de gente,
De agitação e luzes.

Saltei montanhas,
Percorri os vales,
Onde a serenidade mora.

Sorvi do mar sua brisa,
Incessante e fresca.
Palmilhei carreiros cobertos
Ora de lama... ora de neve.

Sujei meu fato
Nana poeira das feiras de tudo.
Ouvi da música agreste e alienante
Que se vende em discos.

Dormi livre ao frio e ao relento.
Mesmo vestido.

Fartei-me a comer do bom e do melhor,
Sem ser em festa.
Dancei o tango.
E o corridinho solto.

Vi futebóis em gigantescos campos,
Roubados ao milho e vinho...

De tudo eu fiz,
Vazio e cada vez mais só.

Faltava-me o rumo
E um destino seguro e certo.

Faltava-me o sonho.

Eu era um morto-vivo a caminhar.
Sem luar nem sol.

Inesperadamente,
Me encontrei com a morte.
Ao virar da esquina.
Ameaçadora e sorridente...
Queria levar-me assim,
Tal qual eu estava...

Perguntei-me a mim:
- que andei eu a fazer,
No mundo, estes anos todos?...
Não servi para nada...
Nem a ninguém...
E, agora, que será de mim?

Ela, calma, sorriu e disse:
- Se quiseres, dou-te mais um pouco de vida.
Mas para viveres a sério
E aproveitares bem...

Tudo em mim tremeu.
Um clarão de sol se abriu...
Senti-me outro...
Uma vontade ingente
Me encheu de vontade de viver...
Ao ver a morte a ir-se embora...

E aqui estou,
Aproveitando cada migalhinha de tempo
Que Deus me der.
O Senhor do tempo...
Como se cada dia fosse Natal!...

Ouvindo Albinoni, Aranguês, à viola

Berlim, 25 de Dezembro de 2013
22h30
Joaquim Luís Mendes Gomes  

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

versos de Natal...

Versos de Natal...

Nesta noite há luar,
E muitas estrelas brilham no céu.
Todas voltadas para a nossa Terra,
Onde é noite Natal...

Chovam torrentes ,
De alegria e paz,
Por essas casas benditas,
De pobre e rico,
Onde há presépio aceso,
Pinheirinho de Natal.

Andam anjos correndo o mundo,
Cantando hinos
De louvor...

Nasceu o Deus Menino,
Lá na Terra, em Belém...
Para salvar a Humanidade!...

Aleluia! Aleluia!
Haja paz!...
Haja Amor!...

Ouvindo Brendan Perry

Berlim, 25 de Dezembro de 2013
4h13m
Joaquim Luís Mendes Gomes


vocifero...e sobrevivo


Vocifero...mas vivo

Se esse for o preço de escrever...
Suportar os teus azedumes desconexos
E sem razão,
Desde que acordas até deitar...
Hoje e ontem...
E sempre assim...
Se tenho de aturar tuas mudanças de humor,
Do calor ao frio,
À mais ligeira brisa.

E se tenho de ouvir as mesmas lamúrias
Desde o começo do mundo,
Como se nada mais houvesse,
Se quatro filhos não representam nada,
Tudo apagado,
Noite cerrada.

Se não queres mais viver...
Eu quero e vivo...

Ouvindo Brendan Perry...Sol de inverno
Berlim, 24 de Dezembro de 2013
11h31m
Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

natal em Berlim


Natal em Berlim

Acabei de receber o sorriso do sol,
Neste amanhecer de Natal!...
Estava nimbado de cor,
Uma anilina entre o vermelho doce e o rosa...
Numa moldura azulínea de cobre.

Uma cortina de castanho esverdeado pálido,
Desta floresta gigantesca
De árvores semi-nuas.
Com rameiras sem penas,
Pela frieza do inverno.

Batem nas janelas em jorros de luz,
Chamando à vida
Quem lá dorme feliz...

Se bamboleiam as copas mais altas,
Sacudindo as folhas,
Das poeiras da madrugada.
Bebendo do sol,
O café da manhã...
E um corvo negro,
De bico comprido,
Poisou no topo dum lampião,
Preparado para a luta
De ter de viver,
Por si só,
Sem ajuda de ninguém...
Bateu as asssas,
Disse-me adeus.
Desejou bom natal
E foi...Feliz dia de Natal!

Ouvindo Raposódias de Rachmaninof

Berlim, 24 de Dezembro de 2013
8h46m
Joaquim Luís Mendes Gomes


desespero quase fatal...

Desespero...

Atiro-me ao mar...
Quero lá saber!...
Há-de haver um peixe ao pé
Que me venha salvar...

Mas fui livre, ao menos uma vez...
Arrisquei a vida.
E a vida não me fugiu.
Ainda fiquei mais preso a ela.
Cada minuto que passa.
Fica-me gravado, com fogo de luz,
Guardado cá dentro,
Como um tesouro dourado,
Que Deus me confiou...

Ouvindo ...

Berlim, 23 de Dezembro de 2013
23h14m

Joaquim Luís Mendes Gomes

comboio das boas-festas...

O comboio das Boas-Festas!...


Cada ano,
À mesma hora, apita ao longe.
Aí vem o comboio.
À moda antiga.
Trabalha a carvão.
Vem carregado.
Frente à minha casa,
No meio dum campo.
Faz luar, de lua cheia.

Venho à janela.
Ponho-me a vê-lo.

Muito comprido.

Na primeira,
Toda em damasco,
Candelabros acesos,
Mesas de mogno.
Ali vão meus avós e bisavós.
De barbas brancas,
Sorriso de estrelas.

Jarros de vinho.
Vão sorridentes,
Jogando as cartas.

Digo-lhes adeus e eles respondem...
Um bom Natal...
Até pró ano.

Em segunda, vão os meus pais
E a minha Irmã Delfina.
Todos corados.
Muito bem dispostos.
A jogar às copas
Num dominó...

Me deixam as prendas
Que dão para os netos...
Dizem-me adeus...
Até para o ano...

Depois, em terceira simples,
Os meus amigos todos.

Primeiro, os da escola...
Os do seminário.
Os da guerra santa,
Em cortejo feliz...
Vão libertos.
Deste mundo feroz.
Nenhuma desgraça
Lhes chega a eles...

Às baforadas,
Ali avança.
Sempre a a apitar
Em festa alegre.
--
Não tenhais medo...
Quando vier a vossa hora!...
Há sempre lugar
Nas carruagens!...
Viagem de sonho,
Sempre de graça!...

Berlim, 23 de Dezembro de 2013
15h34m

Joaquim Luís Mendes Gomes