quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

até apeteceria...

Até apeteceria...

Viver é complicado...
A via é sinuosa.
Tanto sobe como se afunda.
Por vezes, é tão estreita.
Como fio de navalha,
Com barrancos de cada lado.

Se não fosse a luz do sol...
Que vem e vai.
Farol do céu,
Durante o dia.

E um mar de estrelas,
Cravejadas como pedras,
Luzindo preciosas,
Nas noites escuras.

Se não fosse a força do sonho,
Que sempre renasce
Até das cinzas,
E incendeia as nossas vidas.

E as prendas de natal,
Nos Dezembros findos,
De cada ano,
Embrulhadas de mil beijos,
Haja muito... haja pouco...
Até apeteceria dizer:
Basta! Assim...viver não!...

Ouvindo Grieg
Berlim, 16 de Janeiro de 2014
7h23m
Joaquim Luís Mendes Gomes


paradoxo dos grandes grupos...


Paradoxo dos grandes grupos...

Este mundo
É um mundo de paradoxos.
Em grandes grupos.

Uns vivem na Índia.
Outros na China.
Uns de carro,
Enchem as estradas.
Outros de avião,
Rompendo as nuvens.

Outros nos mares,
Em paquetes a arder.

Uns a rir...
Outros chorando.

Palácios de luz
E casebres de choça.

Grandes banquetes,
De comer à bruta...
Filas de pobres,
Marmitas nas mãos.

Uns que sonham
E os que desesperam.

Uns ufanos...
Outros de crista murcha,
Chorando os tempos idos
Das vacas gordas...

E os ricos
Que nada fizeram,
Senão nascerem ricos.
E os mafarricos
Que gozam à farta!...

Mas todos navegam
No mesmo rio...
E, queiram ou não,
Todos vão dar
Ao mesmo porto!...

Berlim, 15 de Janeiro de 2014
13h29m
Joaquim Luís Mendes Gomes

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

acabei de chegar...

Acabei de chegar...

Duma viagem turbulenta
Dum mar de tormentas,
Num mar de desgraças.

Caravelas de sonhos,
De velas altaneiras,
Esfarrapadas pelo vento.
Perdidas à deriva,
Pelo mar encapelado.

Castelos de granito,
Encastelados sobro o tempo,
Com ameias de glória,
Carcomidas pela erosão,
Do abandono a que os botaram,
Quem agarrou rédeas da nação.

Já não juntas de socorros.
Para os náufragos deste País.
As valetas estão repletas.
E as carretas sempre a chegar.

Com os golpes das baionetas,
Daqueles magarefes mixordeiros
Que enxameiam
Os ministérios,
E as cadeiras beneditinas,
Repletas só de vespas...
Entram esfaimadas,
Tudo devoram que nem bestas...

E , lá adiante, ao pé do Tejo,
Num palácio nobre
De realeza,
Dorme o soba a sono solto...

Ouvindo música de Viena

Berlim, 9 de Janeiro de 2014
10h17m
Joaquim Luís Mendes Gomes


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

varanda dos equívocos...

Varanda dos equívocos...

Minha varanda,
É profunda,
Tem a largura do apartamento
E é virada ao polo norte.

Nela me amesento.
Depois do almoço.
Uma cadeira acolchoada,
O meu cachimbo
E um cálice de uísque.

Cubro os joelhos com uma manta.
E o vento de gelo,
Que me serve de frigorífico,
Brinda meu rosto,
Com lufadas de ar fresco.

À minha frente,
Incessante, de manhã
À noite,
Passa um cortejo.
De carros e autocarros.

Meu pensamento voa
Como o fumo branco
Do meu cachimbo.

Através das árvores nuas,
Outro cortejo passava,
Em marcha lenta.

Era o cortejo translúcido
Dos meus equívocos.

Deus, na sua sabedoria infinita,
Criou o homem e a mulher.
Como seres diferentes.
E não clones.

Destinados a serem um só,
Em complemento.
Cada um com sua forma...

Forçá-los a serem iguais
Dá asneira certa,
Como dois mais dois
São quatro.

 Nem o homem, por mais que queira,
Pode ser mulher,
Nem a mulher pode fazer de homem.

Se o impõem...é a desgraça.
Cai o carmo e a trindade...
Não há bruxo nem curandeiro
Que do branco
Faça preto...

É preciso respeitar e aceitar a natureza,
Para que acabem de vez todos os equívocos!

Foi a lição brilhante da minha varanda...

Ouvindo Brendan Perry

Berlim, 8 de Janeiro de 2014
14h35m
Joaquim Luís Mendes Gomes




vale de trevas...


Vale das trevas...

Nem que vá sozinho,
pela escuridão da madrugada,
Preciso de subir lá acima.
Sinto fome de luz
e da amplidão do céu.

Estou cansado e perdido
No emaranhado de caminhos,
Tenebrosos, cá do vale.

É carregado o nevoeiro.
Nem os malmequeres silvestres
Ou o fulgor dócil
Dos girassóis me adoçam o amargor
Destes meus olhos.

Parece morto este ar sem ventania.
Toda a chuva que cai do céu,
Escorre encosta abaixo,
Vem cá dar como a uma valeta.

Os dias acesos parecem noite
E minha alma quase fenece asfixiada.

Vou subir...subir...
Montanha fora,
Até que as forças me desfaleçam.

Mas ficarei em paz
E radiante,
Quando vir nascer o sol,
Muito ao longe,
No horizonte...

Ouvindo Grieg

Berlim, 8 de Janeiro de 2014
6h55m
Joaquim Luís Mendes Gomes



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

clamor supremo...

Clamor supremo...


A quem diriges tu, Cohen, essa voz profunda,
Num hino tão lindo de louvor?...

Tanta beleza...tanto calor humano...
Em acordes timbrados de vozes
D’homem e de mulheres.


Uma simbiose feliz.
Que aquece os corações gelados.
Implorando bênçãos
Dum céu cravejado de luz e estrelas.

Bendita hora em criastes
Este hino,
Que me faz rejubilar...
Nesta noite escura
Que me envolve
E cobre de tristeza...


Halleluia!...contigo e essa voz trovão.
Com laivos de sol
E brilho de lua...
Haleluia!...Halleluia! Bendito Cohen
E quem te acompanha ...

Ouvindo Leonardo Cohen...

Berlim, 7 de Janeiro de 2014
11h36m

Joaquim Luís Mendes Gomes 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

combustão dos sexos...


Tonitruante combustão dos sexos...

Nem a gigantesca força da trovoada,
Que tão depressa se acaba.

Nem o fulgor dum vulcão
Dormente há séculos,
Que de repente irrompe em lava.

Nem a tremenda energia atómica
Que desfaz em pó
Uma montanha de aço.

Nem o carvão em chama
Que leva o expresso
Dum extremo ao outro.

Nem o furor do mar
Que tão depressa
Fica tão manso.

Nem a caldeira em chama
Que arrasta um transatlântico
Por esse oceano fora.

Nem o sol que tudo abrasa
Derramando luz
E desfazendo as trevas.

Nada tem a força que prende,
Em fusão total,
Dois corpos em chama
Que o amor uniu,
Para todo o sempre!...

Berlim, 5 de Janeiro de 2014
20h54m
Joaquim Luís Mendes Gomes