sábado, 25 de janeiro de 2014

lei dos contrastes...


A lei dos contrastes...

Berlim...menos nove com sol a brilhar...

Acabei de almoçar,
Num restaurante croata.
Fidalgo e sóbrio,
Moderado na conta.

Comi um shaschilk...
Com pommes frites..
Minha mulher um schnitzel,
Com puré,
À moda de Viena.

Bebemos dois tragos de vinho croata.
Um branco e um tinto.
A seguir, um café com natas de leite.
E um brinde de chocolate,
A enfeitar...
Pagamos o mesmo
Que num restaurante de Mafra.

Viemos para o carro.
Onde esperava meu cão...
A menos nove!...
Bem agasalhado,
Tremendo de gelo.

Aquecemos o carro,
A 25 graus...
E fomos ao bar dos motocas,
Sexagenário de gente a viver em pleno...
( no meu País...uns asilados...
À espera da morte!...)
Beber dois canecos de vinho
A ferver,
Envolvido em rhum!...
Subimos ao céu...
E viemos para casa.
Oásis dourado,
De sol a reinar...
Assim se vive em Berlim!...

Berlim, 25 de Janeiro de 2014
14h29m
Joaquim Luís Mendes Gomes

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

peguei em mim...


Peguei em mim...

Tal como estou,
Desalinhado e triste,
Não me importo com nada.
Se chove.
Se neva.
Se faz dia de sol brilhante.

Tal como vim ao mundo,
Choro.
Impotente.
Para mudar seja o que for.

Desfaleci...
Perante esta névoa
De negrume que paira no mundo,

O homem, na sua voragem,
Convenceu-se que é dono e senhor,
Perdeu seu rumo,
Está a dar cabo de tudo...

Que belo que seria este mundo,
Se reinasse o amor!...

Ouvindo Lang Lang

Berlim, 25 de Janeiro de 2014

Joaquim Luís Mendes Gomes
.

irmandade dos corvos...


Irmandade dos corvos...

Da minha varanda,
Presenceio a vida dos corvos.
Duas famílias.
Com uns quatro elementos. Cada.

Vivem no plano mais alto
da casa das máquinas.
Em cima dum prédio.

Dali saem a horas,
Cada um para seu lado,
Pelas manhãs.

Com porte altivo,
Voam em raides.
Pouco depois,
Trazem nos bicos,
Pedaços do chão.
Que prestam para eles.

Poisam onde querem.
Na cista das árvores,
Em cima dos postes.
Aos pic-nics.

Ali está um.
Um grande naco
Igual à cabeça.
Poisou-o no poste.
Mirou em redor.
Vibrou-lhe dois golpes
Partiu-o em dois.
Pegou no primeiro,
Abanou a cabeça,
Ficou consolado.

Aparece um amigo.
Um candidato, sem esforço...
Não sei o que ouviu
Desatou a subir.

E o outro sorriu:
- À minha custa....
isso é que não!...

Berlim, 24 de Janeiro de 2014
9h39m
Joaquim Luís Mendes Gomes


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

todas as cartas devolvidas...


As minhas cartas devolvidas...

Tenho na minha estante um volume grosso,
Com todas as cartas que escrevi
E vieram de volta,
Com falta de selo...

Percorrem toda a minha vida...
São dezenas de anos ali descritas.

Pus-me a lê-las, uma a uma.
E revivi todo o meu passado.
No fundo, semelhante
Ao de cada um de nós.

A primeira, a mais velhinha,
Foi endereçada a todos os
Que me viram nascer.

A senhora Maria “milagra”...
Era assim conhecida.
Com uns sessenta anos,
Rosto enrugado,
Pelos doze filhos que tinha criado,
A pão e caldo,
E se entregava,
De alma e coração,
A assistir
Todos os nascimentos,
Que aconteciam pela freguesia...

Foi ela,
A quem, depois, eu chamava avó,
Primeiro,
Me desligou da Mãe...
Para viver por mim...
E ,cuidadosamente,
Me lavou todinho,
Na água morninha,
Dum alguidar de barro,
Enquanto eu lagia...lagia...
De cansaço e susto.

Me depositou nos braços ternos
Da minha Mãe...
Só me calei com a primeira mamada!...
e fiquei a dormir...como um anjinho.

Ouvindo Smetana

Berlim, 24 de Janeiro de 2014
6h58m
Joaquim Luís Mendes Gomes

fogueteiro de paz...

Fogueteiro da paz...

Encho meus cartuchos
Com versos
De letras de todas cores.
Umas vermelhas, outras azuis...
Preto e cinzento.

Chego-lhes o fogo
E lanço-os ao vento...
Silenciosamente,
Sobem no céu.

Estrelejam...e brilham
Como estrelas cadentes.

Desaparecem na noite
E fico absorto...
Olhando o escuro,
Com fome de luz.

Esperando que os olhos mais tristes,
‘Inda que,
Por breves momentos,
Se consolem de paz...

Ouvindo Bach

Berlim, 23 de Janeiro de 2014
20h00m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

torrada de pão com manteiga...


Torrada, de pão com manteiga...

Quem o quisesse derrubar,
Bastava  pôr-lhe à frente,
Uma torradinha,
Bem quente,
Um galão a tender para o escuro,
A seguir um pastel de nata,
Também crestadinho,
Numa mesa de café,
Ali no centro da vila.

O resto ficava por sua conta.
A mesa redonda,
À volta enchia de amigos,
Contentes.

Suas histórias,
Sempre vivas,
Tinham graça,
E interesse.

As horas, ridentes,
Corriam frementes,
E o almoço chegava.
Até ao outro dia.

Ia para casa
E de tarde,
Escrevia...escrevia...
Era poeta...
De sonhos.
Ainda sonhava com o céu
E a brisa do mar...

Era um homem feliz!...
‘Inda o é, graças a Deus!...

Ouvindo Grieg

Berlim, 23 de Janeiro de 2014
7h39
Joaquim Luís Mendes Gomes








segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

criação da Terra...


Criação da Terra...

Houve um Ser,
Ninguém sabe
Quando e como
Nem o porquê.

Se lembrou de dar ser
À Terra.
Uma arca gigante,
Navegando à solta!

Como dossel,
Um universo infinito.
Cravejado de estrelas,
Muitas galáxias.
Girando em órbita,
Com rigor matemático.

Acendeu-lhe um sol,
Ardendo em fogo,
Para a aquecer, de dia.
E uma lua fria e brilhante,
Para lhe iluminar a noite.

E compô-la, assim:
A maior parte em água,
Para espelhar d’azul
E outra, de matéria bem viva,
Mas parecendo bem morta.

Vestiu-a de vento,
E pô-la no céu,
Como ave a voar.

Encheu-a de plantas,
De caules gigantes,
Bem presos ao chão,
Para não caírem.

Cobriu-as de folhas,
Para respirarem o ar.

E deu-lhes raízes
E deu-lhes flores
E também os frutos,
Para serem perenes,
E, também, iguais.

Criou animais,
De todos os tamanhos,
Em escala infinita.
Em várias ordens.
Uns invisíveis,
Outros,
Elefantes.
Baleias.
Muitos menores.

Denominador comum:

Um sopro de vida oculta,
Com força inscrita.
Capaz de criar,
Sentir e sofrer.
Na terra e no mar.

E, para culminar sua ideia,
De artista,
Sem par,
Uma obra-prima:

Com dois bocadinhos de barro,
Tirados da terra,
À sua imagem,
Modelou-lhes as formas,
Soprou-lhes a vida,
Com força imortal,
Homem-Mulher...
Fê-los
Donos daTerra,
Capazes de amar.

Ouvindo Chopin

Berlim, 21 de Janeiro de 2014
7h45m
Joaquim Luís Mendes Gomes