quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

novelo de lã...


Novelo de lã...

A vida de cada um de nós
É um lindo novelo de lã,
De muitas cores...
Não lhe sabemos o comprimento.

Dá para fazer tantas coisas lindas.
Camisolas, meias e outras vestes,
Umas obras primas...
Que só as mãos das Mães
Sabem fazer com tanto amor.

Por vezes, razões infindas,
O novelo lá cai ao chão...
Ensarilha-se...
E, se aparece um gato travesso?...
É o fim do mundo!
Para o novelo e prás roupinhas.
Lá vai tudo ao charco...

Apesar de tudo, se for só sarilho,
Nunca será o fim...

Basta paciência
E, mãos teimosas,
Que não desistam.
Olhos acesos à melhor saída,
Nunca um beco.
Onde só há novelos...
Sem salvação.

Ouvindo Brendan Perry...Sol de Inverno

Berlim, 31 de Janeiro de 2014
6h48m
Joaquim Luís Mendes Gomes



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

viver em pleno...


Viver em pleno...mesmo com lobos

É tão curta a vida.
Nem um só momento
Deve ser desperdiçado.
A fazer bem o que aprendemos
E sabemos fazer.

Cada um tem um dom.
O dom de viver.
Logo ao nascer.
Temos cabeça pensante,
Tronco erguido
E membros,
Que sabem falar
E fazer
Numa linguagem precisa
O que brilha cá dentro.

Não haja angústias...
Basta tentar, insistir
E esperar pela hora.
Estejamos atentos.

Também é preciso ter sorte
Com o terreno onde se nasce,
Como a semente que se lança.
Há-os agrestes,
Com pedras,
Cheios de espinhos...

Há-os tão férteis,
Com água e com sol,
Onde a semente,
Que cai,
Rende um cento
Por uma...

Tudo está escrito
E inscrito,
No segredo dos deuses...
Arregacemos as mãos...
Estejamos atentos.

Ouvindo Hélène Grimaud, que vive com lobos...

Berlim, 30 de Janeiro- menos sete graus- de 2014
6h39m
Joaquim Luís Mendes Gomes


fascínio da Terra...


O fascínio da Terra

Nem os quilómetros de mar,
Brincando esquecido às ondas,
Separam os continentes,
Longínquos.

De ambos os lados,
Vicejam florestas,
Correm os rios, à solta,
E há fontes eternas de água
Que jorram do seio da terra.

Brotam sementes,
De todos os tipos.
Florescem flores
Com cores diferentes.

Vestindo de belo,
Campos e vales
Com o fulgor
E a chama da vida.

Há punhados de aldeias,
Dispersas,
Com casas ridentes
E os olhos brilhantes
Mirando horizontes,
Onde habitam as estrelas perdidas.

Há perfumes sem cor
Que brotam incessantes
De vulcões que não se cansam
A arder.

 Há sonhos de rainhas e príncipes
Que nunca chegaram a reis.

Há braços abertos
À espera de abraços.
Há estilhaços de dor
De feridas abertas
Que a saudade deixou...
Tudo isto é que faz
O fascínio da Terra.

Ouvindo Casta Diva por Monsserrat Caballé

Berlim, 29 de Janeiro de 2014
Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

sorte de pássaro...


A sorte dum pássaro...


Numa gaiola cerrada.
Batendo as asas...
Esvoaçando às voltas...
Aturdido.
Contra arames farpados
E traves.
Sangrando.

Nasceu para voar.

Tinha toda a liberdade do mundo.
Com serras e mares.
Campos e vales.
Florestas e bosques.
Uma teia de rios.
Praias douradas
E sol a brilhar.

Tem génio nas mentes
Dum povo com lendas,
Gloriosas numa história.
De séculos!...

Eis que uns badamecos,
Piores que piratas,
Com falsas promessas,
altas traições...
O amarraram de laços.

Vendaram-lhe os olhos.
Quase cegaram...
Com fumo e poeira
Fabricados lá fora,
Roubaram-lhe tudo.

O passado...
O sonho
E a esperança...

E todos ufanos,
Brindando pimpões...

O condenaram à morte,
Nesta gaiola cerrada...
Sem ninguém que o salve!

Berlim, 29 de Janeiro de 2014
7h31m
Joaquim Luís Mendes Gomes



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

atirei-me ao mar...


Deitei-me ao mar ...de olhos fechados


Andava perdido na areia da praias,
Olhos para o chão,
Alheio ao infinito do céu
E azul do mar.

 Sentia perfumes de sonho,
sem perceber donde vinham.
Se vinham da serra
Ou do mar...
Inebriavam-me tanto
Quase dormia de encanto.
Sem nada fazer.
 Caminhava....caminhava...
Calado...fechado em mim,
Sem cuidar no tempo e na vida que corre,
O presente passou
Só resta o futuro.
O passado morreu.

De repente, um clarão me assombrou...
Aturdido, desatei a correr
Voltado para o mar...
Uma onda gigante
Pegou-me ao colo,
E levou-me tão longe,
Para uma ilha de encanto,
Onde fiquei encantado,
Morando, sorvendo o resto dos dias
Que a vida de sol
Me ainda vai dar.

Olhos no azul do céu...
Os pés bem firmes no chão.

Ouvindo André Rieu e Padre Abrahan

Berlin, 28 de Janeiro de 2014
7h55m
Joaquim Luís Mendes Gomes


do nosso filho...

Mais uma maravilha sem contar...

Abri a caixa do correio. Um postal ilustrado.Nú. Uma fotografia de Einstein vestido de traje habitual. Umas calças de cotim, sem vinco. Uma pobre camisola desbotada, por cima duma camisa com os primeiros botões do pescoço, desabotoados. O mesmo rosto refilão e bigode retorcido. O olhar fundo e arguto iluminado que toda a gente lhe reconhece. O cabelo fino e grisalho desalinhado. De pé, como quem se deixa fotografar.
Por trás, em letras miudinhas a ocupar toda a página, vinha a mensagem do nosso Luís, recém admitido na Rols-Royce de Berlin, como engenheiro investigador.

Só nós o sabíamos, porque lhe conhecemos bem a letra e o seu discurso simpes, claro e surpreendente. Remetente não tinha e destinatário, apareciam ao fundo num recanto inclinado, que ele mesmo traçou, apenas com o nome de "padre e madre" seguido da rua e nº de porta. Mais nada.

O carteiro levou um vinte na pauta, por não poder dar-lhe mais. A sua astúcia e profissionalismo mereceram-no. Para além da bruta gargalhada que lhe rebentou, muito provavelmente, ao lidar com o fenómeno...

Mafra, 7 de Março de 2011, 11h32m
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domingo, 26 de janeiro de 2014

os escaparates...


Os escaparates daquela praça redonda...

Passei anos a fio a contornar aquela praça redonda,
Ao meio, um craveiro de flores,
Por baixo, passa o canal,
Enquanto carros e pessoas,
Giram à volta...
Lá iam e ‘inda vão,
Nas suas vidas.

Havia vitrinas.
Havia esplanadas com cadeiras.
Havia esquinas de bancos,
Sempre à fartura,
Havia montras cheias
De sapatos e carteiras de senhora.

E uma ladeira que subia,
Onde cheirava a ovos moles.
Nas paredes, bem coladas,
Havia janelas, falsas,
Que não davam para dentro.
Só para fora...

Mesmo ao nível dos olhos
De quem passava.

Quem quisesse evitá-las,
Podia.
Bastava não descer o carreiro estreito,
Que voltava a subir,
Ao pé doutra montra de revistas...

Era conforme a disposição.
Mais alegre e optimista.
Mais soturna ou enevoada.
Ou saudosista...

Era a vitrina onde apareciam
Rostos de caras tão bem conhecidas,
Que a lei da vida dissipara...

- Olha o doutor!...Era tão novo!...
Um pouco vaidoso e convencido...
Lá bem no fundo... boa pessoa...
Deus o tenha em bom lugar!...

- Olha aquela! Passava a vida a cirandar,
Avenida abaixo...avenida acima...
Tão bem arranjada!...Era fidalga!...
Era dona duma grande salina!...
Descanse em paz!...

-
-olha este! O governador civil!...
Como governava tão bem!...
Não fazia mal a uma mosca...
Desde que não picasse...
Muita paz à sua alma...
Se ele a tinha!...

E, eu, cá ia indo na minha rotina.
Dia a dia, até ao fim.
Qualquer dia, está ali a minha!...
- Só vos peço:
Rezem por mim.
Ao menos, uma Avé-Maria!...

Ouvindo Gounod

Berlim, 27 de Janeiro de 2014
8h30m
Joaquim Luís Mendes Gomes