sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

oração da noite...


Oração da noite...

Depois do jantar,
Vou prá varanda orar...
Meu pensamento,
Encarcerado numa gaiola,
Vai à solta...
Como um balão.

Sobe no vento.
Vai todo contente.
Fico a mirá-lo,
Fumando cachimbo.
Bebendo uísque.

E  bate asas asas,
Ri-se para mim.

Fito as estrelas.
Fito a lua,
Banhada em luar.
 Meu pensamento
Se desprende
Em oração
e vai como balão em chama.
Pelo céu a arder.

Para onde irá ele?
Seguirá a norte?
Seguirá a oeste?

Vai-me acenando,
Todo feliz,
Com a liberdade do cair da noite.

Brilham as estrelas.
Brilha o luar.
E ele lá vai...
Em sono de sonho.
E vai subindo
Todo contente,
ao sabor do vento...
vulcão em chama.
O negrume da noite
Não consegue apagar.

Passa os Alpes
E os Pirinéus.
Passa o Atlântico.
Foi para o Brasil.

Segue Cabral
Ao Porto Seguro,
Descobre o Brasil.
Fica encantado.
Suas palmeiras.
Um lago azul.
Ninfas de sonho,
Se banhando ao sol.

Mete conversa com os nativos.
Dão-lhe guarida.
Fica encantado.
Põe-se a dormir.
Sonha em voltar.
Que pesadelo.
Prefere ficar...
À borda do mar.
Onde é feliz!...

Ouvindo Debussy..

Berlim, 14 de Fevereiro de 2014
21h46 m.
Joaquim Luís Mendes Gomes


largo da feira....


Largo da feira...

Ficou deserto o largo da feira.
Estava cheio de gado.
Vacas leiteiras.
Bois barrozãs.

Muitas galinhas
E muitos capões.

Tendas de pano.
Cordas de amarras.
Cavilhas no chão.

O vinho escorreu.
Havia sardinhas
E broa de milho.
Havia cavacas.
E até pão-de-ló.

Vestidinhos de chita.
Ainda não havia ciganos,
Nem casas de xinos...
Tudo era nosso.
Fruto do campo.
E do nosso suor.

Até balancés,
Com fantoches
Aos murros e às cabeçadas.
Tudo passou.

Ficou tão vazia...
A praça da feira,
Por onde passava a alegria,
Com vinho da pipa
E aguadeiros ao copo...
Com sol a brilhar!

Ouvindo Amélie...
Berlim, 14 de Fevereiro de 2014
Joaquim Luís Mendes Gomes



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

valsas da madrugada....


Valsas da madrugada...

Queria rodopiar
como um pião,
À volta da lua,
Ver-lhe as fases,
Antes delas nascerem,
Como são....e como se fazem...

Ver a combustão do sol.
Onde busca ele tanta lenha,
Para acender e queimar,
Ao nascer de cada aurora...

E ver nascer um rio,
Naquele pontinho exacto,
Onde começa...

Já não é gota,
É um fio em movimento,
Entre o cume das fragas
E as areias que teve de afastar,
Para entrar,
De braços abertos,
Por vezes, com muitos ramos,
Pelo mar dentro.

Quero ver os pastores dormindo
Nas suas cabanas toscas,
Ao pé de suas ovelhas.
A abrirem os olhos,
Dum sonho com estrelas,
Que tão bem conhecem....
Suas companheiras,
Mais as nuvens brancas,
Dançarinas,
Que jogam com ele,
Ao esconde-esconde...
Sem se cansarem,
Nem se zangarem,
Uma só vez,
Amantes da vida em paz...

Quero ver onde nascem as trovoadas,
E se forjam aqueles trovões,
De ferro em brasa,
Esparzindo urros de estarrecer.

E, no fim,
Lá muito longe,
Ir à fonte das horas,
Ao santuário santo,
Onde se tece
O Amor,
o tempo
E a eternidade!...

Ouvindo Amélie...uma vez mais, manhã de cinza fria, nascendo...

Berlim, 14 de Fevereiro de 2014
7h14m
Joaquim Luís Mendes Gomes


valsas da madrugada...


Valsas da madrugada...

Queria rodopiar
como um pião,
À volta da lua,
Ver-lhe as fases,
Antes delas nascerem,
Como são....e como se fazem...

Ver a combustão do sol.
Onde busca ele tanta lenha,
Para acender e queimar,
Ao nascer de cada aurora...

E ver nascer um rio,
Naquele pontinho exacto,
Onde começa...

Já não é gota,
É um fio em movimento,
Entre o cume das fragas
E as areias que teve de afastar,
Para entrar,
De braços abertos,
Por vezes, com muitos ramos,
Pelo mar dentro.

Quero ver os pastores dormindo
Nas suas cabanas toscas,
Ao pé de suas ovelhas.
A abrirem os olhos,
Dum sonho com estrelas,
Que tão bem conhecem....
Suas companheiras,
Mais as nuvens brancas,
Dançarinas,
Que jogam com ele,
Ao esconde-esconde...
Sem se cansarem,
Nem se zangarem,
Uma só vez,
Amantes da vida em paz...

Quero ver onde nascem as trovoadas,
E se forjam aqueles trovões,
De ferro em brasa,
Esparzindo urros de estarrecer.

E, no fim,
Lá muito longe,
Ir à fonte das horas,
Ao santuário santo,
Onde se tece
O Amor,
o tempo
E a eternidade!...

Ouvindo Amélie...uma vez mais, manhã de cinza fria, nascendo...

Berlim, 14 de Fevereiro de 2014
7h14m
Joaquim Luís Mendes Gomes


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

assim emergem gigantes...


Assim nascem e crescem os gigantes...


É com pedrinhas de areia
Que se elevam os monumentos,
Na argamassa das estruturas,

São mãos de cinco dedos
Que tecem torres altas.
Embora,
Como castelos de areia
Que uma simples lufada
De mar em fúria
Põe no chão.

São formigas,
Incansáveis,
E minúsculas,
Em silêncio,
Pelos carreiros do monte,
Que erguem montanhas firmes,
De bagas-bagas,
Plenas de vida,
Em formigueiro,
Mais que a Índia...
Como arquitectas mais exímias,
Que os egípcios
Do deserto,
Suas pirâmides,
Tão estáticas,
Só de mortos...

Foi nos claustros escondidos,
Do centro oculto dos mosteiros,
Que se elevaram hinos,
De louvor ao Criador,
Pela criação da Europa,
Com o génio expansionista beneditino...
Dos Urais até extremo ocidental.

É com continhas minúsculas
Que se ligam aqueles rosários,
Que trazem a bênção celestial
A toda a Terra
Pela maternal mão
Da Mãe de Deus
Que também é nossa!...

Ouvindo Leonard Cohen

Berlim, 13 de Fevereiro de 2014
7h9m
Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

gostava de ser pastor...

Gostava de ser pastor...


Como foram os meus avós maternos.
Um casalinho novo,
Largaram das cercanias altas de Viseu
E, não sei porquê,
Com o seu criadito,
José,
Vieram instalar-se,
Nas encostas verdes,
Do monte de Santa Quitéria,
Sobranceiro às terras benditas
Que abundam em Felgueiras.

Teria o meu rebanho
De cabras e de ovelhas.
Sairia pela madrugada,
E, logo ao raiar da aurora,
Deixava-as em liberdade,
Seguir sua vida,
Entre as urzes e as giestas.

E eu, com o meu cajado,
Ficaria em contemplação.
Meditando a vida
E seus porquês...
Do começo até ao fim.
Contaria todas estrelas.
Beberia do luar.
E quando o sol nascesse,
Louvaria o Criador
Por aquela vida bela
Que me deu.

E na cadeia dos antepassados,
Um por um,
Que ma trouxeram até mim.

Bendita seja o Criador!...
Só me faltou nascer ao pé do mar.

Ouvindo Smetana

Berlim, 12 de Fevereiro de 2014
6h24m
Joaquim Luís Mendes Gomes


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

cruzamento das duas estradas...


O cruzamento das duas estradas...

Frente à minha varanda,
Passam duas estradas.
Sempre cheias,
De madrugada a madrugada.
Dois cortejos intensos.
Num vai-e-vém. Constante.
Dão-se tão bem!...
Num pára-arranca,
O semáforo manda.

Uns de fora,
Outros de dentro.
Uns do sul,
Outros do centro.
O fervilhar da vida,
Intensa,
Em movimento.

A ela vou, depois do meu jantar.
Bebo a paz das baforadas quentes
Do meu cachimbo.
E do meu uísque.

Observo e sonho.

São dois cortejos
De gente viva,
Igual a mim.
Que ri e chora.
Suspira e sonha.
Como eu choro e rio.

Conforme o vento.
Conforme o tempo.

Daqui eu vejo,
Olhando bem longe.
Nuvens que passam,
No seu destino.

Levam no ventre tantas sementes.
Num cortejo livre.
Vivem do mar
Que as sustenta.

Transformam em pão,
Por arte mágica.
A verdura dos campos.
Vestem as serras
De tule e branco.

Enquanto vivo...
E me alimento.

Ouvindo Smetana e outros


Berlim, 10 de Fevereiro de 2014
20h28m
Joaquim Luís Mendes Gomes