terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

ao ventre da terra...

No ventre da Terra...

Cansado das agruras do sol, 
Da chuva e do vento,
Entrei na caverna
E fui á procura
Do ventre da Terra,
Sedento de amor.

Abri os meus olhos
À luz do meu sonho,

E fui caminhando encantado,
Umas vezes, voando,

Outras dançando,
Mesmo sem estrelas,
Brilhando no céu.

Só o silêncio e a paz,
Vestidos de luz e luar,
Me iluminavam o caminho.

Por escarpas, gigantes,
Ravinas, sem fim,
Refulgentes de cores,
Que nunca eu vira...
Ou sonhara.

Uma sinfonia de sons,
Em branda doçura,
Brotavam d’algures,

Não era de anjos,
Nem clarins,

Entoavam louvores
Ao Senhor das cavernas.

Foi tal a magia,
Me lembrei encantado
Das horas sem fim,
De paz e amor,
Que eu vivi embalado,
No ventre da Mãe!...

Ouvindo Avé Maria, por Roberto Carlos E Pavaroti
Mafra, 26 de Fevereiro de 2014
6h22m
Joaquim Luís Mendes Gomes

medo das cavernas...

Medo das cavernas...

Mal assomamos à dignidade de sermos homem,
Sentimos a fome,
Sentimos o frio e a sede.
Procurar um abrigo...
Onde?

Não havia nada.
Só o chão pedregoso
Ou enlameado.

Fez-nos andar...andar...
Subir...descer...
Quem nunca sai do lugar,
Fica pior.

Até que, nas encostas das montanhas,
Viram fendas negras,
Onde não entrava o sol.

Entre o medo e a curiosidade,
Foram avançando...
O mais que puderam.

Uma coisa foi certa,
Pelo menos, davam para abrigo
E serviam de poiso
Para a luta da vida.
Tudo começou das cavernas.

Pelo engenho aceso
Em contínua combustão...
Desde o nada...
Hoje a Terra é o que é.
Onde o homem parece rei.
Mas com muito medo
Dos negrumes
De cavernas...

Mafra, 25 de Fevereiro de 2014
8h4m
Joaquim Luís Mendes Gomes


sábado, 22 de fevereiro de 2014

casino da poesia...

Casino da Poesia...

Joguei toda a minha fortuna
No casino da poesia...
Como um louco....um viciado...
Tudo joguei.

Sem ela não podia viver.
Senti-me seco e árido.
Desesperado.
Fui ao meu coração
E despejei num só lanço,
Tudo na mesa...
Cerrei os olhos.
Seja o que o Destino quiser.

A roda andou.
Andou.
Cremalheiras de aço cortante,
Frio e desalmadas,
Cortaram-me a sorte em duas partes.
Ou tudo ou nada!...

Fechou-se a luz.
Fechou-se o céu...

Aterrorizado, abri meus olhos,
Mal ela parou...
Seria meu fim de tudo.

Ó meu bom Destino!...

Tudo eu ganhei...
Uma vez mais a tua presença real
Esteve comigo e me valeu!...

Ouvindo Hélène Grimaud, tocando Bach

Golfo de Roses, Costa Brava, hotel Ramblamar,
23 de Fevereiro de 2014- 4h56m
Joaquim Luís Mendes Gomes



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

arremesso ao vento...

Arremesso ao vento...

Meus negrumes do passado
E do presente...
Eu arremesso ao vento,
Frente ao mar.

Quero fiquem sepultados,
Nas profundezas,
Para todo o sempre.

Quero renovar tudo em mim.
Mudar minha mobília.
Minha cozinha.
Minha varanda
E o meu jardim.

Vou vestir um fato novo.
Vou sair por esse mundo,
À procura da paz
Que me está a fugir.

Preciso viver cada segundo,
Em plenitude.
Bem orientado,
Virado para o sol...

Quero deixar crescer,
Em terra lavrada,
Outra semente...de alegria
Que dure sempre.

Sinto esperança em mim
E no meu destino.
Se vim ao mundo,
Foi com um bom fim.
E esse me faz correr.
Nem que seja
Contra o próprio vento.

Ouvindo Brendan Perry
Berlim, 20 de Fevereiro de 2014
5h47m

Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

sargaço na praia...

Sargaço da praia...

Esta manhã,
Há palha verde na praia.
Ouve festa e arraial,
No meio do mar.
Estralejaram foguetes.
Caíram as canas.

Tombaram cabeças.
E em molhos de palha,
Se cobrem as areias da praia.

Parecem mortalha.
Bigodes defumados de verde.
Repousam aos montes,
Embrulhados de espuma.

As gaivotas vasculham famintas.
Pode ser que algum peixe
Lá esteja.

E as ondas, sem conta,
Já não lhes ligam nenhuma...

Chegam os sargaceiros do mar.
Querem adubo do mar...
Vão enterrá-las na horta.
Até de novo brotarem.
Cebolas, alfaces, feijão.
Ó que rico manjar!...
Da seara presente,
Que vem nas ondas do mar...

Bendita a Mãe-Natureza.
Que benze o mar e a terra.
Com a palha do mar.

Berlim, 18 de Fevereiro de 2014
14h11m

Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

tudo ficará claro..

Tudo irá ficar claro...

Andamos, parece,
Desde que acordamos,
cada manhã,
para mais um dia, sem sentido.

Tudo está fora do sítio.
Onde gostaríamos que estivesse.
Cada passo, parece um grito,
De desespero.
Cada paragem,
Uma estação,
Parada,
Sem comboios a partir.
Tudo ermo...
Afinal, que ando cá a fazer?...

Tanta promessa de futuro.
Tanta vida,
Sem claridade.
Só há sombras,
E não há sol.
Se, ao menos, viesse a chuva,
Para lavar
Tanta ferida,
E o caminho para andar.

Minhas veias estão secas.
Do sangue que se esvaíu.

Mas, cá bem no fundo
Do meu ser,
Há uma chama,
Lamparina,
muito pequena,
bruxuleia,
quase apaga,
acendeu-ma a minha Mãe...
naquela hora triste....
em que morreu.

- “Donde estou,
Para onde vou,
Eu fico a ver-te,
Neste mundo,
Pedindo ao Senhor
Que te dê sempre a Sua mão!”...

Ouvindo Hélène Grimaud , em Bach e Busoni
Berlim, 18 de Fevereiro de 2014
6h21m
Joaquim Luís Mendes Gomes


saudade das águas santas...


Saudade das águas santas...

Sinto tamanha saudade
Das águas da minha infância.

Daquelas enxurradas
Que escorriam frémitas
Pelas valetas,
Ao lado das estradas.

E a das fontes santas,
Que nunca paravam.
Dia e noite, sempre a botar.

Enchiam os cântaros
De água fresquinha,
Para o caldo das couves
Da nossa horta.
 E as chuvas de Março e abril,
Fustigando ao vento.
Batiam as janelas
Da minha casa,
Viradas a norte.

E as de Maio,
Batiam nas tendas.
Mas não conseguiam afugentar
Os que iam à feira!...

E as vergastadas da feira de gado.
As moscas fugiam,
Cheias de medo.

E as orvalhadas do mês de Agosto.
Escorriam das vides,
Sabiam a mosto.

E as trovoadas malucas
Sempre zangadas.
Despejavam granizo,
Como se fossem pedradas.

E aquelas chuvas
Do fim do mundo...
Alagavam os campos.
Pareciam um mar...

Ouvindo a gaita dos Andes

Berlim, 17 de Fevereiro de 2014
19h54m
Joaquim Luís Mendes Gomes