sexta-feira, 7 de março de 2014

as naves do alentejo...

As naves do Alentejo...

Saí de Mafra e fui ver o mar
Nas searas verdes,
Do Alentejo,
 em vez de gaivotas,
Voam cegonhas,
De asas largas,
Ora rentes,
Ora altas,
E moram nas sineiras.

O dia nasceu radioso.
Muito depressa,
Nos vemos deslizando na
Ponte Vasco da Gama.
 Um deslumbramento.
Largo. Quase infinito.

O céu alto nos abraça.
Nos convida a avançar.
O rio tejo se estende
como se fosse um mar.

suas águas refulgem azuis
e reluzentes.
Há barquitos pequenos e solitários,
Pescando.
Não se vê que têm em cima.
Lisboa deslumbrante,
Estendida
Pela encosta suave,
Telhados avermelhados,
Campanários e torres de prédios
Desafiando as alturas.
Um castelo lá em cima
De atalaia aos mouros
Que podem vor do mar...
Um comboio corre em silencio,
Como um verme correndo,
rentinho ao chão,
correndo para o norte.

Há barcos gigantes alapados dispersos,
Mergulhados na água.

Paquetes brancos,
Encostados ao cais.
Esperam seus viageiros
Que foram visitar Lisboa.

Entretanto, atingimos a outra margem.
O começo do Alentejo...
Plano, com a serra escura,
Da arrabida,
lá adiante.
 Vêm planuras vastas.
Com aldeias disseminadas,
Irregularmente.
Casais com suas hortas.
Onde pastam ovelhas,
Por vezes vacas.

E chegam os montados
De pinheiros mansos
De copas largas.
Há sobreiros esparsos
Por entre eles.

Que se vão sobrepondo em número,
À medida em que seguimos.
Voltamos para sul,
Como quem vai para o Algarve.

É o ermo verde,
Num mar de copas.
Aqui um lago pequeno.
E um pequenino ribeiro.

Depois, se abrem de par em par
As lezírias vastas de arroz.
Nas margens do Sado.
Um rio manso que vem do caldeirão...
Vai tão lento.
Não quer chegar ao mar.

Beija Alcácer do Sal.
E suas pontes.
Baloiça seus barcos
Onde se pesca marisco.
E por cima,
Voando aos pares,
Há asas deltas,
De cegonhas livres.

Não são de cá!...
Só passam as férias...

Carregam gravetos...
Do seu tamanho e peso,
Como se fossem cargueiros.
Armam as tendas,
São arquitectas...
Sem terem a escola...
Junto às sineiras.

Ó que palácios!...

Ali criam as crias.
Dali saem de manhazinha.
Mal o sol nasce.


Vasculham tudo.
E comem à farta!

Chegámos a Alcácer!...
Que dor!
Que desilusão!...
Onde havia um largo
Tão atraente,
com ramos de árvores
derramando sombra,
onde alentejanos pacatos,
cansados do campo,
sonhavam suas vidas passadas.
Havia bancos.
Havia vendedeiras de tudo,
Em barracas e tendas.

Agora, o chão é de pedra.
Raparam as árvores
E o sol em brasa, queima!...
Ergueram umas merdas de palha,
Secas, sem vida.
Só o Sado está corre,
Suave e meigo....
Como foi sempre.

Almocei no mesmo restaurante.
Gente diferente.
O mesmo calor...
De antigamente.

Fui ao chinês.
Comprei uma máquina de barbear..
Por metade do preço.
E vim...tão feliz!...

E aqui estou...
Tão consolado...
Vou dormir nas nuvens..
Como se fosse um anjo!

Mafra, 7 de Março de 2014
20h50m
Joaquim Luís Mendes Gomes






quinta-feira, 6 de março de 2014

farois...

Os Faróis ...

Ao longo da costa,
Vista do mar,
Há em pontos evidentes,
Pontos de luz,
Intermitentes,
Sempre a brilhar.

Os mareantes ao longe,
Que caminham no escuro,
Olham...
E sabem
Que a terra está lá.

No oceano da História,
Para trás de Alexandria,
Nos hemisférios da Terra,
Em todos os séculos,
Se acenderam faróis,
Subindo mais alto e profundo,
Perscrutando incansáveis,
Os enigmas de tudo.
Escreveram tratados.
Descobriram cavernas,
Mostraram segredos,
Escondidos aos olhos normais
Que servem de rumo.

No meio das multidões peregrinas,
Que povoaram
E calcorrearam as sendas
Ignotas do mundo,
Surgiram frequentes heróis,
Que tudo fizeram e deram
Pelo bem dos iguais...

Servindo de exemplo
E sustento,
Por amor e desvelo,
Como fazem os Pais.

Sinais evidentes
De que a Humanidade
Não anda ao Deus-dará...
É peregrina no mundo,
Com um porto ao fundo,
Onde não serão precisos faróis,
Para onde teima em chegar.

Acompanhando Pavaroti

Mafra, 7 de Março de 2014
5h47m

Joaquim Luís Mendes Gomes 

quarta-feira, 5 de março de 2014

a vida não é um deserto...

A vida não é um deserto...

Começa normalmente,
Num dia de festa,
Com toda a família
À nossa volta.

Será menino ou menina?...
Era um enigma.
-Seja o Deus quiser!
Quando o progresso ainda
Não dizia...

Depois, vem um pedaço,
Breve,
Em que o mundo é um paraíso.
Toda a atenção de todos,
Recai sobre nossa vida.

Tudo que balbuciamos
Ou fazemos,
Enche de graça
E de sorrisos,
Corações
Que até pareciam inertes.
A começar pelos avós!...
Já não são os pais que foram...
Até batiam!
Têm outros olhos.
E um coração a derreter,
Como o chocolate...
Agora, nem pensar, bater...

E vem a escola.
E a catequese.
Joga-se à bola.
E à patela.
Apanha-se ninhos.
Às escondidas,
Até numa sala,
Com tamanho encanto,
Como se fosse um labirinto...

Recebe-se prendas
E os melhores bocados
São só para a gente.

E quando no corpo tenro,
Começa a crepitar o fogo,
Dão-se beijinhos,
Dão-se abraços,
Mesmo escondidos,
Fazem estremecer,
Sabem a sonho.
E ao raiar da barba
Ou dos seios em flor,
Começa a raiar o sol,
Que nos desponta a chama.

De querer partir para fora
E de ser alguém.

Chovem as surpresas.
Dum mundo avesso...
Onde a lei, às vezes,
É a lei da selva,
Chovem as saudades.
Que fazem doer cá dentro.
Das doçuras passadas,
Que jamais se encontram,
Porque as levou o vento...

Ouvindo Carmen Monarca- Ó mio Bambino Caro

Mafra, 6 de Março de 2014
6h39m
Joaquim Luís Mendes Gomes


segredos dos meus sentidos...

Os segredos dos meus sentidos...

Nas órbitas onde moram
Os meus olhos, guardo segredos.
São só meus.
Vêm de longe.
Viram tanta coisa bela...

As estrelas todas que eucontei
Ao colo de meu Pai..
Que deus tenha em bom lugar.

As constelações do céu.
Tantos desenhos no quadro negro,
Pintado de luar de Agosto...
Ele me apontava
Na soleira da minha casa nova.

O bragal que minha bordou
Para eu levar novinho,
Para o seminário...
Como se fosse um príncipe.

A minha comunhão solene,
Aos dez anitos
Com um fatinho novo
E camisa branca
De popeline!

Minha priminha doce,
Que me mostrou
O amor, furtivamente.

Nunca mais a vi...

Nos meus ouvidos,
Oiço bem vivas
As derradeiras palavras
De minha Mãe,
Na véspera da morte...

E as cantilenas de cor
Tão bem timbradas,
Que minha irmã cantava,
Como se fosse a Amália,
Quando lavava a roupa,
No tanque da rega.

E o perfume das camélias rútilas,
Que cresciam aos montes,
Frente à minha casa.

E o quentinho do ferro de brunir
Que me aquecia os lençóis,
Ao deitar na cama,
No rigor de inverno...

E o gosto das rabanadas,
A escorrer açucar,
Nas vésperas
Dos meus natais.

 E as dores que senti nos pés,
Quando um sapateiro-médico,
Resolveu arrancar-me as unhas,
Que estavam encravadas.

Só eu guardo...em mim
Até ao fim da vida.

Mafra, 5 de Março de 2014
22h50m

Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 4 de março de 2014

meu cavalo branco

O meu cavalo branco...

Fui comprá-lo à feira de Santarém.
Era um ginete arguto e manso.
Olhar brilhante,
Quase falando,
Como gente grande,
Amor à primeira vista.

Trouxe-o para casa.
Vinha-mos ambos de mão dada.
Entrei no quinteiro,
Mostrei-lhe os aposentos.
Muito asseados,
Abrigados do frio,
Virados a sul.
Com luz natural,
E muita palha dourada.

Relinchou de contente.
Uma voz de cavalo,
Doce e timbrada.

Soltei-o no prado,
Com erva.
Deu tantas voltas,
Em arcos voltaicos,
Crinas ao vento,
Apareceu-me a arfar,
Abanando a cabeça,
E patas da frente,
Batendo no ar.

Senti-o feliz.
E amigo.

Agora crescido,
Um corpanzil valente,
Espera por mim,
Cada manhã.
Parece uma criança
Que quer passear e correr.

Salto-lhe para o dorso.
Já com os arreios.

Saímos a galope,
Por barrocas e sendas,
Montes e vales,
Corremos a aldeia,
Saudando quem passa.
- lá vai o “condor”
Com seu patrão!
Parecem voar...de felizes.

Ouvindo Bach por Hélène Grimaud
Mafra, 5 de Março de 2014
6h37m
Joaquim Luís Mendes Gomes

FUJO DA MORTE...

Fujo da morte...

A cavalo da vida,
Vou a galope,
Fujo da morte,
Como o diabo da cruz.

Se a vejo ao longe,
Troco-lhe as voltas.
Escondo-me
E deixo-a passar.
Só depois é que vou.

Só quero viver.
Saborear cada momento de sol,
Alegria a jorrar.
Olhando ao redor.
Na terra, no mar e no céu.

Fujo da dor.
O mais que puder.
Não quero ver ninguém a chorar.

Levanto-me cedo.
Para ver o sol a raiar.
Receber no meu peito
A brisa fresquinha
Que me chega do mar.

E se faço amor,
Voo leve nas nuvens,
Cantando ao vento,
Batendo as asas,
Pássaro de fogo,
Com o peito a arder.

Gosto da música
Das folhas dos bosques,
Dos ramos dançando,
Bailados de cor
Que sabem de cor.

Queria morrer muito tarde,
No alto dum monte,
E ver a morte
Afogada no mar.


Ouvindo Rachmaninov, concerto nº 3, para piano

Mafra, 4 de Março de 2014
22h30m
Joaquim Luís Mendes Gomes


espinha na garganta...

Uma espinha na garganta...


Ando como se,
Trouxesse uma espinha cravada na garganta.
Tenho de viver com ela.
Espetou-se sem eu dar conta.
Numa rica posta
Dum peixe
De que nem sei o nome.

Já fiz tudo ao meu alcance.
Para a esconjurar.
E ela se prende a mim
Como um náufrago,
Perdido no meio do mar.

Tusso e tusso.
Queria voar alto
e seguir para longe,
Mas ela me prende...
Com garras de quem me quer esganar.

Não vê que assim,
Ambos morremos.
A vida passa tão bela e fascinante
À nossa frente.
Porque não se desprende
E deixa livre
E vai ...para fora,
Onde ela queira?...
Maldita hora
Em que comi aquela posta,
Em vez de carne!...

Mafra, 4 de Março de 2014
15h59m
Joaquim Luís Mendes Gomes