segunda-feira, 10 de março de 2014

sedução...

A força da sedução...

Arma de dois gumes,
Tão potente,
Umas vezes com garras,
Outras, ténues fios,
Quase invisíveis,
Em teia, larga,
Reflectindo o sol,
Pintada de arcos-íris.

Ambas seguram,
Ambas prendem.
Para libertarem presas,
Doutras garras, funestas,
Sufocantes. Desgastantes.
Que semeiam a inutilidade.
E consomem.

Ou para embalarem
Nossos passos,
Alegrarem nossos olhos
Pintando o mundo
Às cores, em gradientes,
Que tocam no belo,
Quase infinito,
Acendem talentos,
Inatos,
Que dormiam escondidos,
No fundo da alma.

Suas ondas fazem de mares bailantes,
Onde vagueiam caravelas de sonho,
Prenhes das mais puras fantasias,
Mas, realmente,
Só miragens.

Vibram ao vento,
Fazem silvos,
Tocam piano,
Tão suave,
Embalantes,
Como cordas bambas.
Ou sereias.

Vão-nos cercando,
Ao de longe,
Em arcos largos,
Tantas linhas,
Que se apertam,
Laços brandos,
Fazem festas
Fazem carícias,
Vão tapando todas as frestas,
Ninguém entra
Ninguém sai...
São cadeias.

É preferível o mar largo,
Mesmo com vagas,
Seguindo um rumo,
Bem firme e melhor traçado,
Cruzeiro do sul,
Estrela do norte.
Com amarras presas
A um porto de rochas,
Abrigado dos ventos,
Seguro, mesmo infinito!...

Acompanhando Rimski-Korsakpv: Scherazade no youtube

Mafra, 11 de Março de 20145h53m
Joaquim Luís Mendes Gomes


uivos de lobo...

Uivos de lobo...

Ouvi uivos de lobo, de noite,
Gemendo de frio.
Saí a correr,
com mantas às costas
e um molho de lenha sequinha
e fui ter com eles.

Correram para mim.
De braços abertos.
Orelhas bailando, olhos brilhantes,
Cercaram-me em roda.
Ficamos abraçados,
Quentinhos,
Com fogo e chamas,
Até o dia nascer...

Ouvindo a organista Diana Bish

Mafra, 10 de Março de 2014
16h26m
Joaquim Luís Mendes Gomes


tarde de sol...

Tarde de sol...

Nesta tarde de sol,
atravesso o mar a pé.
Vou como Álvares Cabral, sem rumo,
Procurar ilhas perdidas no mar.

Buscando paragens de de solidão,
Onde o homem nunca tenha chegado.
Com seus ruídos de ferro,
Procuro apenas batuques e o luar da lua,
Com fogueiras, em clarões de fogo,
De lenha e areias de mar.

Quero banhar-me despido.
Eu e as estrelas.
Venham as ninfas perdidas
e fiquemos cantando e bailando.
Livres com fome e sede
De amar...como a natureza nos ama.
Sem regras. Sem trilhos...
Apenas os sulcos da chuva
Que chegam ao mar.

Ouvindo uma organista de sonho, Diana Bish, uma estrela do mar...
Que toca nas catedrais do mundo

Mafra, 10 de Março de 2014

Joaquim Luís Mendes Gomes

pesca milagrosa...

Pesca milagrosa...

Peguei no barco,
Pela noitinha,
e fui para o mar.
Estava tão calmo.
Parecia morto.

Só o motor rugia
E atrás ficava uma cauda
Duma rica princesa.
Fui avançando.
Com os olhos na terra.

E naquele sítio,
Entre as duas estrelas,
São sinaleiras,
Estaquei o barco.

Lancei a âncora.
Estendi as redes
E pus-me à espera.
Baloiçando,
Como menino
No seu pequenino berço.

Veio um golfinho
De olhar brilhante,
Beijar meu barco.

Que bom sinal!
Aqui há pesca...
É só esperar.

E a luz da lua,
Escorria luar,
Enquanto dentro do barco,
Tudo fazia para arranjar espaço.
Tudo dizia, iria ser grossa
Aquela faina...

Puxei a rede.
Tão brandamente,
E o golfinho,
À minha beira,
Sorria contente.
Enquanto o fundo do barco
Se enchia repleto e fresco
Com aquela pesca milagrosa.

Acompanhando Paco de Lúcia, no Aranguês...

Mafra, 10 de Março de 2014
9h9m

Joaquim Luís Mendes Gomes

calções e sapatilhas...

Ponho calções e sapatilhas...

Me ponho a correr, desalmadamente,
Em corta-mato,
Por bosques, campos,
E jardins.
Trepo montes
Alcanço cumes.
Vejo ao longe
E ao fundo.

Respiro fundo e sorvo o ar
Que vem directo
Do mar ao longe.
Minhas veias ficam túrgidas.
Meu coração para um mata-cavalos...
E eu, quanto mais corro,
Mais leve fico.
 O suor escorre em cataratas
Pelo meu corpo abaixo.

Teço o tempo
Em meadas de rio
Que nunca para...
Por vezes, adormece,
Sempre a caminho...
Não descansa enquanto
Não se atira ao mar...

Só me falta uma harpa
Para eu tocar,
Sentado na relva,
À borda do lago.

Ouvindo o tema de “ o piano” de Michael Nyman
Mafra, 10 de Março de 2014
8h41m

Joaquim Luís Mendes Gomes

ponho calções e sapatilhas...

Ponho calções e sapatilhas...

Me ponho a correr, desalmadamente,
Em corta-mato,
Por bosques, campos,
E jardins.
Trepo montes
Alcanço cumes.
Vejo ao longe
E ao fundo.

Respiro fundo e sorvo o ar
Que vem directo
Do mar ao longe.
Minhas veias ficam túrgidas.
Meu coração para um mata-cavalos...
E eu, quanto mais corro,
Mais leve fico.
 O suor escorre em cataratas
Pelo meu corpo abaixo.

Teço o tempo
Em meadas de rio
Que nunca para...
Por vezes, adormece,
Sempre a caminho...
Não descansa enquanto
Não se atira ao mar...

Só me falta uma harpa
Para eu tocar,
Sentado na relva,
À borda do lago.

Ouvindo o tema de “ o piano” de Michael Nyman
Mafra, 10 de Março de 2014
8h41m

Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 9 de março de 2014

cisne albo...

O cisne branco no lago...

Adoro contemplar um cisne branco,
Deslizando na água do lago.

Gracioso. Inquieto.
A cabecita alta,
No alto da sua torre de pescoço,
Nunca pára.
Olhando em frente
E à volta.
Parece que está à espera
De quem o espreita.
Para trás, deixa ondas
Finas
Que em arcos mil,
Se esvaem.

Debicam de onde a onde,
Na água da superfície.
Coitados dos insectos
Que poisem a seu bico!

Nunca grasnam.
Só quando lhe dá
Na real gana...
Para não esquecer...
Ensaiam voos rentes,
E logo poisam de cansados.

Suas patas,
De abas largas,
Caminham pata a pata,
Tão pausadas,
Sob a água,
Como hélices
Dum paquete.

E ali passa sua vida,
Numa festa,
Só bailando,
Sem orquestra...

Mafra, 10 de Março de 2014
7h6m

Joaquim Luís Mendes Gomes