segunda-feira, 17 de março de 2014

casas ilegais...

Casas ilegais...

Será o inferno a maior casa ilegal do mundo?
Durante séculos e séculos,
Foi a ameaça e o azorrague
Para travar as consciências
De fazer o mal,
Para se escolher
Outro caminho.
Nem sempre o bem.

Voam livres os pardais,
Nunca sós,
Quase sempre em bandos.
Se deitam e se levantam.
Vão à vida.
Cuidam de si,
E sentem gosto,
Em erguer seu ninho.

Sem pedir licença.
Recatados.
Sem dar nas vistas.
Gostam das frestas dos telhados.
Enchem de palha seca
Sempre limpa,
O terreiro do sobrado.
Entram e saem,
Sem bater à porta.

Só no ar ou sobre as linhas
Dos telefones,
Ali cantam,
Ali rezam.
Catam as penas.
Ali beijam as suas crias.
Em liberdade.

Não constam
Que os aflijam
Com as chamas de algum inferno.

Mafra, 17 de Março de 2014
8h14m
Joaquim Luís Mendes Gomes


sábado, 15 de março de 2014

enigma da vida...

Enigmático sentido da vida...

São belas as ramagens
e as copas densas
Que ladeiam as bermas
dos caminhos e das estradas,
por passam nossos passos.

Das margens do rio,
Onde flui a nossa vida,
Ora verdes,  amarelas,
floridas,
Com o sol da primavera,
O ardor escaldante de cada estio.
O rigor cortante dos invernos.

A alegria luminosa
Das manhãs da nossa infância,
Num lar de paz e harmonia.
Mesmo com horas mais escuras,
Duma tristeza ou duma dor
Ou ferida,
Que o cuidado e o desvelo
Que se acende e arde à volta
Para curar.

Aquela ânsia de ver crescer,
A alma e o corpo,
Segundo o traço e as linhas naturais,
Inscritas no sangue rubro
Que flui nas nossas veias,
Conforme o jeito e forma
Da nossa cadeia de ancestrais.

Linhas de rosto,
Jeito de ser
Forma de andar
E de dizer que sim ou não,
Há hora agá...
A cor dos olhos,
Tons do cabelo,
Mesma bondade,
Mesma secura...

 Mesma postura
Severa e fina,

-lindo mistério!
- tal e o qual,
O avô ou tia-avó,
Que Deus lá tem.

Como elos entrançados
Duma cadeia,
Ninguém lhe sabe
O começo
E quando acaba.

E quem me diz
Qual será o porquê e o fim
De tudo isto?...
Será bom sabê-lo.

Ouvindo uma melodiosa sequência musical variada a partir do youtube

Mafra, 16 de Março de 2014
5h56m
Joaquim Luís Mendes Gomes



quero serenar...

Tenho de serenar...

Mesmo que haja agitação no mar.
Mesmo que as ondas cubram meu barco.
Corra risco de afundar.

Quero adormecer em paz.
Voltar à calma
Do nascer de cada dia.

Olhando o céu,
Azul ou cinza,
Pisar o chão.
Mesmo com pedras.
Brandas, lisas,
Ou com arestas...

Seguir o meu caminho,
Sem passadas em falso,
Ou vãs miragens.
Só consomem...
E não levam a nenhum lado.

Quero ser quem sou.
Semear o que colhi.

Colher o fruto,
Muito ou pouco,
E partilhar
Por todo o lado.

Ouvindo André Rieu

Mafra, 15 de Março de 2014
21h26m
Joaquim Luís Mendes Gomes


sexta-feira, 14 de março de 2014

atleta para tudo...

Ser atleta...

Atingimos a era
de se ter de ser atleta,
se queremos sobreviver.

Na escola.
Bastava a quarta classe!
Naquelas escolas tão sóbrias,
Só sala e mapas à volta,
Um quadro de ardósia,
Negro. Se escrevia com giz.
Se limpava e, de novo outra vez.

Letras e números. Contas.
Somar e tirar.
Também dividir...
As mais complicadas.
O resto. O quociente.
Os que vão e que não...
Era tudo tão quente.
A mente ficava a brilhar.

As cópias. Um caderno de linhas,
Era um carinho.
Uma pena de bico.
Tinteiro de porcelana,
Branquinho
Onde se molhava o bico.
Primeiro meu nome.
A data...7 de Outubro de 1947!
Tudo começou.
Sempre naquele dia.
Nunca falhava.
Tudo era certo. A geografia.
Caminhos de ferro e rios.
As serras. As terras mais recônditas,
Portugal continental, Insular
E Ultramarino.
Até do Brasil!...
Escrever sem erros!
Era sagrado.
Até 3...
Depois...Ai! A palmatória saltava...
A psicologia dormia...
Pedagogia?...
O bom senso do mestre
Chegava e sobrava.
Saíamos gente capaz. De olhos abertos.
Preparados para a luta
Da vida...
Com harmonia...Respeito
E feliz!...

E hoje?...
Na universidade.
Licenciaturas...
Mestrados...
Tudo comprado...
Exames ao domingo!...
Por encomenda!
A pronto e fiado!...

Chega tudo embalado.
Se carrega o botão.
Fica tudo à frente!...
Mas a cabeça está árida e seca
Como o Seará!...
E é tudo uma treta!?...

Ouvindo André Rieu em Telpelhof...( aeroporto desactivado, no meio de Berlim. Um espaço público, de festa e recreio, permanente, em liberdade total...espectacular!...no youtube

Mafra, 15 de Março de 2014
6h7m

Joaquim Luís Mendes Gomes

lendária da minha infância...

Lendária da minha infância...

Minha Avózinha
Vivia no sopé dum monte.
Um monte santo,
Sobranceiro à vila.

Há uma lenda,
Vem dos romanos.
Uma virgem pura,
Filha dum nobre
Fugiu de casa
Para se guardar a Cristo.
Era cristã!...

O jovem que a queria
A perseguiu
Desde Braga até Margaride.

Como lhe resistiu,
A degolou.
O sangue corria.
Ela cantava.
Glória a Jesus!...

Numa fonte santa,
Se lavou do sangue.
Hoje é uma Santa!
Esta história
Ma contava a a Avó.
E eu cria.

Ali estão as capelinhas,
Que a retratam fieis.

Subia o monte...
Sozinho.
De capela em capela.
Espreitava o portelo
Em ferro e ela sorria.

Assim cresci...sonhando,
Com esse sonho lindo
Para mim verdade!...
É Santa Quitéria!...
Da minha infância.

Mafra, 14 de Março de 2014
15h8m

Joaquim Luís Mendes Gomes

feijoada à transmontana...

Feijoada à transmontana...

Ontem fui a Algés.
Minha mulher foi almoçar com uma velha amiga,
Matar saudades,
pôr as contas em dia.

Eu fui a outro restaurante,
À esquina, na alameda das estátuas.,
Como quem toma o comboio,
O do costume.
Já lá não ia há muito.

Que grande festa,
Recebi dos dois empregados.
Sempre bem aprumados.
Alegria do coração,
Brilhava nos olhos.
Sem réstea de dúvidas.
E eu eu também.

O tempo vai passando
E a vida com eles.

Aquela sala ao fundo,
Tem muitas histórias....
Findo o almoço,
Passei à sala da frente
Que é mais café.
Aí vem gente que vai passando.

Na mesinha ao lado
Sentou-se uma mulher.
Mulata de cor.
Como uns quarenta e tais.
Cararita de fome.

Veio o empregado.
- Uma sopinha, se faz favor!

Num instante veio,
Ressumando a legumes.
Noutro se ficou a ver o fundo
Ao prato.

Fui vendo,
Com o rabo do olho.
Com que satisfação
Ela a comeu!...

Tirou duma carteirinha preta,
Umas moedas,
 pagou, saíu a porta
E foi à vida.
Minutos a seguir.
Chegou uma jovem
De olhos brilhantes,
Quase de vidro.
Sentou-se à mesma mesa.

Frente à janela.

- uma sopinha!---se fafaz favor
Exclamou para o empregado,
Solícito e o mesmo savoir-servir!...

A cara do dono
Que girava intra-balcão
Chispava insatisfação...
Habituado aos velhos tempos
Que não foram há muito...
Sala cheia, sempre a rodar...


A moça comeu...
Com a mesma voragem.
Pagou e se foi também,
Mais sorridente!...

Tudo eu vi...
Quase chorei.
Ai, meu pobre País,
Minha Lisboa nobre!
Como tu estás tão pobre!...

Ouvindo do melhor de Sibellius, no youtube

Mafra, 14 de Março de 20148h 23m

Joaquim Luís Mendes Gomes 

quinta-feira, 13 de março de 2014

o pianista...

O pianista


Fascina-me ver as mãos dum pianista,
Homem ou mulher,
Correndo, ora lentas,
Ora frenéticas,
Sobre as teclas pretas e brancas dum piano
Inerte,
Fazê-lo vibrar tons celestes,
Cheios de cor,
Ora sangrando,
De dor,
Ora sorrindo,
Com tanto fragor,
Só balanceando o corpo,
Num singelo banco,
Seu rosto sereno por fora,
Ardendo em chama
Por dentro,
Só a boca trejeita
E rejeita o silêncio inútil,
Arrancando do ventre,
Tempestades de sons,
Trovões de glória,
Desertos de paz,
E cristais ao sol.

Enchendo uma sala,
Com tamanha emoção,
As horas passam...
Ninguém dá conta.
Todos voando,
D’asas aladas,
Ao sabor do vento.

Trepando escarpas,
Descendo ravinas,
Com tanta fúria,
Como avalanches tremendas.

E no fim,
Repousar em sossego,
Nos braços cansados,
Dum pianista feliz...

Ouvindo Rachmaninoff, concerto nº 3 por Olga Kern, do yotube

Mafra, 13 de Março de 2014
23h13m
Joaquim Luís Mendes Gomes