domingo, 23 de março de 2014

no silêncio das nuvens...

No silêncio das nuvens...

Minha alma navega,
No alto do céu,
Banhada de sol,
Entre a terra e o mar.

Traz e leva
Perfumes de vento,
pintados de cores,
Com matizes raiados
Que brotam do chão.

Cheiram a terra,
Cheiram a mar.
Salpicos de ondas,
Sulcadas de amor.

Ondas de fumo,
Brasas ardendo.
Caiadas de luz,
Vulcões a ferver.
Traços rendados,
Bordados de oiro.
Em crivos de linho,
Secos ao sol.

Janelas abertas,
Cheirando a lar.
Braseiros de sal,
Em medas pintadas de cal.

Bolanhas lavradas,
Nas terras muradas,
À força das pás,
Dos braços e pernas,
Tisnados ao sol.

Pirâmides erguidas,
Escorrendo suor.
Canastas repletas,
Varinas possantes,
Que trazem e levam,
Vezes sem conta,
Saias ao vento,
Seios vibrantes,
Blusas de amor...

Ouvindo Hélène Grimaud,  em adágio de Mozart...

Mafra, 23 de Março de 2014
14h33m
Joaquim Luís Mendes Gomes



faces da lua e da terra...

Faces da lua e da terra...

Os pássaros azuis,
amarelos, doirados,
banhados de luz,
flutuam no ar.

Os peixes, lavados em prata,
no silêncio do mar,
Viajam à solta,
sem quererem voar.

As flores prostradas ao sol,
Abrem as asas
como passarinhos às cores,
Só querem encantar,
Regar de perfume,
Os passos amigos
de quem vai a passar.

As aves canoras
nunca estudaram  de música,
em escola nenhuma,
como anjinhos no céu,
sabem cantar.

Ouvindo “memories” por Suzan Erens, com André Rieu
Mafra, 23 de Março de 2014
8h16m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado, 22 de março de 2014

a caminho da escola...primeiro dia

a caminho da escola...primeiro dia

Teve uma noite agitada.
Estava nervosa.
Amanhã, o seu primeiro dia de escola.

O livro de ler.
Um caderninho de linhas.
Um lápis bem afiado.
Foi seu avô...
Uma borrachinha de duas cores.
Rico cheirinho!...

Um ponteiro e uma ardósia,
Pretinha a luzir.
Para escrever e apagar,
Com um paninho em feltro.
Tudo bem arrumadinho,
Na sacolinha de pano às cores,
Que lhe bordou
A sua avó.

Que lindo vestidinho em chita,
Cor de rosa.
De golinha branca,
E seis botões em linha,
Espreitando à frente.
Breves mangas,
Com enchumacinhos,
Em pregas,
Ao sair dos ombros.

Nos pezitos,
Uns soquetes brancos
Muito bem rendados,
Até ao joelho,
Umas sandalinhas vermelhas,
Com fivela ao lado.

Ali vai ela,
De sacolinha pendente,
A tiracolo.

Olhitos brilhantes,
Num rosto a sorrir.
Um laço vermelho,
Lhe sustem no alto,
Uns cabelitos d’oiro,
Que lhe escorrem suaves,
Até aos ombros.

Já sabe bem o caminho.
Quer ir sózinha.
A senhora professora,
Bem a conhece...
É catequista.

Um beijo à mãe,
Saiu o cancelo
E, dizendo adeus,
Lá foi ela...
Seu primeiro dia de escola.
É minha irmã Delfina!

Ouvindo Maria João Pires tocando Mozart

Mafra, 22 de Março de 2014
8h16m
Joaquim Luís Mendes Gomes

sexta-feira, 21 de março de 2014

as pontes à chuva...

Amarrei meu cavalo leal...

Tudo aceitou,
Com um olhar doce e brando.
Ficou-me esperando.
Paciência de Job.

Viu-me partir
Subindo a encosta do monte,
Onde fui meditar.

Sacudindo as moscas,
Sua cauda dançando,
Brilhando ao sol.
Dizendo adeus,
Seguro que hei-de voltar.

Que amizade tão pura.
Uma bênção de Deus.
Deixei-lhe um molhinho de ervas
Ficou-as comendo,
Os olhos brilhando,
Ficou tão feliz.

Se contenta com pouco.
Nada me exige.
Se sente contente
Comigo às costas.

Nunca uso esporas.
Só lhe faço sinais.
Me entende tão bem.
Vai para onde eu for.

Com tamanha doçura,
Me enterneço de amor,
Ó que amigo ali tenho...
Sempre pronto a servir
Como se fosse seu deus.

Se ouve seu nome,
Abana as orelhas,
Se põe a dançar,
Como se fosse um menino,
À beira do pai...

Meu cavalo amigo,
Sempre gentil.
Tudo me dá.
Basta pedir.

Mafra, 21 de Março de 2014
19h23m

Joaquim Luís Mendes Gomes 

meu cavalo leal...

Amarrei meu cavalo leal...

Tudo aceitou,
Com um olhar doce e brando.
Ficou-me esperando.
Paciência de Job.

Viu-me partir
Subindo a encosta do monte,
Onde fui meditar.

Sacudindo as moscas,
Sua cauda dançando,
Brilhando ao sol.
Dizendo adeus,
Seguro que hei-de voltar.

Que amizade tão pura.
Uma bênção de Deus.
Deixei-lhe um molhinho de ervas
Ficou-as comendo,
Os olhos brilhando,
Ficou tão feliz.

Se contenta com pouco.
Nada me exige.
Se sente contente
Comigo às costas.

Nunca uso esporas.
Só lhe faço sinais.
Me entende tão bem.
Vai para onde eu for.

Com tamanha doçura,
Me enterneço de amor,
Ó que amigo ali tenho...
Sempre pronto a servir
Como se fosse seu deus.

Se ouve seu nome,
Abana as orelhas,
Se põe a dançar,
Como se fosse um menino,
À beira do pai...

Meu cavalo amigo,
Sempre gentil.
Tudo me dá.
Basta pedir.

Mafra, 21 de Março de 2014
19h23m

Joaquim Luís Mendes Gomes 

este mar de Março...

Mar de Março...

Tem sido tão bonançoso para mim,
Este mar de Março!...

Vestido de azul.
Bordado a prata.
Anda tão calmo.
Convidativo.

Chamando por mim,
Para uma volta ao mundo.
- Tem confiança!....
Me garante ele
-Não te faço mal!
Vem em frente!
Vais gostar.

E eu, o olho...com certas reservas.
Me lembro bem
Do que se passou há pouco...
Nas minhas praias.
Tanta dor!

Vou deixar passar e ver.
Até esquecer.
Só depois,
Irei aos Açores,
Paraíso verde,
Que ainda é nosso...
E estes meus olhos
Tanto querem ver.

Me regá-lo a vê-lo,
Cada dia,
Ao pôr-do-sol...

Mas tem de provar
Que me fala a sério!...

Ouvindo Michael Nyemann

Mafra, 21 de Março de 2014
9h4m

Joaquim Luís Mendes Gomes

nunca...esperanças vãs...

Não são esperanças vãs...

Cada homem,
Cada mulher,
E cada ser nasce dum sonho.

É o sonho que nos alimenta
Cada dia ao nascer.
E nos segue de noite,
Dormindo.
Dá cor ao momento que passa.
Faz-nos pensar no passo
Que temos à frente
Para dar.

Pinta-nos a vida,
Como um quadro,
Sem fim.
Há sempre um traço,
Um risco,
Um cheirinho de azul,
E de oiro dourado,
Quando o negro vier.

Faz brilhar nossos olhos
Do choro,
Por dor,
Por saudade
Daquele que foi
E não volta.
E daquele que está a chegar.

Faz-nos maiores do que somos
E gostaríamos de ser.

Um cruzeiro no mar,
À volta do mundo,
Com quem nós amamos.
Batendo as ruas,
Olhando vitrines,
Cheirando perfumes
De outras paragens,
Trazer uma lembrança,
Com linhas e cores,
Diferentes das nossas,
Para cada um dos nossos
Que espera por nós.

Abraçar um amigo de infância,
Que há décadas não vemos.

Erguer uma breve casinha,
Caiada de branco,
Afitada de azuis, amarelos e ocres,
Com um lindo jardim,
Na encosta dum monte,
Virada para o sol e para o mar...

Ouvindo Michael Nyemann

Mafra, 21 de Março de 2014
7h7m
Joaquim Luís Mendes Gomes