terça-feira, 25 de março de 2014

meu terreiro...

O meu terreiro...

Varri meu terreiro amarelado,
De terra barrenta,
À volta da casa,
Voltada a nascente.

Tem canteirinhos ,
Com muros baixinhos,
Feitos de lascas de pedra,
Com muitas flores,
Sempre a luzir.

Fazem ruelas,
Como se fossem colares,
Com pérolas
Que cheiram a sol.

Podei as trepadeiras
Que me enfeitam
De verde,
Às vezes flores,
As ombreiras das portas
E das duas janelas,
Escondem ninhos,
Casinhas de amor,
Das andorinhas
Que estão para chegar.

Colhi as camélias,
Que estavam a murchar,
Com o frio gelado,
Deste inverno sem fim.

Lavei o lago em laje de loisa,
Que um chafariz alimenta,
Mesmo ao centro.
Ficou a esbordar.

Semeei-o de peixes,
Pintados às cores,
Pus-lhe alimento,
Ficaram a bailar.

Sentei-me num banco de pedra,
À volta da mesa redonda,
Pertinho do lago,
Onde costumo ler e escrever.

Leve e sereno,
Expus-me ao sol
Que acabou de nascer
Soltei meu pensamento,
Deixei-o voar
E fiquei-me à espera...

Ouvindo concerto de violino de Sibelius, a partir do you tube
Mafra, 25 de Março de 2014
7h20m

Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 24 de março de 2014

nas margens dum rio...

Nas margens do rio...

Abeirei-me das margens do rio
E pus-me a ver a água a passar.

Havia folhas caídas boiando.
Pedaços de ramos.
Seguindo, em derivas seguidas,
Dum lado para o outro,
Pareciam-se beijando.
Abraçados à sorte
Da morte que os fez desprender
Das árvores sombrias,
Sem sol.

Como famílias sem pão
Para dar aos filhos criados,
Na esperança de vida
Com sol...promessas
Da mãe-natureza.
Umas vezes é mãe.
Outras carrasco!..
Quem me diz o porquê?

Ali vai um cortejo
Sem leme, entregue à sorte,
Seu destino morrer.
Brilharam à luz.
Dançaram ao vento,
Contentes.
Sonhando uma vida imortal.

Presos ao tronco
Grosso e valente.
Abastado de porte.

Bastou uma lufafada mais forte,
Para se partir o raminho,
E aí vieram aos tombos,
Sem ninguém lhes valer.

Tão tristes eles vão.
Fazem chorar.
Adubo serão,
No seio da terra.
Outras sementes virão
Que precisam de pão
Para poderem crescer.

Árvores de fruto.
Caules de milho.
Searas com grão.
Em espigas doiradas
Que secas na eira,
Voltarão a dar pão,
Matando a fome
De quem mora à beira do rio
E precisa comer...

Ouvindo uma Valsa Triste de Sibellius

Mafra, 24 de Março de 2014
15h50m
Joaquim Luís Mendes Gomes


domingo, 23 de março de 2014

auscultar a madrugada...

Os auscultadores da madrugada...


Quando ainda é negro o manto
Que veste a madrugada,
Eu desperto.
Me adestro...naquelas passadas
Que têm de ser dadas,
Para me sentir bem,
Desço as escadas.
Meu canito d’olhitos vivos,
E a cauda a dar a dar,
Companheiro leal,
Incondicional,
De todo o sempre,
Avança à minha frente.
Abro-lhe a portada
E, contente,
Ele vai lá fora.

Puxo o estore.

Dissipou-se, entretanto,
O véu da escuridão
No céu
E uma claridão suave,
Cresce e se esparze,
Avassala a terra
Veste-a de verde,
Como uma mãe
Que embeleza a filha,
Antes de sair para escola.

Ponho meus auscultadores
E entro no you tube.
Prodigiosa sala de música
Que a modernidade nos deu...
...nem tudo é mau!...
Escolho. Conforme o momento.
Hoje foi Pucini!...
E, ansiosamente,
Aqui estou eu,
De olhar e ouvido atento,
Ao mais ínfimo sinal de belo,
Deixando correr meu pensamento...

Ouvindo “ o melhor de Pucini”...
   
Mafra, 24 de Março de 2014
6h50m

Joaquim Luís Mendes Gomes

vidraças cerradas...

Vidraças ao sol...

Chove lá fora.
Minhas janelas fechadas,
Me abrigam da chuva.
E ela, atrevida,
Se mete comigo.
Escorrendo nos vidros,
Rios de lava,
Sedentos de quê?...

Leio-lhe os sulcos,
Que poemas mais lindos,
Ela escreve para eu ler!...
Falta a música.
Os pássaros escondidos,
Não cantam...
Oiço baladas de som,
Perdidas no ar.

Hinos de sombra,
Clamando pelo sol.
Asas paradas,
Se esquecem...
A preguiça as tolhe
E querem voar.

Solto-lhe as amarras,
E prendo-as ao vento.
Fico a vê-las bailando contentes,
Poisando no chão,
Debicando sementes
Da lavra que queria crescer...

Minhas janelas fechadas
Banham meus olhos,
De lágrimas de sons,
Poesia a ferver.

Me recolho cá dentro
E começo a escrever...

Mafra, 23 de Março de 2014
15h43m
Joaquim Luís Mendes Gomes




no silêncio das nuvens...

No silêncio das nuvens...

Minha alma navega,
No alto do céu,
Banhada de sol,
Entre a terra e o mar.

Traz e leva
Perfumes de vento,
pintados de cores,
Com matizes raiados
Que brotam do chão.

Cheiram a terra,
Cheiram a mar.
Salpicos de ondas,
Sulcadas de amor.

Ondas de fumo,
Brasas ardendo.
Caiadas de luz,
Vulcões a ferver.
Traços rendados,
Bordados de oiro.
Em crivos de linho,
Secos ao sol.

Janelas abertas,
Cheirando a lar.
Braseiros de sal,
Em medas pintadas de cal.

Bolanhas lavradas,
Nas terras muradas,
À força das pás,
Dos braços e pernas,
Tisnados ao sol.

Pirâmides erguidas,
Escorrendo suor.
Canastas repletas,
Varinas possantes,
Que trazem e levam,
Vezes sem conta,
Saias ao vento,
Seios vibrantes,
Blusas de amor...

Ouvindo Hélène Grimaud,  em adágio de Mozart...

Mafra, 23 de Março de 2014
14h33m
Joaquim Luís Mendes Gomes



faces da lua e da terra...

Faces da lua e da terra...

Os pássaros azuis,
amarelos, doirados,
banhados de luz,
flutuam no ar.

Os peixes, lavados em prata,
no silêncio do mar,
Viajam à solta,
sem quererem voar.

As flores prostradas ao sol,
Abrem as asas
como passarinhos às cores,
Só querem encantar,
Regar de perfume,
Os passos amigos
de quem vai a passar.

As aves canoras
nunca estudaram  de música,
em escola nenhuma,
como anjinhos no céu,
sabem cantar.

Ouvindo “memories” por Suzan Erens, com André Rieu
Mafra, 23 de Março de 2014
8h16m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado, 22 de março de 2014

a caminho da escola...primeiro dia

a caminho da escola...primeiro dia

Teve uma noite agitada.
Estava nervosa.
Amanhã, o seu primeiro dia de escola.

O livro de ler.
Um caderninho de linhas.
Um lápis bem afiado.
Foi seu avô...
Uma borrachinha de duas cores.
Rico cheirinho!...

Um ponteiro e uma ardósia,
Pretinha a luzir.
Para escrever e apagar,
Com um paninho em feltro.
Tudo bem arrumadinho,
Na sacolinha de pano às cores,
Que lhe bordou
A sua avó.

Que lindo vestidinho em chita,
Cor de rosa.
De golinha branca,
E seis botões em linha,
Espreitando à frente.
Breves mangas,
Com enchumacinhos,
Em pregas,
Ao sair dos ombros.

Nos pezitos,
Uns soquetes brancos
Muito bem rendados,
Até ao joelho,
Umas sandalinhas vermelhas,
Com fivela ao lado.

Ali vai ela,
De sacolinha pendente,
A tiracolo.

Olhitos brilhantes,
Num rosto a sorrir.
Um laço vermelho,
Lhe sustem no alto,
Uns cabelitos d’oiro,
Que lhe escorrem suaves,
Até aos ombros.

Já sabe bem o caminho.
Quer ir sózinha.
A senhora professora,
Bem a conhece...
É catequista.

Um beijo à mãe,
Saiu o cancelo
E, dizendo adeus,
Lá foi ela...
Seu primeiro dia de escola.
É minha irmã Delfina!

Ouvindo Maria João Pires tocando Mozart

Mafra, 22 de Março de 2014
8h16m
Joaquim Luís Mendes Gomes