quinta-feira, 10 de abril de 2014

não quero perder a mão...

Não quero perder a mão...

Vou dormir em Vila da Feira.
Aldeia nascida
Ao redor dum castelo.
Altaneiro.
Erguido em rochas de pedra.
Sobranceiro aos montes e vales.
Muito perto do mar.
Ajudou a viver.
Lavrando e semeando.
Este chão negro
Tingido de verde,
Carregado de pão.

Afugentou piratas,
Enxotando-os para o mar.
Inundou de paz
Gerações e gerações.
Sementes das gentes
Que hoje aqui vivem.
Um burgo feliz.

Onde dá gosto ficar
E dormir.
Nesta paragem
Que em boa hora
Eu fiz.
Com vontade de repetir.

Vila da Feira, 10 de Abril de 2014
20h 33m

Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 8 de abril de 2014

chuva de cores...

Chuva de cores...

Não sei se acordando,
Dormindo,
Sonhando,
Subi até às ameias
Do meu castelo encantado.

Estava caindo
Uma chuva de cores.
Lilases, azuis,
Rubras de sangue,
Pareiam pétalas de rosas,
Caindo do céu.

Cheirei o perfume.
Inebriado,
Sonhei.

Que quadro tão lindo,
Num céu prateado,
Raiado de sol,
Com nuvens de luz!...

Espreitei,
Procurei o pintor...

Lá longe,
O sol descia,
Desmaiava no mar.
Chamando as estrelas,
Chamando a lua.
Queria bailar.

Vieram os príncipes
De todos os reinos.
Chegaram as fadas,
Flâmulas a arder.

E num baile de gala
Uma orquestra de sons,
Começou a tocar.

Só meus ouvidos
Ouviam.
E os meus olhos,
Regados de lágrimas,
Sorriram felizes,
Era uma gala real
Que brilhava no céu!...

Mafra, 8 de Abril de 2014
19h 31m

Joaquim Luís Mendes Gomes 

pé ante pé

Pé ante pé...

Muito lentamente,
Sorrateiro,
Quase em surdina,
O tempo flui.
Não passa pela gente.

Leva-nos à frente
E abre o caminho.

Primeiro, lento,
Parecia parado.
Queríamos chegar...
Queríamos crescer

E ele, teimoso,
Só ele sabia.
(E tinha razão...)
Se prendia ao chão...
Só queria brincar.
Até fazia doer.

Apareceram as primeiras encostas,
Difíceis, rugosas,
Para trepar,
E ele, solícito,
Até ajudava,
Umas vezes, puxando,
Dando a mão,
Outras, atiçando a vida,
Com fogo e com cor
Para fruir e viver...

Até que a planície chegou.
Fez-se um mar largo.
Cheio de ondas.
Para vencer.
Repleto de barcos,
De muitos tamanhos,
Navegando ao pé,
Sortes diferentes
E rumos diversos.
Difícil escolher.

E o tempo, planando,
No céu,
Como nuvem parada,
Quase indiferente,
Umas vezes luzente,
Outras sombria,
Assistindo à luta,
Fortes e fracos,
Corrida agitada,
Aos sobressaltos
Com ganhos e perdas,
Fugindo, iludindo
A certeza da morte
Que o tempo escondia...

Ouvindo Hélène Grimaud, tocando Bach, a partir do youtube
Mafra, 9 de Abril de 2014
7h44m
Joaquim Luís Mendes Gomes






pé ante pé...

Pé ante pé...

Muito lentamente,
Sorrateiro,
Quase em surdina,
O tempo flui.
Não passa pela gente.

Leva-nos à frente
E abre o caminho.

Primeiro, lento,
Parecia parado.
Queríamos chegar...
Queríamos crescer

E ele, teimoso,
Só ele sabia.
(E tinha razão...)
Se prendia ao chão...
Só queria brincar.
Até fazia doer.

Apareceram as primeiras encostas,
Difíceis, rugosas,
Para trepar,
E ele, solícito,
Até ajudava,
Umas vezes, puxando,
Dando a mão,
Outras, atiçando a vida,
Com fogo e com cor
Para fruir e viver...

Até que a planície chegou.
Fez-se um mar largo.
Cheio de ondas.
Para vencer.
Repleto de barcos,
De muitos tamanhos,
Navegando ao pé,
Sortes diferentes
E rumos diversos.
Difícil escolher.

E o tempo, planando,
No céu,
Como nuvem parada,
Quase indiferente,
Umas vezes luzente,
Outras sombria,
Assistindo à luta,
Fortes e fracos,
Corrida agitada,
Aos sobressaltos
Com ganhos e perdas,
Fugindo, iludindo
A certeza da morte
Que o tempo escondia...

Ouvindo Hélène Grimaud, tocando Bach, a partir do youtube
Mafra, 9 de Abril de 2014
7h44m
Joaquim Luís Mendes Gomes






segunda-feira, 7 de abril de 2014

este inverno triste...

Este Inverno triste

Cabeleira grisalha
de inverno triste e frio.
Uma chuva leve de sol nascente
desceu sobre ela.

Lampejos surgem aqui e ali
num saltar tremente.

A quietude vence
e a manhã dormente
acalma a alma
que, no fundo, brilha e sonha,
mesmo antiga,
pela memória viva e ardente
que não tem idade.

Primeiro morre o corpo.
A memória fica como nuvem perene
 onde brilha o sol do tempo.

Que dura sempre e roda.
Vem a primavera,
verde e branca.
A rejubilar em flor.

Rebentam os frutos.
Searas douradas.
O vinho escorre em fogo
e tudo aquece.
Neste meu  inverno triste.

Ouvindo Chopin

Berlin, 26 de Janeiro de 2013
9h1m
Joaquim Luís M. Mendes Gomes


mais cedo ou mais tarde...

Mais cedo ou mais tarde...


Mais cedo ou mais tarde,
Com sonho e esforço,
O que parecia distante,
Impossível,
Se alcança.

É no caminho sonhando
E suando,
No esforço do passo
Que tenho de dar,
Escolhendo,
Inventando.
Estudando contornos,
Inventando adornos,
Escolhendo amigos,
Preferindo,

Entre os que vão,
À frente
Ou ao lado.

Colhendo flores,
Saboreando perfumes,
Sombras,
Que livres,
Crescem,
Se espraiam,
Em mantas tecidas
Pelos valados
E pendem das árvores.

Colhendo francos  acenos,
Sorrisos rasgados
De quem se vai encontrando,
Pelos sítios,
Onde moravam,
Entretidos,
Com sonhos
E ânsias nas almas,
Iguais ou parecidos...
Rumo aos cumes
Tão altos, tão ricos,
De tanta beleza
E encanto
Parecem impossíveis.
Mais cedo ou mais tarde,
Com vontade
E com força,
Se hão-de alcançar.

Ouvindo Plácido Domingo, a partir do you tube

Mafra, 7 de Abril de 2014
8h31m

Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 6 de abril de 2014

se o meu País...

Se este meu País fosse um navio...

E eu fosse seu timoneiro,
Lançaria ao mar profundo
Toda a carga má
Com que, por erro ou más intenções
O carregaram...
No porto errado onde atracou.
Umas dezenas de anos
Depois de Abril.

Qual cavalo de tróia!...
A abarrotar de ratos e de ratazanas.
Tudo encharcaram.
Dos porões aos camarotes.

Vestiram fraques.
Pegaram gravata.
Pegaram galões.
Uns sabichões.
De rabo comprido.

Viraram ministros.
Como praga,
Inundaram as terras.
Secaram fábricas.
Desertaram quartéis.

Até da Justiça...
E dos tribunais,
Roeram as portas
E  fechaduras...

Salteadores,
Como sanguessugas,
Assaltaram bancos.
Desviaram fundos,
Sugaram o sangue todo
Que deveria dar força...

E, com uma desinfecção geral...
Amarras cortadas,
Me faria ao largo,
Com Portugal em peso.

A todo o vapor,
De mãos unidas,
Com muita ordem,
Respeito total,
Arregaçaria as mangas,
Lançaria as redes,
Lavraria a terra,
Voltava a lavrar...
Outra vez Navio seguro,
Onde seria bom viver...

Mafra, 6 de Abril de 2014
17h56m
Joaquim Luís Mendes Gomes