quarta-feira, 16 de abril de 2014

evasão final...

Evasão final...

Faço-me ao mar...
Como um nauta louco,
Parto sem rumo certo.
Sobre o mar imenso.

Alheio às vagas.
E às profundezas.
Olhos presos
Às estrelas,
Que me seguram
Presas no infinito,
Como velas acesas.

Vou surfando, lesto,
Ora voando,
Ora deslizando docemente,
Sigo em frente.
Ao sabor dos ventos.

Cabeleira perdida em rasto,
Meus braços hirtos,
Se agarram ao leme.
Com todas as forças.

Minha alma dentro
É um caldeirão ardendo
Com energia infinda.

Quero chegar ao outro lado,
Pela manhãzinha,
Ao nascer do sol.

Quero mirar as gaivotas brancas,
Poisadas em arco,
Que me estão esperando,
Mirando as ondas
Onde eu vou chegar.

Quero abraçá-las
E ficar com elas.

Ouvindo Plácido Domingo

Mafra, 17 de Abril de 2014
7h38m
Joaquim Luís Mendes Gomes


terça-feira, 15 de abril de 2014

nas passerelles...

Nas passerelles...


Nas passerelles,
Desfilam elegantes,
Muitas mulheres.
Se supõem diferentes,
Mas são iguaizinhas
A outras quaisquer.

Parecem vazias.
Mesmo opacas.
Olhos distantes.

Umas são virgens...
Outras já não.

Entram e saem.
Conforme lhes mandam.

Às vezes, nervosas.
Outras impantes.

Carregam lá dentro,
Sonhos e dramas.
Iguais aos demais.

Pensam nos filhos.
Que ficaram nas mães.

Têm amantes
Que esperam lá fora,
Horas a fio.
Como outras mulheres.

Têm insónias.
Pesadelos constantes.
Acordam aflitas.
Vão chegar atrasadas
Ao desfile da noite.

Cirando nas ruas,
Mirando vitrinas.
Fazem as compras
Na tendinha do bairro.
Umas vezes a pé.
Outras de carro.

E dão sua esmola
Ao pedinte da esquina.
Lêem revistas.
Às vezes jornais.

Em tudo, iguais...

Ouvindo Hélène Grimaud
Mafra, 16 de Abril de 2014
7h41m
Joaquim Luís Mendes Gomes




Às vezes...

Às vezes, apetece partir...
Não voltar a voltar

Pegar nas malas. 
Pôr-se a caminho.

Sem rumo marcado.
Ao sabor da sorte.

Novas paragens.
Novas paisagens de gente,
E de terra arada ou não.

Ver horizontes, com linhas diferentes.
De serras e vales.

Beber outras águas,
De fontes da terra.

Cavalgar em selas de couro,
Ou carroças muares.

Banhar-me em rios,
Com ramagens pendentes,
Povoados de passaredo ignoto,

Que corram para o mar.

Levantar-me de noite
E ver um luar,
Duma lua bailante,
Com vestido e ramagens
Nimbadas de cor.

Ver arcos-íris,
Que atravessem o céu,
Com cores às avessas.

Que tragam a chuva
Em torrente,
Na hora certa,
Como convém.

Bordejar mares,
Carregados de espuma
E também de sargaço,
Em ondas constantes.

Com respeito das gentes,
Que o visitam
Em barcos e redes,
Carregados de pesca.

Erguer uma tenda
Na encosta dum monte,
Onde corra um ribeiro,

Onde eu molhe meus pés,
Doridos de andar.

Me embale de noite,
Com água a correr...

Ouvindo Hélène Grimaud, em Chopin, balada nº 1
Mafra, 16 de Abril de 2014
6h26m
Joaquim Luís Mendes Gomes

nevoeiro sem sol...

         Nevoeiro sem sol...


Um nevoeiro, sem sol,
Caíu de repente.
Nesta manhã a nascer.
Tudo toldou.

Olho as flores e o céu
Só sinto o perfume
E calor.
Não lhes vejo as cores.

Estou mesmo à beirinha do mar.
Como em noite de breu.
Sei que é azul,
Não lhe vejo as ondas,
Só sinto o perfume do iodo
E  oiço o silvo
Do vento a soprar.

Queria voar,
Desaparecer para as alturas,
Romper esta cortina tão espessa.
Que me tapa o sol
E me sepulta na noite,
Sem luz nem luar.
Caminho, de braços abertos,
Tacteando o chão.
Só esbarro em muros,
Agrestes,
Sem musgo,
Invadidos de silvas
Que não me deixam seguir.

Cansado, me sento no chão.
Rendido à minha pobreza.
Fico à espera,
Nem que seja,
Por esmola,
Duma réstea de sol
Que me volte a acender,
De fogo e de luz.

Mafra, de Abril de 2014
7h45m
Joaquim Luís Mendes Gomes


                                                                                                                                                                                                      

segunda-feira, 14 de abril de 2014

barco de remos...

Barco de remos...

Não sou barco de remos
Que se deixe guiar.

Seguro no leme.
Ergo as velas.
Pesco e derivo.
Lanço amarras,
Onde eu quiser.

A pesca,
Pouca ou muita,
É só minha.
Levo-a para casa.
Vendo ou ofereço.
Conforme me apraz.

À mesa, em família,
Acendo a lareira.

Na brasa ou cozido.
Encho a mesa.
Toalha lavada.

Com a fartura das sobras.
Dá e sobeja...

Ó que regalo!

Boroa às fatias.
Ou regueifa da feira.
Vinho da pipa.
Fruta da horta.
Um bolo caseiro,
Ao jeito da Mãe...
Com alegria e saúde.

Toda a gente a comer...

À conta do barco,
Sempre pronto a partir.
Mas quando eu quiser...
E Deus me deixar.

Ouvindo Hélène Grimaud

Mafra, 14 de Abril de 2014
8h12m
Joaquim Luís Mendes Gomes



domingo, 13 de abril de 2014

não fui soldado raso...



Não fui soldado raso....


Podia tê-lo sido.
Não seria desonra.
Por sorte, mero destino, não.

Fui um dos muitos
Que lá andou.
De arma em punho...

Pertenço ao grupo
Dos que voltaram.
Sorte. Destino.
Salvo e são...

Muitos, iguais a mim,
Lá deixaram a vida,
Na mocidade...

Como um rio a correr,
A vida marcha.
Vertiginosa.
Parece lenta.

Inexoravelmente,
Corre, dia a dia,
Gota a gota.

E, nela marcho,
Agora,
Soldado raso,
Sem qualquer espingarda.
Ando na luta.
Com a minha força.

Inimigos não faltam.
Não vêm de fora.
Por todo o lado.
Estão cá dentro.

Andam ocultos.
Não vestem farda.
Não usam arma.
Mandam atacar.

São dos perigosos.
Muito ardilosos.
Andam opacos.
Vestem jaquetas.
Põem gravata,
Uns caras de anjo.

Gozam palácios.
Não vivem na tenda...

São generais.
De quatro estrelas.
Vivem à farta.
Ao pé do sol!...
À custa de quem?...
Dum grande exército,
Cada vez maior
De soldados rasos!...
Desarmados....o que é pior.

Ouvindo Hélène Grimaud

Mafra, 14 de Abril de 2014
6h22m
Joaquim Luís Mendes Gomes


grito de revolta....

Grito de revolta


Revolva-se,
Desde as profundezas,
Esta terra negra e fria,
Subam cá fora,
Esses gigantes, alados,
De vontade férrea.
Que esta Pátria gerou
E sepultaram no esquecimento.

Tragam adagas. Tragam punhais.
Esquartejem em pedaços de carne e sangue,
Esses virulentos vilões
Que, num instante,
E num abrir e fechar de olhos,
Enterraram no chão,
Nossas glórias.
Nossas tradições de ser
Virtuosa e forte.

Sementeira de fogo
Se esparza em chama
E queime... abrase,
Esses montes de estrume.

Que enchem corredores
E salas reais.

Cheira a pês. Essa vaidade enorme,
Que derrama fome pelos lares famintos
E que viviam sãos,
Cumprindo a ordem
De serem gente séria.
Como Deus quer...e deve ser...

Desapareçam para bem longe...
Para lugares malditos,
Aos nossos gritos....
Fujam de nós,
Opróbrios de vergonha.
Peçonha e morte.
Nisso sois desenvoltos...
Até mais não...

Tende vergonha ...
Desapareçam...saiam da frente....
Vão para a vossa terra...
Não sejam soeses....
Ninguém vos quer ver mais
Um segundo só!...

Ouvindo Rachmaninov, concerto ao piano, pelo próprio...

Mafra, 13 de Abril de 2014
16h46m

Joaquim Luís Mendes Gomes