segunda-feira, 5 de maio de 2014

partir à deriva...

Partir à deriva...

Cajado numa mão,
Enrolado num burel,
Sandálias nos pés,
Parti para o deserto.

Ali não há estradas.
Não veredas traçadas,
De propósito,
Ou por acaso,
Pelos pés das gentes
Tresmalhadas.

Não há semáforos.
Nem polícias de costumes.
Só há dunas.
Secas.
E a liberdade pura
De girar.

Olhando o chão,
Por causa dos espinhos
Que não são espinhos.
Só querem viver
A sua sorte de ser vivos.
Onde a natura crua
Os prendeu.

Olhar as estrelas.
Minhas vizinhas.

Contá-las uma a uma.
Com elas fazer desenhos,
Naquele grande quadro preto.

Fugir do sol escaldante,
De preferência num oásis.
Nem que seja num buraco.

Seguir em frente,
Nunca mais olhar para trás.
Sem ponteiros de relógio
A despedaçar-me a vida.
Pondo tabiques
Ao rio do meu viver.
Desde a nascente
Até à foz.

Voar éna vida
É privilégio
Só de alguns.
Aqueles loucos,
Que se prendem
E algemam,
Numa gaiola.

Estar mesmo vivo
É viver em liberdade...

Ouvindo Hélène Grimaud
Berlim, 6 de Maio de 2014
6h29m
Joaquim Luís Mendes Gomes

os melros ao cair da noite...

Os melros do cair da tarde...

A noite vai descendo lentamente
Sua cortina rendilhada.
As árvores verdes se vão escondendo.
Descrevendo arabescos,
Com suas copas.

E os melros negros,
Saltitando de ramo em ramo,
Entoam chilreios lindos,
Ao desafio,
Tão afinados.

Que dirão?
A quem entoam seus cantos?
Será ao mesmo Deus
O Criador?
Soam de encanto,
Tão agradecidos,
A orações.
Por mais um dia
Em que nada faltou.

Já que Avé-Marias,
Por aqui não há.

Canto com eles.
Com meus versos ditados.
Pelas mesmas razões,
Ao mesmo Rei...
Ao mesmo Senhor!...

Berlim, 5 de Maio de 2014
22h5m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado, 3 de maio de 2014

espaços em branco...

Espaços em branco...


Foram tantos os espaços em branco
Que eu deixei pelo caminho.

Portas abertas claras,
Por não fui.

Saídas erradas sombrias
Que dei,.

Aflições sem conta senti
e em vão que sofri.
Tudo se remedeia.
Com força e esperança.

Tantos almoços, tão bons,
A que eu disse que não.

Silêncios errados que fiz
Na hora em que deveria falar.

Caminhadas perdidas
Por penhascos sem cor.

Clarões d verdade e de bem
Se rasgaram no céu e não vi.

Sentimentos de raiva
Cresceram...cresceram...
Toldaram-me a mente
E eu não os cortei.

Horas felizes de sonho e de festa
De Amigos
A quem não liguei.

Companhias erradas
Me estenderam a mão.
A umas neguei,
Com acerto,
A outras cedi...

Palavras com gumes cortantes,
 Espalhei pelo ar.
Como pedras
E folhas com picos.

Eram escusadas.

Algumas me caíram em cima.
Como nos telhados de vidro.
Quem os não tem...

Quero emendá-los a todos.

 Falta-me o tempo.
Vontade é que não...

Ouvindo serenata de Schubert,
Berlim, 4 de Maio de 2014
6h6m, dia tímido de sol

Joaquim Luís Mendes Gomes


o bigode farto...

O bigode farto...

Na minha varanda livre,
Vi-me meu Avô José
De barbas brancas.

Ele, de bigode grisalho e farto,
Com sua bengala de pau.
Que figura terna,
Não mais esqueço.

-Nunca mais vem o Quim Luís!...
Se queixava Ele,
Para o meu Pai.

Era uma alegria vê-lo
À minha espera,
Quando vinha de férias.

Iria poder contar
Toda aquela história linda
Que Ele vivera.

A perseguição aos padres
Pelos Liberais.
Já a sabia de cor.
Seus olhos brilhavam
De luz,
Porque havia um neto
Que sabia ouvi-lo...
- O Padre Bráulio,
Figura enigma
Que me ficou gravada.
Era padrinho do meu Pai...
A bonomia em pessoa.
Tamanha candura,
Nunca mais vi...
Vivo dela, nestas horas extremas,
A que tão depressa
Me vi chegado.

Agora eu o sinto
Igual a mim.
Ele de bigode farto
E eu de barbas brancas!...
Agora O canto,
Nestas linhas de dor.

A vida é tão breve.
Ó que saudade!...
Nunca pensei!...

Berlim, 3 de Maio de 2014
15h7m
Joaquim Luís Mendes Gomes


oitava maravilha...

O Tête-à-tête das mentes...

Oitava maravilha!

O Tête-à-tête das mentes
Dá-se,
Sem laços nem novelos
Emaranhados de fios,
Telefónicos,
Sem horas marcadas,
Filas de espera,
A toda a hora,
Basta um clique.
Basta um toque.

Vem a palavra,
Em rio fluente,
Que nos banha
E que nos espelha.
E que nos toca.
Em linha recta.

Não há curvas.
Não há quilómetros...

Tudo reluz,
Tal qual é.
Basta ver.
É só falar.
O que a mente dita.
E é só ouvir
E ajuizar.

Se for bom
É de guardar...
Se não...
É de jogar fora.

A “oitava maravilha”...

Berlim, “bar motocas”
3 de Maio de 2014
9h43m
Joaquim Luís Mendes Gomes






sexta-feira, 2 de maio de 2014

os pés no chão...

Os pés no chão..

A  Natureza sábia,
Fez-nos erectos,
Só pés e braços,
Em vez de rodas,
Em vez de asas.

Deu-nos força
Deu-nos o tento,
De pisar a terra,
Correr o mundo,

A cabeça erguida,
Olhando avante,
E também o jeito
De mexer os braços

Um atrás
Outro à frente,
E, sempre de pé.
Sem ir ao chão.

E a faculdade atenta,
Ao canto dos olhos,
De dar conta
Ao que se passa à volta.
O sonho puxa...
O perigo espreita.
Tantos abrolhos!...

E competimos.
Dominamos tudo.
Fundos do mar.
Longes do céu.
Alvores das serras.
Entranhas da terra.

Somos sedentos,
Somos audazes.
Até demais...
Nada nos escapa.

Nossas algemas
É a atracção da terra
E os pés no chão!...

Ouvindo Hélène Grimaud, em adágio de Mozart
Berlim, 3 de Maio de 2014
6h51m
Dia de sol
Joaquim Luís Mendes Gomes



quarta-feira, 30 de abril de 2014

Primeiro de Maio...

Primeiro de Maio

Ao clarear do dia...
Sento-me na minha varanda.
Confortavelmente.
Como um camarote de luxo.
Duma sala real,
Dum palácio encantado,
E fico à espera
Que comece o espectáculo.

Que cenário de sonho,
O Dono da sala,
Montou para nós!...

Um cortinado colossal
De verde pendente.
Cerca as paredes.
Se ouvem pardais.
Chilreando anúncios.
De paz e de festa.

Frementes, em bandos,
Passam imponentes,
Meus amigos, os corvos.

Sopra no ar,
Uma brisa suave.
Me agita os cabelos,
Me adoça os ouvidos.

E faz bailar graciosos,
Os raminhos mais tenros,
Das copas das árvores.

Olhando ao alto,
Vejo um céu cada vez mais claro.
E não faltará muito,
O cortejo dos raios de sol,
Começa a descer,
Na alameda mais vasta,
E elegante,
Traço dum Mestre,
Com os riscos mais certos,
Que meus olhos já viram.

Minha alma vibrante
Incandesce exaltada...
Que espectáculo,
Tão belo e tão lindo
De luz e de cor
Neste primeiro de Maio!...

Ouvindo Hélène Grimaud tocando Bach

Berlim, 1 de Maio de 2014
6h54m
Joaquim Luís Mendes Gomes