domingo, 11 de maio de 2014

não é hora de chorar...

Não é tempo de chorar...

Quando me apercebi,
Dei comigo no fim.
Uma vida passada.
Toda inteirinha
Correu sem dar conta.

Tão apagada.
Foi um instante.
Sem rasto nenhum.
Nem cometa cadente,
Arco voltaico.

Vida banal.
Onde minha alma
Vibrou.

Suas ondas ficaram retidas.
Não saíram do porto.
Com cercas à volta.

Destino ou acaso.

Foi assim que vivi.

Por isso, agora,
No resto que falta,
Me agarro à vida,
Com todas as garras.

Não quero viver
Num quarto fechado.

Quero abrir as janelas
E deitar-me a voar,
Sedento de vida,
Em cada momento.
Enquanto o sol ao nascer,
Me vier acordar...

Ouvindo Sara Brightmann, d’ont cry for me...

Berlim, 11 de Maio de 2014
9h40m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado, 10 de maio de 2014

reparação do mal...

Reparação dos males...

O erro e o mal
Pairam no mundo.

O rio louco ao descer da serra,
Por vezes, se engana.

Inclemente e cego,
Tudo alaga e leva à frente.

Por si apenas, não tem remédio.

O vento desatinado,
Quando perde a estribeira,
Leva tudo pelos ares,
Põe tudo num mafarrico.

Não há porta d’aço
Nem janela grossa
Que lhe faça frente.
Só com a nossa mão!...

Nossa vida inteira
É uma fonte de actos.

Sempre a mexer.
Umas vezes bem,
Outras muitas,
Mal.

É assim que somos.

Se só nós sofrermos...
Fica a lição.
Somos livres.
Somos adultos pensantes.

Vamos em frente.

Se atingimos alguém,
Isso é pior.

Só reparando o mal...
Pedir desculpa.
Emendar a falta
Repondo a ordem,
Para se alcançar a paz...

Berlim, 11 de Maio de 2014
7h33m

Joaquim Luís Mendes Gomes

de Catió...ao Cachil...

De Catió ao Cachil...

( Na minha canoa...)

Tomo minha canoa,
Dum tronco apenas.
Vou serenamente,
De Catió ao Cachil.

Rio Geba ou seu afluente,
Já não lembro o nome.

Agora posso olhar
Ambas as margens,
Sem espingarda nas mãos.

Rio cinzento,
Sinuoso,
Ora tão largo,
Ora tão estreito.
Jacarés a dormir.

Há jagudis,
De asas tão largas,
Poisados nas árvores.
Parecem lacraus.
Onde metem o bico,
Tudo se vai.
Só dá para fugir.
Há tanta lama,
Debaixo dos ramos.
Fazem trincheira.
Ninguém se atreve
A pôr-lhe os pés.

Ao cabo dum dia,
Sempre a remar,
Chego esvaído
Ao cais do Cachil.

Ele lá está,
Chão de palmeira.
Que estrada-avenida,
Sempre a subir.

Vou a caminho.
Pé-ante-pé.
Sobre os toros deitados.

Lembro o passado.
Vestido de tropa.
Olhos trementes.
O inimigo à espreita.

Depois da granada,
Para espantar jacarés,
Lançava-nos ao rio,
Ó que banhoca.
Parecia uma praia,
Povoada de peixes,
Que o estrondo matou.

E aquele quartel,
Onde passei nove meses,
Era um palácio real,
Defendido com todos os dentes.
Hoje é repasto de rãs,
Cobras, serpentes.
Pedaços de vidas,
Tão jovem,
Que não mais voltarão.
Ali jazem para sempre.

Porquê?...E para quê!?...

Que fadário mais triste!
Só dá para chorar.

Ouvindo “serenata de Schubert”

Berlim, 10 de Maio de 2014
15h47m
Joaquim Luís Mendes Gomes




sexta-feira, 9 de maio de 2014

fábula das formigas...

Fábula das formigas...

Quando era miúdo,
Me dividia total,
Entre o chão e o ar.
Sentia a terra.
Seu cheiro.
De inverno.
Calor de verão.
Fumegando de pó.

Fazia cavernas.
Castelos de pedras.
Assava batatas, com casca.
Ó que delícia.

Apanhava cebolas,
Na hora nascente.
Era um naco.
Dava-lhe uns golpes
Punha-lhe sal...
E ficava um rei.

Correndo pelo chão,
Pequeninas, corriam velozes.
Faziam carreiros.
Aos zigue-zagues.
Parando aqui e ali,
Olhando para trás,
Esperando a parceira.
Seguiam para longe,
Pareciam sem destino.

Para elas eu era um gigante.
Não me ligavam nenhum.
Fiz-me como elas,
Pequenino,
Entrei no cortejo.
Pus-me a ouvi-las.

Pareciam caladas.
Mas nada.
Umas palradoras sem fim.
Sempre a dar à palheta.
Contavam anedotas.
Cantavam cantigas.
Faziam xaradas,
Com ditotes agudos.
Eram amigas.

Falavam da vida.
Falavam de tudo.

Meti conversa com uma.
Perguntei-lhe donde era.

- vim do estrangeiro.
Estou a passar férias,
Com minha família.
Já não a via há muito.
Fui para França,
Aprender o francês.
Mas conheci o sarkozzi,
Formigueiro e urso...
Não gostava de mim.
Matava-me à fome.
Com tanta limpeza.
Fugi do palácio
E vim a caminho...
Prefiro esta terra tão livre,
Aos altos baixos.
Por baixo e por cima.
Em festa constante.
Há trabalho para todas,
Por conta da mestra.
Ó que feliz!...
- Mas não te conheço daqui!...
Também és sarkosi?...

Ouvindo as Czardas de Monti

Berlim, 10 de Maio de 2014
7h51m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quinta-feira, 8 de maio de 2014

valor das palavras...

Valor das palavras...

Saem da nossa boca por dia,
Milhares de palavras.
Umas vêm de dentro,
Pesadas, medidas, contadas.
Trazem mensagem,
Com fim.
Acertam no alvo.
Sempre dão certas.
No bom e no mau.

Há palavras, tão graves,
Agudas,
São facas com gume,
Afiado,
Golpeiam,
Cortantes.

Há outras sentidas.
Vêm do fundo.
Quentes. Escaldantes.
Atiçam o fogo,
Em labaredas,
Lançam a paz ou a guerra.

Há-as tão secas e cruas.
Cerram as portas.
Com cadeado.
Nunca mais se reabrem.

E há-as tão claras e doces,
Nas horas mais negras,
Azedas,
Amargas,
Encantam sereias.
Derretem pedreiras
Ou blocos de gelo.

E aquelas que brotam,
Sem tento
E  se espalham no vento,
Luzem faúlhas,
Sem brilho e sem cor.
Logo apagam,
Não chegam ao chão.

Cuidado com todas.
Constroem.
Destroem.
Regam.
Alagam.
Enleiam.
Afinam.
Adoçam.
Encantam.
Consolam.
Vestem e despem.
Não esquecem,
Se boas ou más...

Ouvindo Hélène Grimaud
Berlim, 9 de Maio de 2014
7h59m
Joaquim Luís Mendes Gomes

  

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o cangalheiro...

O cangalheiro...

Se apresenta sempre,
O mais compungido.
Fato preto.
Gravata igual.

Se mostra afável.
Aproveitando a hora.
Carrega no preço,
Tudo incluído.
Trata dos papéis.
Junto do rei.
Dando baixa da carga
Que nunca mais vem.

Enche de flores.
Muitas fitas lilases.
Bouquets reluzentes,
Tinindo dinheiro.

Oferece a carreta
Com velas sem cor.
Franze o sobrolho,
Na urna que fez.

Depois vem a conta,
Sempre a dobrar.
Vive dos mortos
Que vão a enterrar.

Ofício tão estúpido,
Não dá para entender.
Se reduzissem a pó,
O cadáver sem vida.
Para a terra indiferente.
Um monte de carne,
Carregado de cal,
Para os vermes comerem.

Antes o fogo
E a cinza final...

Berlim, 8 de Maio de 2014
17h1m

Joaquim Luís Mendes Gomes

quarta-feira, 7 de maio de 2014

arestas...e silvas...

Arestas...

Andamos no mundo,
Umas vezes,
Serenos, contidos,
Algumas, irados.
Umas vezes subindo,
Outras descendo.
A viagem da vida
Traz-nos belos momentos,
Belas paisagens.

De vales profundos,
Colinas redondas,
Searas pintadas.
Encostas e serras.
Todas estáticas,
Paradas,
Tão belas,
Esperando por nós.

Só caminhando,
Avançando, sem pressas,
Com ânimo na alma,
Se vão alcançando.

As arestas são muitas.
Se formos descalços,
Ferem os pés.

Há perigos escondidos.
Em todas esquinas.
Saltam dos lados.
Caem do ar.

Quando menos se espera,
Aparece uma pedra,
Cheia de arestas,
Nos deixa a sangrar.

 Silvados com espinhos,
Lagartos e cobras,
Ao longo das margens.

Só de olhos atentos,
Luvas nas mãos.
Uma vara bem forte,
Em cima dos ombros,
Nos vale
De ficar presos às silvas
E mordidos na pele.

Ouvindo Hélène Grimaud, tocando sonata de Beethoven

Berlim, 8 de Maio de 2014,
8h4m
Joaquim Luís Mendes Gomes