segunda-feira, 19 de maio de 2014

viveria outra vez...

Por mim...

Se pudesse, voltaria a nascer,
No dia seguinte,
Depois de morrer.

Escolheria o meu Pai Joaquim,
Minha Mãe Leonor.
Queria o meu berço
E a minha escola,
Em Pedra Maria,
De campos e montes,
Fontes tão puras,
E um ribeiro escondido,
Um cruzeirinho à porta,
Com uma capelinha ao pé.

Os mesmos verões e invernos
Com madrugadas acesas,
E serões de luar.

Com rezas do terço
E às almas partidas,
De sangue ou vizinhas,
Que já foram nossas.

Aquela escolinha ao sol,
O recreio
Parecia uma eira,
Brincando felizes
Como o milho a secar.

Aprendia a ler e escrever.
Até onde pudesse chegar.
Aprendia uma arte,
À medida das mãos.
Que me permitisse viver.

Escolheria os caminhos,
Por onde devia passar,
Com a bênção de Deus...
Tal como os amigos,
Na vida,
Podiam ser os mesmos
Ou outros,
Desde que me merecessem amar...

Ouvindo Plácido Domingo
Berlim, 20 de Maio de 2014
7h57m
Joaquim Luís Mendes Gomes



quarta-feira, 14 de maio de 2014

o abraço...

O abraço...

Tem tanta força
Um só abraço.
Na hora certa.

Quem não experimentou?...

Ele rompe as pedras todas
Que atravancam o caminho....

Reduz a cinzas
As asperezas e atritos
Que, num dia errado,
Geraram as distâncias.

Semeia um tal calor
Que derrete o aço frio
Que reveste os corações.

Tudo arrasta,
Mesmo penedos,
Encosta acima.

Ergue para o ar
Os ramos pendentes
Que iriam morrer de murchos.

Dá força aos fracos.
Para serem fortes.

Robustece quem teve a força
De ser o forte
E dar o passo.

Perdoar na hora,
Pode parecer um passo em falso.

Uma vez dado,
Se vem do fundo,
Gera um perdão tal
Que para sempre esmaga
Quem feriu o nosso braço.

Ouvindo Smetana, em rio Moldau

Berlim, 14de Maio de 2014
22h37m
Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 13 de maio de 2014

as bermas da vida...

ida...

A vida é um caminho.
Mais ou menos longo.
Se conhece o começo.

O termo, 
Só há Um que o sabe bem.

Nada vem do acaso.
Vamos nele cumprindo um fim.
Para nosso bem
E bem geral.

Por vezes, é estreito e sinuoso.
Outras, recto e tranquilo.

Um mar sereno,
Onde, parece,
Nada acontece.

Muitas, desce
E custa a subir.

Tem escolhos,
Espinhos e pedregulhos.

Claridão de sol,
Um céu azul,

Por vezes, nuvens.
Luar de noite,
E noites cerradas.

Tem horas de alma
Plena de força
E esperança.

Outras cegas,
De bruma negra.

Não são senão as bermas
Deste caminho,

Longo ou curto,

Duma viagem,
Rica e boa
Que nos faz viver...

Ouvindo Smetana, em Rio Moldau
Berlim, 14 de Maio de 2014
7h4m
Joaquim Luís Mendes Gomes

as penas...

As penas...

A vida tem penas.
As penas têm cores.
Umas são negras.
Tais como nuvens.
Carregadas de chuva.

Outras são
De todas as cores.
Tais como as dos pássaros,
Parecem flores.

São miosótis.
São cor de rosas.
São colibris.
Umas não voam.
Exalam perfumes.
Outras esvoaçam.
Como cardumes.
Todas brilham
Ao sol.

Há-as que escrevem.
Parecem roletas.
Rodas da sorte.
Tentando quem passa.
Há-as que ferem
E fazem sofrer.
Canas de pesca
Dum mau pescador.

Há-as voláteis.
Se soltam no ar.
Bailam no vento,
Não sabem parar.

E as que matam.
Sem piedade nem dó.
Fazem sangrar.
Sem quê nem para quê...

As penas dos pobres
Não as sentem os ricos.
Se engana quem pensa
Que estes não sentem
Penas mais duras
Apesar da riqueza...
As  penas sem preço,
São tão terrenas,
Bem piores que a traça,
Tudo devoram...
Não há quem as mate.
Nem o dinheiro

Berlim, 13 de Maio de 2014
15h14m

Joaquim Luís Mendes Gomes

reencontro...

Reencontro...

Caminhei anos a fio,
Por sendas longas,
No deserto.

Só via dunas de areias,
Cactos e, de vez em quando,
Um dromedário, com seu dono,
Solitário.

O sol ardia ao alto.
O vento soprando forte,
Fustigava meu rosto
Recoberto.

Meus olhos em chama,
Ardendo, como brasas,
Nas minhas órbitas.

Via água ao longe
E até ao perto,
Mas tudo falso.

Crescia em mim,
Como vaga de fundo,
Uma onda cortante,
De desespero.

Parecia enxergar a morte,
Mesmo perto...
O suor escorria.

Com muito esforço,
Consegui ultrapassar um morro.

E, do outro lado,
No vale ao fundo,
Corria um rio.
E havia verde
De arvoredo.

Foi um milagre.
Desci. Em êxtase.
Duvidando,
Seria verdade...

Uma brisa fresca
Me apareceu à frente,
Anunciando dias melhores.
Rejubilando,
Cheguei ao pé.

Entrei nas águas...
Reencontrei a vida
Que, em desespero fatal,
Me queria deixar.

Ouvindo o “bolero” de Ravel
Berlim, 13 de Maio de 2014
9h19m

Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 12 de maio de 2014

o vento suão...

Amarelo e cinzento...

O vento suão
Soprava valente
Pelos campos da minha aldeia.

Era amarelo e cinzento.
Vinha em força, lá do deserto.
Trazia em si,
Carradas de areia
Em pó.

Enchia as folhas verdes
Daquele arvoredo viçoso.
Duma cor tão triste!...

E eu pedia a Deus.
Oxalá venha uma chuvada abundante
Que refaça a cor verdejante
Que é tão bela.

Limpe o chão.
E o sol a faça brilhar.

 Quero de volta
O vento do mar.
Que o cobre de ondas
E me deixa o desejo gostoso,
De nele me ir banhar.

Sopre forte
O vento norte,
Mesmo gelado...
Acendo a lareira.
E fico a vê-la
Até que chegue a hora
De me ir deitar.

Me envolvo
Nas minhas mantas
E ficarei no céu.

Orando
Que aquele vento,
Para sempre,
Fique donde é...

Ouvindo Smetana em O Moldau
Berlim, 12 de Maio de 2014
21h13m
Joaquim Luís Mendes Gomes


domingo, 11 de maio de 2014

é preciso esperar...

É preciso esperar...

É preciso esperar
Pela hora acertada.

Cada coisa a seu tempo
E quando for sua hora.
Ninguém toma o comboio
Antes dele chegar.

Deixemo-lo vir.
Vem servindo outras paragens
Há quem espere por ele
E também queira seguir.

A viagem dá tempo para tudo.
Viver e sonhar.
Amar e servir.
Chorar e sorrir.

Só assim, a vida tem cor.
E dá gosto viver.

Cada um tem o seu jeito.
É preciso estudá-lo.
Uns a cantar.
Outros escrevendo.
Outros cavando a terra.
Semear para comer.

Sem lugares de primeira.
Sigamos todos iguais.
A fome e a sede,
Ardendo em chama,
chegam na hora.
Não podem esperar.
É preciso apagá-las,
Quanto mais depressa melhor.
Ninguém fique a sofrer...
Assim é que é!

Ouvindo Sara Brightman e Banderas, em fantasma da ópera

Berlim, 12 de Maio de 2014
7h48m
Joaquim Luís Mendes Gomes