sábado, 24 de maio de 2014

sermão da montanha...

Sermão da montanha…

Não subo à montanha,

Nem prego semões.

Não visto fardas.

Nem opas de igrejas.

Sem distintivos na minha lapela.

Não sirvo clubes

Nem nenhum partido.

Enchi o meu espírito

Com luzes nascidas

Nos alvores do Marão.

Com rocha,

Granito,

Cobertos de musgo,

Onde crescem as urzes,

Há lobos vadios

Que louvam a Deus.

Minha estrela é polar,

O cruzeiro do sul.

A lua de Agosto,

Em noite de breu.

O sol me ilumina e me aquece.

Me banho no mar.

Respiro a brisa

Em ondas de espunha.

Me visto com algas,

E durmo no chão.

Não tenho automóvel.

Nem sigo as estradas.

Sigo caminhos trilhados

Por feras ou rebanhos

Perdidos que só vivem ao ar.

Oiço as aves rapinas

Pairando nos ares,

Às voltas na vida,

Fazendo seu ninho,

Buscando seu pão.

Como carcaças silvestres.

Amoras das negras,

Que nascem maduras

No meio das silvas.

E cachos de uvas

Que nascem bravias

No meio das fragas.

Não servem para vinho.

Mas são como o mel.

Não ando descalço.

Trago sandálias de couro

E de pele.

Um manto de trapos,

Com um cinto apertado,

Me cobre e me tapa.

Não uso camisa.

Não ponho gravata,

De inverno e verão.

Meus cabelos

E barbas grisalhos,

Soltos ao vento,

Me pendem à frente

E ficam para trás.

Levo um cajado,

Por causa das feras.

Encho o cantil

Com água das rochas

Faço fogueiras,

Asso maçarocas de milho,

Sabem a pão.

Não tenho relógio

Nem conto o tempo.

Nem somo os dias e noites,

Que nascem e morrem

Sem mim,

Caídos do céu.

Minha alma sem penas,

Afastada do mundo,

Voa tão livre,

Com asas de sonho.

Meu corpo cansado,

Dormita,

Estendido no chão.

É assim que eu vivo

Não prego nem oiço sermões…

Ouvindo Bill Douglas

Bberlim, 25 de Maio de 2014

7h9m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado diferente...

Sábado diferente

Vim escrever para a varanda.

Na manhã deste Sábado de Maio.

Vejo os carros na rua correndo.

No rosto uma brisa fresca e suave.

Oiço as aves cantando.

Rolas, pombas e melros.

Entoam os mesmos trinados,

Em língua

Que todo o mundo entende.

Seguem aviões pelo alto,

Rasgando estas nuvens cinzentas.

Numa correria constante.

Deixa toda a gente indiferente.

Vejo cartazes espalhados.

Anunciando as eleições

Que aí vêm.

Os mesmos sorrisos de rostos.

Com promessas que nunca se cumprem.

Chegam-me toques de sinos,

Entre este ruido constante.

Me lembram que os passos que damos,

Por mais voltas que dermos,

Se passam entre a terra e o além…

Há compassos de espera,

Forçados,

Diante dos semáforos que caem.

Os carros se quedam especados.

Diante duma simples bola vermelha…

Como cavalos amestrados.

Lá dentro,

Os donos cerram os dentes…

 

Berlim, 24 de Maio de 2014

8h20m

Joaquim Luís Mendes gomes

terça-feira, 20 de maio de 2014

promessas...

Promessas…

Há promessas desgraçadas.
Mais ameaças.
Vêm do fundo dos tempos.

Nunca foram
Nem serão cumpridas.
É nossa sorte.
...
Outras são bem aventuradas.
Já são dádivas.

Vêm inscritas no coração
Desde a origem.
A nossa marca.

Das primeiras,
Não temos a chave.

Inacessíveis.
Mui bem guardada.
É nossa sorte.

Das segundas,
Estão confiadas
À nossa vontade.
É só abri-las…

Quem não almeja a felicidade?…

Ela nasce verdejante,
Em cada dia,
Quando nasce o sol.
É só esperá-lo.

Vem na brisa doce
Que vem do mar,
Ao amanhecer
E ao cair da tarde.
É só buscá-la.

Vem no desabrochar em festa,
Duma flor garrida.
É só hauri-lo.

Até no lagido aflito
Duma criança
Ao vir ao mundo.
É só esperá-lo.

E no abraço ardente
Da esposa em casa,
Há tanto ausente,
Na nossa chegada…
É só abrir-se.

Bem aventurados quantos,
Com toda a esperança,
Tudo fizerem,
Nas suas vidas
Por as merecerem…
Serão cumpridas!

Berlim, 21 de Maio de 2014
6h31m
Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 19 de maio de 2014

viveria outra vez...

Por mim...

Se pudesse, voltaria a nascer,
No dia seguinte,
Depois de morrer.

Escolheria o meu Pai Joaquim,
Minha Mãe Leonor.
Queria o meu berço
E a minha escola,
Em Pedra Maria,
De campos e montes,
Fontes tão puras,
E um ribeiro escondido,
Um cruzeirinho à porta,
Com uma capelinha ao pé.

Os mesmos verões e invernos
Com madrugadas acesas,
E serões de luar.

Com rezas do terço
E às almas partidas,
De sangue ou vizinhas,
Que já foram nossas.

Aquela escolinha ao sol,
O recreio
Parecia uma eira,
Brincando felizes
Como o milho a secar.

Aprendia a ler e escrever.
Até onde pudesse chegar.
Aprendia uma arte,
À medida das mãos.
Que me permitisse viver.

Escolheria os caminhos,
Por onde devia passar,
Com a bênção de Deus...
Tal como os amigos,
Na vida,
Podiam ser os mesmos
Ou outros,
Desde que me merecessem amar...

Ouvindo Plácido Domingo
Berlim, 20 de Maio de 2014
7h57m
Joaquim Luís Mendes Gomes



viveria outra vez...

Por mim...

Se pudesse, voltaria a nascer,
No dia seguinte,
Depois de morrer.

Escolheria o meu Pai Joaquim,
Minha Mãe Leonor.
Queria o meu berço
E a minha escola,
Em Pedra Maria,
De campos e montes,
Fontes tão puras,
E um ribeiro escondido,
Um cruzeirinho à porta,
Com uma capelinha ao pé.

Os mesmos verões e invernos
Com madrugadas acesas,
E serões de luar.

Com rezas do terço
E às almas partidas,
De sangue ou vizinhas,
Que já foram nossas.

Aquela escolinha ao sol,
O recreio
Parecia uma eira,
Brincando felizes
Como o milho a secar.

Aprendia a ler e escrever.
Até onde pudesse chegar.
Aprendia uma arte,
À medida das mãos.
Que me permitisse viver.

Escolheria os caminhos,
Por onde devia passar,
Com a bênção de Deus...
Tal como os amigos,
Na vida,
Podiam ser os mesmos
Ou outros,
Desde que me merecessem amar...

Ouvindo Plácido Domingo
Berlim, 20 de Maio de 2014
7h57m
Joaquim Luís Mendes Gomes



quarta-feira, 14 de maio de 2014

o abraço...

O abraço...

Tem tanta força
Um só abraço.
Na hora certa.

Quem não experimentou?...

Ele rompe as pedras todas
Que atravancam o caminho....

Reduz a cinzas
As asperezas e atritos
Que, num dia errado,
Geraram as distâncias.

Semeia um tal calor
Que derrete o aço frio
Que reveste os corações.

Tudo arrasta,
Mesmo penedos,
Encosta acima.

Ergue para o ar
Os ramos pendentes
Que iriam morrer de murchos.

Dá força aos fracos.
Para serem fortes.

Robustece quem teve a força
De ser o forte
E dar o passo.

Perdoar na hora,
Pode parecer um passo em falso.

Uma vez dado,
Se vem do fundo,
Gera um perdão tal
Que para sempre esmaga
Quem feriu o nosso braço.

Ouvindo Smetana, em rio Moldau

Berlim, 14de Maio de 2014
22h37m
Joaquim Luís Mendes Gomes

terça-feira, 13 de maio de 2014

as bermas da vida...

ida...

A vida é um caminho.
Mais ou menos longo.
Se conhece o começo.

O termo, 
Só há Um que o sabe bem.

Nada vem do acaso.
Vamos nele cumprindo um fim.
Para nosso bem
E bem geral.

Por vezes, é estreito e sinuoso.
Outras, recto e tranquilo.

Um mar sereno,
Onde, parece,
Nada acontece.

Muitas, desce
E custa a subir.

Tem escolhos,
Espinhos e pedregulhos.

Claridão de sol,
Um céu azul,

Por vezes, nuvens.
Luar de noite,
E noites cerradas.

Tem horas de alma
Plena de força
E esperança.

Outras cegas,
De bruma negra.

Não são senão as bermas
Deste caminho,

Longo ou curto,

Duma viagem,
Rica e boa
Que nos faz viver...

Ouvindo Smetana, em Rio Moldau
Berlim, 14 de Maio de 2014
7h4m
Joaquim Luís Mendes Gomes