segunda-feira, 26 de maio de 2014

anda música no ar...

Anda música no ar.

Neste fim da tarde.

O vento faz bailar as árvores.

O sol faz sorrir suas folhas.

Canta o passaredo.

Feliz,

Por se recolherem nos ninhos.

No meu coração,

De lusitano,

A saudade canta.

Oiço ao longe,

Cantar o fado.

"Ai mouraria"

"Ai Alfama"

e a Madragoa…

Nas ruas do Porto,

Há algazarra e há folguedo.

Gente alegre,

Mesmo sem cheta!…

O milagre da sabedoria.

A riqueza está na vida

Do dia a dia.

Com seu Douro. Bailarino.

Tão contente por chegar à Foz!…

Vem lá da Régua,

Tocado a vinho.

E o Alentejo extenso,

Pacato e soalheiro.

Seara de pão.

E tem cá um vinho…

Com tanta raça…

Sabe a mel.

E o licor beirão

A faiscar na taça,

Parece sangue…

Quase divino.

E verde vinho,

Espumando a mar.

Videiras rainhas,

Em altas ramadas.

Ó companheiro nosso!

A sair da pipa,

Lá nas adegas…

Quem te provou,

Estremeceu de gozo.

Tanto gostou.

Jamais esqueceu.

E o salpicão em cachos,

Negros do fumo de pinho.

Os olhos ardiam.

Agora choram…

Minha vingança é a saudade.

Só quem está for a.

É quem a sente!…

Ouvindo Bill Douglas uma vez mais…

Berlim, 26 de Maio de 2014

21h41m

Joaquim Luís Mendes Gomes

indiferença...

ndiferença…
Passar ao lado, à frente
E ficar para trás,
Dum ser amigo,...
Sem ouvir um olá,
Sequer…

Dizer adeus e nada
A quem fingiu
Na hora exacta,
Olhou para o lado
Ouviu
E virou a cara.
Bater a porta,
A quem bateu,
Para matar saudades
E dizer olá,
A quem, lado a lado,
Andou connosco,
A caminho da escola,
Na sala de aula,
Sector da fábrica
Ou da academia…
A quem a sorte
Encheu o bolso,
Com totoloto,
Roda da sorte,
Ou com sorte da bolsa,
No mesmo dia.
Ou saíu general inútil,
De tantas estrelas,
Naquela tropa,
Não servem para nada,
Mas está convencido
Que é um rei de copas
Ou pior de oiro…
Ficou doutor, com um manuscrito,
Tão bem escrito,
Tudo somado,
Não serviu
Para nada.
Se fez clérigo opaco,
Com colarinho branco,
Usou batina, preta,
E , com muita arte,
Chegou a cónego…tão infeliz!
Queria ser bispo!…
E, cheio de posses,
Dizer que não
Ao próprio irmão,
Com dificuldades na vida
De que não tem culpa,
E lhe estende a mão,
A pedir ajuda…
Mais que indiferença.
Mais que tristeza.
É maldição!…
Não tem desculpa.
Só tem perdão
de quem for capaz....
Berlim, 26 de Maio de 2014,
17h56m
Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 25 de maio de 2014

alegoria...

Alegoria do rio…
Bem no fundo de mim,
 Desde sempre,
 Corre um rio,
 De águas profundas.
 Nele me banho a toda a hora.
 Onde nasce. Donde vem
 E por onde passa,
 Eu não sei.
 É tão vizinho.
 Vive para mim.
 Ele me enche,
 Inteiro,
 Como minha parte.
 Me atravessa a alma
 E todos os poros
 Deste corpo opaco e nu.
 Me lava a pele
 E me inunda.
 Me refresca, vivifica
 E me acalma.
 Em cada passo.
 Nele pesco meu alimento.
 Nele vou a toda a parte.
 Seu leito
 É o meu barco.
 Suas marés cheias
 Me fertilizam
 E me alisam todos os escolhos.
 Dá-me praia,
 Sol e sombra,
 Nas suas margens.
 Me encanta
 Seu gorgolhejar constante.
 Por entre as pedras
 E os arbustos.
 Faz recortes e enseadas
 Na minha vida.
 Onde acontecem
 Meus encontros.
 E há trocas livres,
 Sem mercado.
 Tenho afluentes certos
 Que me esperam com saudades.
 Seus matizes tão variados
 São meu sustento.
 Damos as mãos
 E lá vamos de braço dado,
 Rumo ao porto
 Onde nos aguarda em festa
 O mesmo Mar…
Berlim, 26 de Maio de 2014
 5h54m ( já nasceu o sol…)
Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado, 24 de maio de 2014

sermão da montanha...

Sermão da montanha…

Não subo à montanha,

Nem prego semões.

Não visto fardas.

Nem opas de igrejas.

Sem distintivos na minha lapela.

Não sirvo clubes

Nem nenhum partido.

Enchi o meu espírito

Com luzes nascidas

Nos alvores do Marão.

Com rocha,

Granito,

Cobertos de musgo,

Onde crescem as urzes,

Há lobos vadios

Que louvam a Deus.

Minha estrela é polar,

O cruzeiro do sul.

A lua de Agosto,

Em noite de breu.

O sol me ilumina e me aquece.

Me banho no mar.

Respiro a brisa

Em ondas de espunha.

Me visto com algas,

E durmo no chão.

Não tenho automóvel.

Nem sigo as estradas.

Sigo caminhos trilhados

Por feras ou rebanhos

Perdidos que só vivem ao ar.

Oiço as aves rapinas

Pairando nos ares,

Às voltas na vida,

Fazendo seu ninho,

Buscando seu pão.

Como carcaças silvestres.

Amoras das negras,

Que nascem maduras

No meio das silvas.

E cachos de uvas

Que nascem bravias

No meio das fragas.

Não servem para vinho.

Mas são como o mel.

Não ando descalço.

Trago sandálias de couro

E de pele.

Um manto de trapos,

Com um cinto apertado,

Me cobre e me tapa.

Não uso camisa.

Não ponho gravata,

De inverno e verão.

Meus cabelos

E barbas grisalhos,

Soltos ao vento,

Me pendem à frente

E ficam para trás.

Levo um cajado,

Por causa das feras.

Encho o cantil

Com água das rochas

Faço fogueiras,

Asso maçarocas de milho,

Sabem a pão.

Não tenho relógio

Nem conto o tempo.

Nem somo os dias e noites,

Que nascem e morrem

Sem mim,

Caídos do céu.

Minha alma sem penas,

Afastada do mundo,

Voa tão livre,

Com asas de sonho.

Meu corpo cansado,

Dormita,

Estendido no chão.

É assim que eu vivo

Não prego nem oiço sermões…

Ouvindo Bill Douglas

Bberlim, 25 de Maio de 2014

7h9m

Joaquim Luís Mendes Gomes

sábado diferente...

Sábado diferente

Vim escrever para a varanda.

Na manhã deste Sábado de Maio.

Vejo os carros na rua correndo.

No rosto uma brisa fresca e suave.

Oiço as aves cantando.

Rolas, pombas e melros.

Entoam os mesmos trinados,

Em língua

Que todo o mundo entende.

Seguem aviões pelo alto,

Rasgando estas nuvens cinzentas.

Numa correria constante.

Deixa toda a gente indiferente.

Vejo cartazes espalhados.

Anunciando as eleições

Que aí vêm.

Os mesmos sorrisos de rostos.

Com promessas que nunca se cumprem.

Chegam-me toques de sinos,

Entre este ruido constante.

Me lembram que os passos que damos,

Por mais voltas que dermos,

Se passam entre a terra e o além…

Há compassos de espera,

Forçados,

Diante dos semáforos que caem.

Os carros se quedam especados.

Diante duma simples bola vermelha…

Como cavalos amestrados.

Lá dentro,

Os donos cerram os dentes…

 

Berlim, 24 de Maio de 2014

8h20m

Joaquim Luís Mendes gomes

terça-feira, 20 de maio de 2014

promessas...

Promessas…

Há promessas desgraçadas.
Mais ameaças.
Vêm do fundo dos tempos.

Nunca foram
Nem serão cumpridas.
É nossa sorte.
...
Outras são bem aventuradas.
Já são dádivas.

Vêm inscritas no coração
Desde a origem.
A nossa marca.

Das primeiras,
Não temos a chave.

Inacessíveis.
Mui bem guardada.
É nossa sorte.

Das segundas,
Estão confiadas
À nossa vontade.
É só abri-las…

Quem não almeja a felicidade?…

Ela nasce verdejante,
Em cada dia,
Quando nasce o sol.
É só esperá-lo.

Vem na brisa doce
Que vem do mar,
Ao amanhecer
E ao cair da tarde.
É só buscá-la.

Vem no desabrochar em festa,
Duma flor garrida.
É só hauri-lo.

Até no lagido aflito
Duma criança
Ao vir ao mundo.
É só esperá-lo.

E no abraço ardente
Da esposa em casa,
Há tanto ausente,
Na nossa chegada…
É só abrir-se.

Bem aventurados quantos,
Com toda a esperança,
Tudo fizerem,
Nas suas vidas
Por as merecerem…
Serão cumpridas!

Berlim, 21 de Maio de 2014
6h31m
Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 19 de maio de 2014

viveria outra vez...

Por mim...

Se pudesse, voltaria a nascer,
No dia seguinte,
Depois de morrer.

Escolheria o meu Pai Joaquim,
Minha Mãe Leonor.
Queria o meu berço
E a minha escola,
Em Pedra Maria,
De campos e montes,
Fontes tão puras,
E um ribeiro escondido,
Um cruzeirinho à porta,
Com uma capelinha ao pé.

Os mesmos verões e invernos
Com madrugadas acesas,
E serões de luar.

Com rezas do terço
E às almas partidas,
De sangue ou vizinhas,
Que já foram nossas.

Aquela escolinha ao sol,
O recreio
Parecia uma eira,
Brincando felizes
Como o milho a secar.

Aprendia a ler e escrever.
Até onde pudesse chegar.
Aprendia uma arte,
À medida das mãos.
Que me permitisse viver.

Escolheria os caminhos,
Por onde devia passar,
Com a bênção de Deus...
Tal como os amigos,
Na vida,
Podiam ser os mesmos
Ou outros,
Desde que me merecessem amar...

Ouvindo Plácido Domingo
Berlim, 20 de Maio de 2014
7h57m
Joaquim Luís Mendes Gomes