terça-feira, 17 de junho de 2014

gravitação dos seres...

Gravitação dos seres…

Vivemos no universo,

Como astros, muitos tamanhos.

Todos diferentes.

Cada um seu brilho

E história.

Arde em nós a mesma chama.

Do mesmo fogo sideral.

Cada um tem sua órbita.

Seu começo

E o seu término.

Se cruzam e se entrelaçam,

Como feixes de harmonia.

Se repelem, quando há oposição.

Se atraem e se misturam.

Como a água e como o vinho.

Interagem. Se miram.

Aglutinam.

Proliferam.

Tão diferentes,

Tão iguais.

Não são bolas de sabão.

Têm fogo

E chama própria.

O eterno

É seu destino…

Berlim, 18 de Junho de 2014

6h30m

Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 16 de junho de 2014

arte de ser feliz...

Arte de ser feliz…

 

Há tantas linhas que cosem

O vestido da felicidade.

Com que gostamos de andar na rua.

Que toda a gente veja

E goste de nós.

Das suas cores.

Bem combinafas,

Da cabeça aos pés.

Por vezes, cai-lhe uma nódoa.

Quando e onde

Nunca se espera.

Fica-se triste.

Tem remédio.

Limpeza a seco.

Mo cinque à sèque…

Barato e bom…

Como novo.

Pegaos nele outra vez

E lá vamos nós.

Raiando ao sol.

Como brilham estas linhas

Coloridas.

Cheias de azul e verde,

Em fundo preto.

No colarinho,

Um cachecol de lã.

Ou algidão branco.

Protejendo o col…

Conforme o frio ou o sol.

A camisa é furta-cores.

Vai mudando,

Conforme a estação.

É escura, no inverno.

Capta melhor a luz e calor.

É verde e rosa,

Primaveril.

Amarela e rubra,

Nos dias de estio.

Lilás e azul,

Como as flores de lis.

De setembro a novembro,

Pelo colher das uvas.

Que lindo lenço,

Vai no bolso ao peito.

É bom sinal.

Que lá dentro há fogo.

Ardendo e é para se ver…

As calças são paralelas

Rectas.

Nossa base de sustento.

Querem-se de cinza ou pretas.

Com permanente vinco.

A roçar os pés…

E os sapatos,

Reluzem verniz.

Servem de espelho,

Ao nosso nariz…

Por eles sei

E sabem

Se vou feliz…

Ouvindo Gershwin- Rha psody in blue

Berlim, 17 de Junho de 2014

6h36m

Joaquim Luís Mendes Gomes

domingo, 15 de junho de 2014

Encontro de ex-combatentes da Guiné...

Em honra do grande encontro

Dos heróis de Monte Real

Grande largada…

Vieram de todos lados.

Festivos. Saudosos.

Com suas mulheres.

Seus amigos.

De cores garridas.

Joviais,

Como se ainda fossem praças.

Servindo naquela guerra.

Que brotou

Da honra.

Vitimou vidas,

Semeou a morte.

Por uma causa justa.

Assim o sentiam,

Bem no fundo,

Todos,

Senão fugiam.

Uns dois anos das sua vida

De jovem,

Ao raiar.

Correndo bolanhas,

Saltando minas,

Ouvindo a etralha

Ao perto e de longe.

Arrostaram a morte,

Tantas vezes.

Não zarparam…

E voltavam sempre.

Bons compnheiros,

Irmãos para sempre.

E depois, no fim,

Todos felizes,

Subiram para o barco

Da livração total.

Desceram o Geba.

Entraram no mar.

Se estava bravo ou manso,

Nada importava.

Podia até ir ao fundo.

Suas almas vibravam tanto

O barco dançava com eles.

Em cinco dias,

Cruzaram a distância,

E, milagre!

Pela manhã dum dia,

Ali estava o Ttejo largo e doce,

De braços abertos,

Para os receber.

Vieram subindo.

Cascais. Carcavelos.

Trafaria ao lado.

A Sintra lá longe.

E, no fim a Ponte

Que era Salazar…

Homem potente

E vertical, impoluto,

Embora imperfeito…

Veio à janela,

Cheia de gente,

Batendo as pamas,

Esvoaando lenços.

Seus corações bailavam no peito,

Tanta alegria…

Heróis reais!.

E veio o Cais da Rocha.

Tão lentamente,

Como o fora à partida.

Uma explosão sem fim,

Ao atracar as amarras.

As escadas subiram.

Fizeram caminho

Para a recepção final…

Foram tantos abraços,

Beijos às cores.

De filhos com pais.

Mulheres e seus filhos.

Correram lágrimas.

O Tejo cantou,

Com tantas!…

E, sem se dar conta,

Era o regresso à base,

Donde tinham partido!

Depois, a debandada geral.

A dispersão.

A chegada às famílias…

Outro momento

De alegria sem fim.

O cheiro da casa.

O abraço das gentes

Que nos viram crescer…

Rezaram por nós…

Óh Meu Deus!

E vós ouvistes!

Daí para a frente,

Outra guerra começou.

Muito pior.

Cheia de incertezas.

Uma luta tremenda.

Cada um por si,

Subiu,

Subiu, a pulso,

Uma escada sem fim.

Até um lugar ao sol.

E vieram as noivas

E vieram os filhos.

Uma luta feroz

A jorrar de amor.

E os tempos correram.

Tão velozes.

Foram somando…

Somando…

Até que, um dia,

O grande encontro,

Para muitos o primeiro,

Depois de meio século.

 

A sensação real,

Era de que o que os reunia ali,

Acontecera ontem…

Cada um conte, de si,

O que lhe foi na alma.

Bendita a hora

Em que tão feliz ideia nasceu.

Ouvindo Rimski-Korsakov: Scheherazade

Berlim, 16 de Junho de 2014,

6h25m

Joaquim Luís Mendes Gomes

Embora ausente, estive presente, de alma e coração, com todos vós, em Monte Real…

Aquele abraço, até ao próximo.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

nau catrineta...

Cá vem a nau catrineta…

Quisera dar a volta ao mundo,

Na minha pequena caravela

De velas brancas,

Aportar sereno,

Na praia ao pé

Da tua porta.

Ir de casa em casa,

Levar a prenda, à certa,

Uma para cada amigo,

Que ma abrisse.

Encher de alegria

E esperança,

Cada lar,

Onde faltassem.

Dizer precisas,

A cada ouvido,

Aquela palavra

Que cala fundo.

Fosse a chave de oiro

Para um mundo novo.

Levar sementes sãs

De novas árvores,

Com novos frutos.

Secar lágrimas de choro,

Por tanta dor aguda

Que dói oculta…

Trazer a paz benéfica

Das searas verdes,

Que as amadurece ao sol

E, de pão,

Enchem as arcas.

Queria ver a terra

Sem fome e guerra.

E todo o mundo,

A viver feliz…

Berlim, 12 de Junho de 2014

5h46m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 

 

terça-feira, 10 de junho de 2014

as escadas...

As escadas…
São fracções de passos,
Que encurtam caminho,
Por onde se sobe
Ou por onde se desce.
Se inclinadas e prostradas
Sobre uma encosta,
São escadórios,
Mais ou menos engalanados,
Estátuas de santos,
Muitas capelas,
Que nos levam,
Ao alto,
Suavemente,
Aos santuários.
Duas traves de pau,
Compridas,
Leves escadotes,
Nos levam do chão,
Lá acima, às uvas,
Pela colheita das vindimas.
Pedra a pedra,
Em caracol,
Vão por fora,
Vão por dentro,
Mui bem cravadas,
Levam o sineiro alegre,
Ao campanário.
E, se rolantes,
Sobre um tapete,
Em circuito,
Aí vamos à vez,
Dito e feito,
Sem qualquer passada.
Ó maravilha!…
É só poisar
E deixar-se ir.
E nos palácios nobres,
Paquetes gigantes
Tão imponentes,
Fazem escadórios,
Onde tão elegantes,
Muito adonaire,
Deslizam fraques,
E grandes vestidos…
Com muito charme.
E, nos futebóis,
Aos socalcos,
Parecem vinhedos,
Dão tantas voltas,
Sentam a turba,
Em multidão,
Com tanta cadeira
Que nem tem conta!…
Berlim, 11 de Junho de 2014
5h54m
Joaquim Luís Mendes Gomes

segunda-feira, 9 de junho de 2014

decote ao sol...

Decote ao sol…

Salto para o meu cavalo
E corro a trote,
Pelas escarpas,
Pelas fragas,
Desço a encosta,
Até ao rio.

Tomo banho....
Dois mergulhos,
Duas braçadas,
Quase afogo.
Venho ao de cima.
Sacudo a água.
Vou mais além.

Sigo em frente,
Contra a corrente.
Nunca desisto.
Mudo de estilo.
Ora de bruços,
Ora de rã.
Quando cansado,
Fico boiando,

Limpo meus olhos
Olhando o espaço,
Saboreando a brisa,
Contando as folhas.

Fico sonhando,
Escrevo um verso,
Com linda letra,
Um lindo mote,
Fecho a carta,
Mesmo sem selo,
Entrego à mão
E fico à espera,
Até de manhã…

Berlim, 10 de Junho de 2014
Joaquim Luís Mendes Gomes

tabernáculo do templo...

Tabernáculo do templo…

Algures no universo de mim,
Reside um templo de alabastro
E num altar exposto,
Uma arca de marfim.

A guardá-la, permanentes,
Quatro elefantes da Índia,
Elegantes e poderosos....

Sobre ela impende,
Suspensa por umas correntes,
Um candelabro aceso,
Em madrepérola,

Sua chama arde,
Umas vezes viva
Outras tremeluzente.
Com um sopro brando
Duma fonte oculta,
Incessante e permanente.

À sua volta, gravitam estrelas brancas
Cintilantes,
E no seu seio,
Corre um rio extenso
E caudaloso.

Suas águas límpidas,
Nascem no hiperurânio.

Atravessam fragas pedregosas
E areias.

Correm-lhe cardumes
De ideias, abundantes,
De espécies várias.

Todas etéreas.
Quase divinas.

Têm asas lindas
De borboletas.
Suas folhas,
Onde em versos,
Escritos à mão,
Se cantam cantos,
Se entoam hinos.
Quase divinos.

Que eu escuto,
Religioso, no meu silêncio,
E transmito ao mar do mundo…

Ouvindo “ Ave Maria” por Olga Szyrowa

Essen, 9 de Junho de 2014
5h37m
Joaquim Luís Mendes Gomes